Os guerrilheiros da Renamo, principal partido da oposição em Moçambique, que entregaram voluntariamente as armas no âmbito do processo de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR) manifestaram satisfação com a expetativa de regresso à vida civil.

O DDR, que resulta de entendimentos entre o governo moçambicano e a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), arrancou na segunda-feira na serra da Gorongosa, província de Sofala, centro do país.

Abílio Tenisse, que tem a patente de capitão, entregou a AK-47 que o acompanhou ao longo de anos de guerrilha ao serviço da Renamo.

Cedeu a sua arma num centro de acantonamento na serra da Gorongosa e agora quer voltar à província natal, Zambézia, centro do país, para montar um negócio e ganhar o sustento para a família.

“Se tiver dinheiro, vou comprar uma ‘moagem’ para moer milho e ajudar as pessoas da minha zona, na Zambézia”, disse Abílio Tenisse ao grupo de jornalistas que acompanhou o arranque do DDR, em Sandjudjira.

Depois de ter combatido pela Renamo na guerra dos 16 anos que terminou em 1992 e reintegrado na guerrilha em 2012 para a onda de violência militar que se seguiu, Tenisse afirma estar farto de viver nas matas.

“Esperei muito por este tempo e apelo aos outros no sentido de se juntarem a nós para serem desmobilizados”, apelou.

Elias Sande, também com patente de capitão, deu voluntariamente a sua arma aos peritos militares internacionais que dirigem o DDR na Gorongosa e disse que pretende refazer a vida, que parou durante os anos dedicados à guerrilha.

“Uma das coisas que vou fazer é comprar ‘moagem’ a fim de obter alguma renda”, afirmou Sande, falando de um negócio muito popular no centro de Moçambique.

A farinha de milho moída em máquinas que funcionam a energia elétrica ou a gerador é um dos negócios mais prósperos no centro de Moçambique, devido à forte procura daquele produto para a cozedura de massa, muito consumida na região.

A única mulher que entregou a arma no primeiro dia do DDR, Elina Matavote, do chamado destacamento feminino da Renamo, não esconde a satisfação de se poder juntar à família no distrito de Nhamatanda, província de Sofala, após longos anos nas matas.

“Não sei quanto tempo fiquei nas matas, mas agora que tenho oportunidade de regressar a casa, quero aproveitar e conviver com a família”, disse.

Muitas guerrilheiras da Renamo, que estão nas matas, também querem regressar à vida civil, assinalou Matove.

O início do DDR foi simbolicamente marcado pela entrega voluntária de armas por quatro guerrilheiros da Renamo e do registo de outros 46 para posterior desarmamento.

O ato foi testemunhado pelo líder da Renamo, Ossufo Momade, membros do governo, peritos militares internacionais e jornalistas.

O DDR resulta das negociações de paz entre o governo e a Renamo visando pôr termo a ciclos de violência entre as partes e o estabelecimento de uma paz duradoura em Moçambique.

O entendimento entre o governo moçambicano e a liderança da Renamo prevê a integração de alguns guerrilheiros nas Forças de Defesa e Segurança (FDS).