Da geração dos chamados “movie brats”, que irrompeu por Hollywood nos anos 70 e mudou o cinema americano de cima a baixo, poucos foram os que se conseguiram aguentar no balanço, ocupam ainda um lugar central na indústria cinematográfica e continuam a filmar com regularidade. É o caso de Steven Spielberg, de Martin Scorsese ou de George Lucas (este hoje mais ligado à produção). Brian De Palma é daqueles que não só foi sendo afastado para a periferia do sistema de produção hollywoodesco, como acabou por deixar os EUA e passar a filmar na Europa e mesmo na América Latina, estando a preparar-se para rodar um policial, “Sweet Vengeance”, no Uruguai, com financiamento e atores brasileiros.

[Veja o “trailer” de “Domino”:]

A sua nova realização, “Domino: A Hora da Vingança”, feita com dinheiro dinamarquês e rodada na Dinamarca e em vários outros países europeus, como a Espanha, a Holanda e a Itália, foi um experiência que ele prefere esquecer. Apesar de ter no elenco dois atores da série “A Guerra dos Tronos”, Nicolaj Coster-Waldau e Carice van Houten, cuja presença garantiria a De Palma, em princípio, uma produção confortável e uma rodagem tranquila, quase nada lhe correu bem, dado que não pôde dispor do dinheiro que tinha ficado convencionado, o que lhe veio afetar toda a estrutura do filme, causar atrasos nas filmagens e complicar a pós-produção. Isto apesar de ter mantido o controlo de “Domino: A Hora da Vingança” do princípio ao fim.

[Veja Nicolaj Coster-Waldau falar do filme:]

Todos estes problemas são detetáveis no filme, que salta à vista ser muito frágil em termos de valores de produção, de articulação e solidez narrativa, e de escassez de efeitos especiais, uma série B que não tem meios suficientes para ser a série A que deseja, embora vontade não lhe falte. Quanto à história de “Domino: A Hora da Vingança”, escrita pelo norueguês Petter Skavlan, tem o dedo em cima da ferida da atualidade: o terrorismo islâmico. Nicolaj Coster-Waldau interpreta Christian, um agente da polícia de Copenhaga a quem um indivíduo que aparenta ser um terrorista assassina o parceiro e foge. Acompanhado por uma colega, Alex (Carice van Houten), Christian põe-se no encalce do assassino através da Europa, mas descobre que nada é o que parece neste caso.

[Veja uma sequência do filme:]

O criminoso não é um jihadista, mas sim um antigo membro das forças especiais da Líbia que veio para a Europa perseguir o líder de uma célula terrorista islâmica que lhe matou o pai e planeia uma série de atentados no Velho Continente, e está a ser manipulado, contra vontade, pela CIA. E Alex está a ajudar Christian apenas porque era amante do seu parceiro, e quer matar o assassino. Tudo aqui é, afinal, vingança. Este tema das aparências e das motivações que enganam, e das pessoas que não são o que parecem ser, atirando as personagens para intrigas insuspeitadas, é bem característico do cinema de Brian De Palma. Tal como o da pulsão voyeurista (herdada do seu guru, Alfred Hitchcock), que está no cerne de alguns dos seus melhores filmes, como “Obsessão”, “Vestida para Matar”, “Blow Out — Explosão” ou “Testemunha de um Crime”.

[Veja uma sequência do filme:]

Esse voyeurismo, agora potenciado pelas redes sociais, assume, em “Domino: A Hora da Vingança”, proporções que o próprio De Palma nunca imaginaria, ilustrado pela sequência do atentado na noite de gala do festival de cinema na Holanda, em que a jovem terrorista que o leva a cabo tem uma câmara digital instalada na metralhadora, transmitindo em direto para a Internet o massacre e o seu subsequente suicídio com um cinto de explosivos.  Não houve até agora um filme que mostrasse tão bem a forma como uma ideologia fanática, criminosa e obscurantista, se serve dos mais avançados meios de comunicação e das mais recentes inovações tecnológicas para espalhar a morte, o terror e a sua doutrina retrógrada.

Mesmo à míngua de recursos, De Palma consegue, na sequência final do atentado com um “drone” durante a tourada em Espanha (à qual falta gente, aparato e uma melhor orquestração do pânico), mostrar que ainda não perdeu o dedo. Ele filma-a com a mestria que lhe conhecemos de há muito tempo, conduzido por um ideia eminentemente cinematográfica da ação, alternando os pontos de vista, acionando a câmara lenta para jogar com o “suspense”, privilegiando a montagem paralela e apoiando-se apenas na imagem e na banda sonora (a música é do grande Pino Donnagio, seu colaborador de longa data). Até com os tostões contados, em modo menor, num registo de série B, o quase octogenário Brian De Palma não deixa os seus créditos por mãos alheias.