Num exercício rápido de memória, torna-se quase inevitável não fazer uma série de paralelismos ou comparações entre a edição do Troféu Cinco Violinos da passada temporada e aquela a que o Estádio de Alvalade assistia este domingo. No dia 5 de agosto de 2018, o Sporting recebeu o Empoli naquela que é a partida que serve como ponto final da pré-temporada e apresentação oficial aos sócios e perdeu nas grandes penalidades depois de Misic e La Gumina estabelecerem um empate no tempo regulamentar. Misic acabou por nunca ser opção e está emprestado ao PAOK — mas as diferenças estão longe de ficar por aí.

Há sensivelmente um ano, o Sporting era orientado por José Peseiro, treinador escolhido ainda pela Comissão de Gestão liderada por Sousa Cintra. Há sensivelmente um ano, o Sporting estava então sob a liderança dessa comissão provisória, à beira de um ato eleitoral longo, complicado e cheio de voltas e reviravoltas que só culminou na vitória de Frederico Varandas já no início de setembro. Há sensivelmente um ano, o Sporting estava então a começar aquela que seria inevitavelmente uma temporada de retoma depois do período mais negro da história do clube. Passou sensivelmente um ano: Keizer chegou em novembro, conquistou duas Taças, Bruno Fernandes assumiu um papel de preponderância que há muito não existia em Alvalade e os leões parecem ter dado o necessário passo em frente.

Este domingo, o Troféu Cinco Violinos acolhia o Valencia que na época passada ficou em quarto lugar da liga espanhola, conquistou a Taça do Rei e chegou às meias-finais da Liga Europa: a passagem dos espanhóis por Lisboa, além de motivar um regresso de Gonçalo Guedes à Segunda Circular e o reencontro de Mathieu com o clube onde jogou cinco anos, provocou uma grande ovação de Alvalade a Cristiano Piccini, o lateral que esteve uma temporada no Sporting até sair para Valencia e que, claramente, deixou saudades entre os leões. Na apresentação dos 29 jogadores que completam o plantel principal escolhido por Marcel Keizer, poucas surpresas — André Pinto, Gelson Dala e Petrovic ficam de fora, Gonzalo Plata, Ivanildo Fernandes e Daniel Bragança estão entre as opções do técnico holandês.

Quanto ao onze inicial dos leões, poucas alterações face à equipa que empatou com o Liverpool na semana passada: Thierry Correia substituía Tiago Ilori na direita da defesa, Mathieu voltava a fazer companhia a Coates e atirava Neto para o banco de suplentes e Bas Dost era titular enquanto elemento mais adiantado, ficando Luiz Phellype fora dos titulares. Do outro lado, o ex-Benfica Garay era titular, assim como Gonçalo Guedes, e Rodrigo começava a partida no banco de suplentes. No último teste de pré-temporada antes do primeiro jogo a sério, já no próximo domingo na Supertaça Cândido de Oliveira contra o Benfica, Keizer parecia aproximar-se daquele que será provavelmente o onze preferencial do Sporting para a temporada: restando dúvidas, claro, quanto à inclusão de Acuña na equipa (que ainda não jogou depois de ter voltado da Copa América), a ainda possível saída de Bruno Fernandes e a chegada de mais reforços.

O Sporting entrou mais forte, a mostrar uma dinâmica ofensiva forte e sempre mais orientada pelo corredor direito, onde Raphinha arrancou a partida muito enérgico e com vontade de chegar depressa a terrenos mais adiantados. O inaugurar do marcador apareceu numa fase ainda embrionária do jogo, quando o Valencia parecia ainda estar a estudar os leões: através de um lance de insistência, Bruno Fernandes soltou um passe largo da esquerda para a direita, Raphinha serviu Bas Dost e o avançado holandês atirou um remate muito forte de primeira que apanhou Domenech de surpresa (5′). Primeiro golo da temporada em Alvalade e logo um grande golo, que colocava os leões a a vencer o jogo de apresentação ainda antes dos primeiros 10 minutos estarem cumpridos.

