Podia ser o “Madrid de la Quinta del Buitre”, de forma resumida era conhecida apenas como “Quinta del Buitre”. Entre os anos 80 e 90, um Real Madrid que tinha no avançado Emilio Butrageño a principal referência entre muitos outros nomes como Michel, Martín Vázquez, Sanchis, Pardeza, Schuster, Hierro ou Hugo Sánchez (os três últimos na parte final) ganhou 16 troféus onde só faltou mesmo a tão desejada Taça dos Clubes Campeões Europeus, entre duas Taças UEFA, seis Campeonatos, três Taças, quatro Supertaças e uma Taça da Liga. Foi uma geração de sonho que tinha um princípio de jogo que fazia sonhar.

Qualidades técnicas, táticas, individuais e coletivas à parte, este Real Madrid era conhecido pela forma como queria ser primeiro em tudo. No final das provas, no início de todos os jogos. Era quase como uma filosofia, onde os merengues entravam em campo e queriam marcar o primeiro golo, fazer o primeiro remate, ganhar o primeiro canto, se fosse preciso conceder a primeira falta. De certa forma, foi isso que aconteceu no MetLife Stadium, em Nova Jérsia. Mas com os blancos a serem arrasados.

Primeiro minuto, primeiro golo: Odriozola perdeu a bola na zona de meio-campo após um choque com Lemar, Morata colocou rápido o primeiro passe da transição em João Félix, o português olhou para um lado para passar para o outro e Diego Costa, na área mais descaído na direita, viu o seu remate prensado em Sergio Ramos até enganar Courtois. Antes dos dez minutos, o 2-0: Saúl Ñíguéz ganhou uma segunda bola à entrada da área do Real perante a passividade de todos os jogadores contrários, cruzou rasteiro e o antigo avançado do Benfica encostou para o primeiro golo com a camisola do Atl. Madrid.

O conjunto de Zinedine Zidane vivia um autêntico pesadelo mas a história ainda nem a meio ia: Correa aumentou a vantagem num remate cruzado na área após grande jogada de Koke (19′); Diego Costa apontou o 4-0 após mais uma recuperação de bola de Saúl Ñíguéz em zonas mais adiantadas do corredor central após um passe de Sergio Ramos para Kroos que ficou a meio caminho (28′); e o internacional espanhol chegou mesmo ao hat-trick de grande penalidade em cima do intervalo, no seguimento de uma jogada onde Courtois tinha evitado o golo de João Félix que deixara Nacho no chão com uma finta na área (45′).

Apesar do 5-0, Courtois ainda tinha conseguido evitar dois golos e Lemar falhara um de baliza aberta ao segundo poste (37′). Do lado do Real Madrid, entre o autêntico naufrágio que deixava jogadores como Isco a olhar atónitos para o relvado sem perceber o que se estava a passar (e Gareth Bale, que estará a caminho da China, como se nada se passasse no banco), Vinicius teve a melhor oportunidade com um remate ao poste (38′). Tudo apontava para que, até por uma questão de orgulho, alguma coisa mudasse na segunda parte mas o seu arranque acabou por ser mais do mesmo: João Félix conseguiu receber o passe numa transição quando estava entre linhas, lançou Diego Costa nas costas dos centrais e o avançado chegou mesmo ao póquer (51′).

Nacho, num lance confuso após canto com Oblak a não conseguir desviar da zona de perigo, conseguiu reduzir para 6-1 ainda antes do primeiro quarto de hora do segundo tempo (59′) mas o jogo teria pouca história a partir aí, pelas inúmeras substituições nos dois conjuntos (que serviu sobretudo para se perceber o leque de opções que o Atl. Madrid preparou para esta temporada, casos de Felipe, Marcos Llorente, Herrera ou Vitolo) e por uma “caldeirada” entre Diego Costa e Carvajal que levou à entrada em campo até de suplentes e treinadores para acalmar os ânimos, terminando com vermelhos diretos para ambos os jogadores (65′). Mas Vitolo, após passar com imensa facilidade pela defesa do Real, ainda bateu Keylor Navas para o 7-1 (70′). E se não fosse o guarda-redes costa-riquenho o jovem Camello ainda tinha marcado mais em oportunidades claras na área, antes de Benzema fazer o 7-2 na transformação de uma grande penalidade (85′) e Javi Hernández fixar o 7-3 final (89′).

Dirgo Costa foi o grande protagonista do jogo com quatro golos antes do vermelho direto (JOHANNES EISELE/AFP/Getty Images)

João Félix, que tinha sido poupado depois da pancada na anca na primeira parte ainda do encontro particular com o Numancia, teve uma estreia de sonho em dérbis de Madrid pelo Atlético, com um golo e duas assistências. E este foi um jogo que tão cedo não será esquecido e que teve como espetador especial Valderrama, antigo internacional colombiano que fizera esta semana furor por uma foto com o cabelo liso mas que já surgiu com aquela espécie de “juba” que o notabilizou na carreira de jogador.

“É bom, começar a ganhar é sempre bom. Ganhar a um rival é sempre bom, tem um sabor especial. Vamos trabalhar para fazer o maior número de golos possível e tentar sofrer o menor para podermos ganhar, que é sempre o nosso objetivo. Traz sempre mais confiança mas vamos continuar a trabalhar como até aqui, sempre que os pés bem assentes na terra”, comentou João Félix, um dos estreantes em dérbis de Madrid, na zona de flash interview ainda no relvado do MetLife Stadium.