O sentimento era demasiado genuíno para passar ao lado de qualquer um. As lágrimas, essas, exteriorizavam aquele sonho que se pensa impossível mas que se torna realidade. O discurso foi o seu prolongamento. Frases curtas, ideias claras, uma felicidade que ainda procurava o seu fim. E que, afinal de contas, está apenas agora a começar para durar por muitos mais dias.

“Ter a camisola amarela é a maior emoção da minha vida. Ainda não consigo acreditar. Fiquei com vergonha, quase chorei na subida ao pódio. Vi o meu papá e a minha namorada à minha frente, a chorarem… Foi muito emocionante. Não sei o que esperar amanhã [sábado], é um grande teste. Tenho de me concentrar na etapa, defender a camisola. Espero recuperar bem. Se for para me tirarem a amarela, terão de sofrer por isso”, atirou no final de um dia que mudou por completo o rumo do Tour.

O último fim de semana, que marcou o final da segunda de três semanas da Volta à França em bicicleta, deixou um cenário em aberto para os derradeiros dias de competição. A chegada a Tourmalet Barèges, com Thibaut Pinot na frente e Julian Alaphilippe a defender da melhor forma a liderança (e ganhando tempo a quase todos os concorrentes diretos), parecia quase confirmar que o vencedor seria mesmo um francês. No dia seguinte, na etapa que acabou em Foix Prat d’Albis, Alaphilippe já acusou o esforço das horas anteriores e cedeu tempo para os restantes ciclistas no top 10. O que ninguém conseguiria imaginar era a forma como iria acontecer o verdadeiro golpe de teatro na prova, com o colombiano Egan Bernal a assumir a dianteira da corrida.

“Violentas tormentas”, “rios de barro” ou “bolas de gelo” foram algumas das expressões utilizadas para descrever o autêntico temporal que se abateu na 19.ª etapa que ligava Saint Jeune de Maurienne e Tignes, que obrigou a organização não só a encurtar a tirada mas também a reduzir a 20.ª e penúltima, entre Alberville e Val Thorens, para apenas 59 quilómetros, menos de metade do que estava inicialmente previsto. Do céu veio a desilusão dos franceses, que no mesmo dia viram Pinot desistir em lágrimas com uma rotura muscular e Alaphilippe conformado com a passagem para o segundo lugar da geral a 48 segundos da liderança. Do céu veio o dia mais importante da carreira para Bernal, que acabou na frente quando a etapa foi interrompida.

Egan Bernal garantiu a vitória virtual terminando ao lado do companheiro Geraint Thomas, que ganhou em 2018 (Justin Setterfield/Getty Images)

“Quando a natureza desencadeia a sua força, é mais forte do que a força de todos os humanos”, explicou Christian Prudhomme, chefe do Tour. E foi assim que começou o sonho de colombiano de 22 anos da Ineos, pela forma mais improvável possível mas confirmado da forma mais convincente possível: durante vários quilómetros da curta etapa deste sábado, Bernal conseguiu não só manter ilesa a sua liderança como ganhar mesmo algum tempo a alguns dos adversários do top-5 que tinha uma distância inferior a dois minutos, sendo exemplo paradigmático disso mesmo Alaphilippe que a cinco quilómetros da meta já estava a mais de um minuto e meio de distância do grupo onde seguia o colombiano.

O italiano Vincenzo Nibali, que surgia com ambições neste Tour mas que teve uma prova para esquecer, ganhou a penúltima etapa, à frente de outros dois nomes fortes que se tornaram secundários nesta edição, os espanhóis Alejandro Valverde e Mikel Landa. Na classificação geral, Bernal reforçou a camisola amarela, passando agora a ter uma vantagem de 1.11 minutos sobre o segundo classificado e vencedor da edição de 2018, o companheiro de equipa Geraint Thomas. Steven Kruijswijk (Jumbo, a 1.31 minutos), Emanuel Buchmann (Bora, 1.56) e Julian Alaphilippe (Deceuninck, 3.45).