Peixes e tartarugas que recebem lixo plástico estão a tomar conta das praias de Cabo Verde para ajudar a reutilizar aquele material na produção de azulejos ao mesmo tempo que sensibilizam a população para a reciclagem.

A iniciativa é do Ministério da Economia Marítima e envolve contentores metálicos em forma de seres marinhos, como peixes e tartarugas, que começaram a ser instalados em junho nas principais praias do país, nas ilhas do Sal e de São Vicente.

“Surgiu na ideia de manter as praias limpas e sem plástico”, começa por explicar, em entrevista à agência Lusa, o secretário de Estado Adjunto para a Economia Marítima de Cabo Verde, Paulo Veiga. Aquele ministério impulsionou o projeto, em colaboração com as autarquias, e o objetivo é chegar a todas as praias do país nos próximos meses.

“Mostrar o peixe ou a tartaruga com os plásticos dentro para terem a noção do que está acontecer nos oceanos, quando simplesmente usamos o plástico e deitamos fora, sem tentarmos reciclar”, sublinhou o governante.

De acordo com o Ministério da Economia Marítima de Cabo Verde, o contentor em formato de peixe tem sido uma iniciativa a nível mundial e praias do Brasil e de Espanha já têm espaços do género para fomentar a reciclagem do plástico.

No caso de Cabo Verde, o plástico recolhido tem um destino concreto, depois de compactado e transportado por barco. Segue para a fábrica de azulejos instalada na ilha de Santo Antão pela Fundação dos Amigos do Paul, na Holanda, presidida por Maria Teresa Segredo, uma emigrante cabo-verdiana naquele país europeu.

A funcionar desde 2017 na Penedo de Janela, no concelho do Paul, a fábrica, pioneira na transformação de plástico em azulejos, ‘livra’ diariamente o ambiente de 25 quilos deste resíduo e, em dois anos, já reciclou 20 toneladas de plástico.

“Essa produção de azulejos é vendida para o mercado nacional e agora está a ser exportada também para a Holanda. Isto mostra que o desperdício não tem que acabar no mar. Ou nas lixeiras e depois sempre acaba no mar, prejudicando a vida marinha e entrando na nossa cadeia alimentar”, alerta Paulo Veiga.

O azulejo reciclado em Santo Antão representa assim mais um estímulo para o projeto de recolha, atualmente com um recipiente em forma de peixe e outra de tartaruga já instalados na ilha do Sal e outro na forma de peixe na ilha de São Vicente.

“O objetivo é expandir para todas as praias a nível nacional. Para a Praia e São Miguel [ilha de São Vicente] estamos a ver se conseguimos ainda este verão”, garante o governante.

Na praia da Laginha, junto à cidade do Mindelo, na ilha de São Vicente, um enorme contentor em forma de peixe é visível há pouco mais de um mês a partir de todo o areal. Adesão foi tal que já teve de ser descarregado, dada a quantidade de plástico no interior.

“Tiveram uma grande ideia, toda a gente já coloca o seu plástico aqui. Há uns quatro dias o contentor estava cheio, levaram-no para extrair o plástico e voltaram a colocá-lo na praia. Foi uma ideia brilhante”, afirma José Lopes, nadador-salvador da Laginha há 25 anos.

E assume, sem dúvidas, que o objetivo da sensibilização já foi conseguido na Laginha, com efeitos na imagem de uma praia que conhece como poucos.

“É a praia mais frequentada do Mindelo, toda a gente vem cá, dizemos que é uma praia famosa e as pessoas veem que é uma praia limpa, toda a gente limpa. É algo que nos enche orgulho”, garante José Lopes.

Ainda assim, o projeto ainda enfrenta o desconhecimento da população, que por vezes utiliza os contentores para depositar não apenas plástico como outro tipo de lixo, nomeadamente matéria orgânica, dificultando todo o processo, dada a necessidade de lavagem do material recolhido.

“Nós ainda não estamos preparados para isso. Mas vamos andando, a ideia é sensibilizar a população para este aspeto e ajudar a fábrica de azulejo a ter o plástico necessário”, concluiu Paulo Veiga.