Os espanhóis pouco ou nada demoraram a chegar ao empate, através de um cabeceamento de Kondogbia no seguimento de um canto na esquerda onde Borja foi claramente batido pelo médio que joga pela República Centro-Africana (9′). O Valencia beneficiou de alguns minutos de superioridade até o jogo chegar a uma fase em que as duas equipas pareceram encaixar uma na outra mas o Sporting acordou com uma grande ocasião do conjunto che, onde foi Renan a evitar a dois tempos o golo de Maxi Gómez depois de um cruzamento de Wass (28′). Daí e até ao intervalo, foram os leões a criar os principais lances de perigo, demonstrando muita insistência e vontade de chegar ao segundo golo (ainda que nem sempre o discernimento estivesse presente na hora de concretizar). Raphinha, dono e senhor do corredor direito, ia fazendo a cabeça em água ao lateral Salva Ruiz, que não estava a conseguir segurar o ala ou permitia arrancadas até à linha de fundo ou deixava espaço interior para o brasileiro explorar.

Na ida para o intervalo, o Sporting estava por cima do jogo mas ia mostrando muita fragilidade na defesa de bolas paradas e cruzamentos para a área, filão que o Valencia ia explorando com frequência e por onde criava perigo com facilidade. Do outro lado, Dost permaneceu algo perdido a partir do momento em que fez o golo, Bruno Fernandes desequilibrava de forma natural com um jogo interior medido ao centímetro e passes longos que parecem feitos na PlayStation e Vietto continuava à procura de mostrar serviço.

No regresso para a segunda parte, o Sporting trocou o terceiro equipamento que tinha usado no primeiro tempo para mostrar o principal mas não mudou jogadores; ao contrário do Valencia, que trocou nove elementos, mantendo apenas Kondogbia e Diakhaby. Os leões voltaram do intervalo a tentar criar perigo através dos mesmos recursos, com Raphinha a aparecer muito móvel e enérgico no corredor direito, mas as alterações que Marcelino GarcíaToral empreendeu no Valencia no regresso para o segundo tempo tornaram mais complicado para os leões penetrar na defensiva espanhola e construir com a mesma qualidade que haviam tido durante os 45 minutos iniciais. Por outro lado, o Valencia soube chegar de forma mais frequente e ponderada à grande área de Renan, acabando por beneficiar de uma grande penalidade cometida por Coates sobre Rodrigo (54′). Na conversão, Renan parou o remate do antigo jogador do Benfica e ainda foi a tempo de anular a recarga mas o aviso —  e o primeiro passo para a vitória — estava dado.

O segundo golo do Valencia apareceu através de uma arrancada de Rodrigo no corredor esquerdo, onde Thierry Correia não conseguiu ter pernas para chegar ao avançado espanhol, que cruzou rasteiro para Kevin Gameiro surgir na cara de Renan a bater o guarda-redes brasileiro (66′). Por esta altura, já tinham entrado nos leões Luiz Phellype, Luís Neto, Acuña e Diaby (para as saídas de Dost, Mathieu, Vietto e Borja), que dificilmente foram uma injeção de energia na equipa de Marcel Keizer e tiveram algumas dificuldades em integrar-se na dinâmica já criada pelo tridente Bruno-Wendel-Raphinha. O jogo partiu-se nos últimos 20 minutos, com o Valencia a tirar o pé do acelerador e o Sporting a procurar o empate sempre a partir de Bruno Fernandes, que ainda ficou perto de marcar na recarga a uma tentativa de Raphinha (77′) e depois com um grande remate de fora de área que motivou uma enorme defesa de Cillessen (86′).

O Sporting perdeu o Troféu Cinco Violinos pelo segundo ano consecutivo e termina a pré-temporada sem vitórias mas com boas indicações para o confronto do próximo domingo com o Benfica: ainda assim, e tal como já havia acontecido com o Liverpool, o bom momento dos leões nas partidas continua a ter tempo limitado e as fragilidades defensivas são ainda um calcanhar de Aquiles que acaba por tornar ingrato o trabalho dos elementos mais ofensivos. Destaque para Raphinha, que parece estar num bom momento de forma; para Wendel, que se mantém com uma qualidade de passe acima da média e enquanto peça importante no processo de construção; para Vietto, que parece cada vez mais integrado e pode tornar-se uma opção relevante para Keizer; e para Bruno Fernandes que, quer saia ou não de Alvalade, termina a pré-época com a marca indelével de ter estado presente em todos os golos marcados pelo Sporting nos jogos de preparação. Há vida para lá de Bruno — mas ainda é de pouca duração.