A Nissan foi o segundo construtor a avançar para a fabricação de baterias (de packs, mas também de células – o que é menos vulgar), logo a seguir à Tesla. A opção não lhe correu particularmente bem, uma vez que a tecnologia que usa não é a mais recente. Daí que a Renault, a sua parceira e maior accionista, tenha optado por comprar células à LG Chem.

Por este e outros motivos, desde há muito que o construtor japonês tenta vender a sua fábrica de baterias, a AESC (Automotive Energy Supply Corporation), que detém em colaboração com a NEC. Mas a ausência de um final feliz das negociações tem levado os nipónicos a continuar a manter a laboração, mesmo se isso implica montar no novo Leaf acumuladores que não aceitam carga rápida, a 100 ou 150 kW, nem possuem refrigeração líquida, para suportar esforços superiores.

Contudo, nada impediu a Nissan de ser a primeira a propor um sistema de V2G (Vehicle to Grid), que permite que automóveis eléctricos armazenem energia quando ela é barata, para depois a fornecerem à casa ou à rede eléctrica sempre que tal é necessário, conseguindo ainda que o proprietário do Leaf ganhe dinheiro com isso.

Posto tudo isto, foi com alguma surpresa que os presentes na apresentação da segunda geração do Leaf, na Austrália, ouviram o responsável global pelos veículos eléctricos da Nissan, Nic Thomas, criticar o enorme investimento realizado pelos australianos num gigantesco pack de baterias estacionárias, em Hornsdale. Na realidade, quem investiu não foi o Governo local, mas sim uma empresa bem conhecida dos portugueses, a Neoen, empresa francesa gigantesca na área da energia que, além de centrais nucleares e barragens, possui ainda centrais fotovoltaicas e eólicas espalhadas pelo mundo, inclusivamente em Portugal.

Defendeu Nic Thomas que o parque de baterias adquirido à Tesla, com uma capacidade de armazenamento de 129 MWh (equivalente a 1.290 unidades do Tesla Model S 100D, ou 3.225 do Nissan Leaf com bateria de 40 kWh), era “um completo desperdício de recursos”. Isto vindo de um fabricante que anunciou, com pompa e circunstância, a ‘nobreza’ do investimento num parque de baterias com a capacidade de 3 MWh para iluminar o estádio do Ajax, na Holanda, recorrendo ao equivalente a 148 Leaf, segundo a Nissan.

Defende Thomas que o ideal era reunir condições para que os utilizadores de veículos eléctricos, idealmente Leaf e Zoe, os únicos que de momento já oferecem esta possibilidade, colocassem os seus automóveis V2G ao serviço da rede eléctrica australiana. O que até pode acontecer dentro de uns anos – é mesmo desejável –, mas ambicionar que estivessem já em operacionais, como estão os acumuladores de Hornsdale é, no mínimo, utópico. A Austrália necessitava de uma solução há um ano e, de momento, há apenas redes eléctricas inteligentes experimentais – uma delas em Porto Santo, no arquipélago da Madeira, que não passam disso mesmo: experimentais.

O espanto suscitado pela afirmação de Thomas prende-se com o facto de tanto a Neoen como o Governo australiano terem confirmado os ganhos alcançados graças aos acumuladores de Hornsdale que, de acordo a Neoen, permitiram um encaixe de 17 milhões nos primeiros seis meses de funcionamento, o que aponta para um break-even a dois anos, prazo inverosímil de início. Veja aqui como funciona o V2G: