O primeiro balanço da pré-temporada feito por Bruno Lage em Stanford, onde a equipa está a estagiar nos Estados Unidos, teve sobretudo coisas positivas. Na ótica do técnico, “o grande objetivo neste momento é ir ao encontro do melhor do ano passado” e, em paralelo, “criar a melhor condição física para todos” para manter a mesma forma de jogar no plano coletivo com que a equipa terminou a última temporada. Palavra chave, no discurso e também nos treinos: ligação. Ligação entre jogadores de setor, ligação entre setores, ligação nos momentos do jogo. Porque é nessa ligação que se encontra o sucesso do Benfica de Lage.

“O mais importante é ligarem-se uns aos outros, voltarem a ligar-se uns aos outros. Até mesmo na forma como os novos jogadores foram recebidos, para interagir, e temos sentido isso: há uma vontade enorme de entrar no espírito desta equipa, dentro e fora de campo”, reforçou o treinador dos encarnados, entre explicações mais técnicas sobre a importância de perceber as características dos jogadores mais novos para encaixar na dinâmica coletiva e uma “provocação” ao dizer que queria tirar algum conforto aos atletas para que ninguém se sentisse acomodado. No primeiro teste nos States, a contar para a International Champions Cup, o Benfica ganhou ao Chivas de Guadalajara por 3-0 num encontro onde Vlachodimos viu três bolas nos ferros da sua baliza. Durante 20 minutos, o meio-campo quebrou em termos físicos, a equipa perdeu ligação e os mexicanos foram tendo alguma superioridade; antes e depois desse momento após o intervalo, os encarnados controlaram. E tudo porque nesta equipa onde Raúl de Tomás está cada vez mais entrosado, o segredo do sucesso continua a ser “ouvir”: ouvir as ideias do técnico e colocá-las em campo, ouvir quem está onde e a fazer o quê, ouvir o momento certo para atacar a baliza contrária.

Mesmo com dois intérpretes novos no onze (além de Nuno Tavares, lateral esquerdo que esta noite cumpriu estando adaptado a defesa direito pela primeira vez), a entrada do Benfica deixou uma imagem muito semelhante aos melhores jogos dos encarnados com Bruno Lage no comando em que a pressão inicial da equipa resultava quase de imediato em golo, vantagem e outra forma de poder gerir depois o desenrolar dos acontecimentos. Raúl de Tomás, ou R.D.T., que voltou a dar mostras de ser aquele tipo de avançado que necessita apenas de uma pequena brecha para visar a baliza, deixou um primeiro aviso com apenas três minutos e marcou aos quatro: Caio Lucas ganhou a frente em velocidade pela esquerda, cruzou rasteiro a passar toda a área e o antigo dianteiro do Real Madrid só teve de encostar para inaugurar o marcador.

O Chivas começou mal e não ficou melhor depois de ter sofrido um golo ainda dentro dos primeiros minutos, deixando vários espaços em zona defensiva que o Benfica ia aproveitando através da mobilidade dos jogadores mais adiantados. Gabriel, num remate onde pegou mal na bola e atirou fraco, deixou mais um aviso antes da reação dos mexicanos, mais capazes de saírem em transições para a frente e visarem a baliza de Vlachodimos, fosse de bola corrida (González, 13′) ou de livre direto (defesa fácil de Vlachodimos, 18′). O encontro entrou depois numa fase mais morna até à paragem para hidratação, com Caio Lucas a andar mais desligado do jogo e Raúl de Tomás a conseguir já recuperar bolas na primeira pressão na saída do Chivas.

Ainda antes do intervalo, o conjunto de Gualajara, que terminou a primeira parte atrás do Benfica em praticamente todos os dados estatísticos (sobretudo na posse houve uma diferença assinalável), teve a melhor oportunidade não concretizada dos 45 minutos iniciais, com Miguel Ponce a surgir sozinho na área após cruzamento na esquerda – onde Grimaldo, entre as várias iniciativas atacantes onde consegue participar e desequilibrar, tem sentido algumas dificuldades defensivas – para cabecear picado e obrigar Vlachodimos a uma defesa apertada para o lado que evitou o empate dos mexicanos (42′).

Para o segundo tempo, Bruno Lage fez apenas duas alterações, com as entradas de Jardel e Rafa. Nada mudou em termos táticos, pouco se alterou no plano estratégico mas a verdade é que o Chivas, subindo mais as suas linhas e zonas de pressão, conseguiu ir ganhando o meio-campo e aproveitar algum desgaste físico que se foi sentindo no corredor central para agarrar no domínio do jogo e ficar de novo muito perto da igualdade em duas ocasiões, com os remates de meia distância de Miguel Ponce (50′) e Alexis Vega (60′) a acertarem na trave da baliza do grego que pouco ou nada poderia fazer para evitar o golo. Os mexicanos andavam mais perto do empate, o Benfica mexeu e o encontro voltou a ficar mais ao jeito dos encarnados, que ao trocarem os já esgotados Gabriel e Florentino Luís por Samaris e Taarabt reconquistaram o meio-campo, o jogo e o resultado.

Apenas cinco minutos depois destas alterações, que lançaram também Chiquinho e Jota nos lugares de Pizzi e Raúl de Tomás, os encarnados chegaram mesmo ao segundo golo com Jota a assistir Rafa no espaço entre lateral e central já na área para o remate rasteiro sem hipóteses que fez o 2-0 no Levi’s Stadium (70′) para gáudio dos muitos adeptos do Benfica em Newark. que ainda iam fazendo a festa do segundo e já tinham os braços no ar pelo terceiro apontado por Seferovic, a receber nas costas dos defesas contrários uma grande assistência de Taarabt para atirar de pé direito para o 3-0 (73′). E os números não aumentaram logo no minuto seguinte porque Raúl Gudino evitou o bis do suíço com uma grande intervenção para canto, antes de mais uma bola no poste do Chivas mesmo nos últimos minutos da partida por Miguel Ponce (90′).