Em Espanha, é cada vez maior o número de jovens adultos que aparece em consultas de otorrinolaringologia com problemas auditivos típicos de pessoas mais velhas. A causa do problema parece ser o uso exagerado e prolongado de auriculares e o hábito de ouvir música demasiado alta. Esta é a opinião de vários especialistas ouvidos pelo El Mundo, que fizeram eco das preocupações da Organização Mundial de Saúde (OMS) que, há uns anos, divulgou um estudo em que alertou para os perigos de certas práticas. De acordo com a OMS, existem mais de mil milhões de adolescentes e jovens adultos em todo o mundo que estão em risco de sofrer uma perda de audição por manterem práticas que são nocivas.

María José Lavilla, presidente da Comissão de Audiologia da Sociedade Espanhola de Otorrinolaringologia, tem a mesma opinião. A médica acredita que ouvir música com headphones com o volume demasiado alto está a fazer com que os problemas auditivos surjam cada vez mais cedo na população. “Temos visto que, aos 40 anos, estão a manifestar-se transtornos típicos de pessoas com 60 anos”, disse ao El Mundo, alertando para o facto de que, no futuro, estas pessoas se podem a vir tornar em “surdos precoces”.

Josefa Donderis Sala, otorrinolaringologista do Hospital Denia-Marina Salud, em Allicante, assegura que, nos últimos anos, “aumentou exponencialmente o número de adolescentes que chegam [às consultas] com este problema trazidos pelos pais”. A médica espanhola deu o exemplo de um adolescente de 17 anos que sofria de uma perda moderada de audição associada à utilização inadequada dos leitores de música. “A família começou a notar que ele perguntava constantemente ‘o quê?’ sempre que alguém falava com ele e, além disso, precisava de aumentar o volume da televisão”, relatou.

De acordo com Sala, “o uso dos auriculares no telemóvel e tablet”, somado a “duas horas de exposição a ruído com um volume acima do aceitável”, fizeram com que o jovem sofresse uma hipoacusia, uma perda de audição que, neste caso, dizia respeito nas frequências elevadas. “A peculiaridade” da hipoacusia de que o adolescente sofria “devido à exposição contínua ao ruído é que dificultavam a inteligibilidade do que era dito”, explicou. O jovem não precisou de colocar um aparelho auditivo — a otorrinolaringologista recomendou apenas que reduzisse o tempo de exposição a leitores de música, incluindo o telemóvel —, mas nem todos têm a mesma sorte.

A OMS estima que quase 50% dos jovens de países desenvolvidos entre os 12 e os 35 anos estão “expostos a níveis inseguros de som”. Segundo os dados recolhidos pelo El Mundo, existem 43 milhões de pessoas entre os 12 e os 35 anos que tiveram problemas auditivos por causa deste tipo de prática.