A advogada da família do lusodescendente que morreu em Nantes considera que o caso se tornou “assunto de Estado” depois de ter sido o próprio primeiro-ministro francês a revelar as conclusões da investigação à atuação da polícia.

Cécile de Oliveira, citada esta quarta-feira pela comunicação social francesa, adiantou que tinha sido anunciada para terça-feira uma comunicação do ministro do Interior francês para divulgar as conclusões do relatório da Inspeção Geral da Polícia sobre a atuação das forças de segurança na noite em que o lusodescendente desapareceu.

Por isso, afirmou-se “surpreendida” por ter sido o próprio primeiro-ministro Edouard Philippe a apresentar publicamente os resultados do relatório e a confirmar que um corpo retirado do rio Loire no dia anterior pertencia ao jovem de 24 anos.

“Estou surpreendida que o primeiro-ministro tenha falado […]. Claramente, quando o próprio primeiro-ministro fala, torna-se num assunto de Estado. É uma tomada em mãos pelo executivo de um assunto que está confiado a um juiz de instrução e parece-me revelador de um momento político muito complicado sobre as intervenções policiais”, disse Cécile de Oliveira.

As conclusões do relatório, divulgadas na terça-feira, por Edouard Philippe não estabelecem qualquer ligação entre a intervenção policial em Nantes e o desaparecimento do lusodescendente Steve Maia Caniço.

O primeiro-ministro falava depois da confirmação pelas autoridades de que um corpo retirado do rio Loire, na segunda-feira à noite, era do jovem lusodescendente que estava desaparecido desde 22 de junho, tendo sido visto pela última vez durante uma intervenção policial numa festa em que participava, em Nantes.

O desaparecimento do lusodescendente causou ondas de choque em França, devido às imagens e descrições da intervenção policial, que mostravam a utilização de gás lacrimogéneo e balas de borracha contra os jovens.

Na sequência do ocorrido, o Ministério do Interior francês ordenou, em 24 de junho, a abertura de uma investigação à atuação das forças policiais.

Na sequência da retirada do corpo do rio Loire e da sua identificação, as autoridades anunciaram a abertura de uma investigação por suspeitas de “homicídio involuntário“, enquanto decorrem várias outras diligências para tentar esclarecer as circunstâncias da intervenção policial.

Cécile de Oliveira considerou ainda que, neste momento, não é “possível descartar responsabilidades de quem quer que seja” e que é preciso continuar a “investigar em condições de serenidade, independência e confidencialidade como a justiça deve fazer”.

A advogada lembrou que as conclusões do relatório foram divulgadas no dia em que a família recebeu a confirmação da morte do jovem e manifestou o desejo de que possam ter um “momento de silêncio” para viver o luto.

Esta quarta-feira, a união de sindicatos “Solidaires” apelou à participação nas manifestações em memória de Steve Maia Caniço e exigiu ao Governo para “acabar imediatamente” com a “repressão policial” em França. “Ao sair para se divertir, Steve encontrou a morte”, adiantou o sindicato, exigindo “toda a verdade sobre esta tragédia” e que os seus autores sejam “responsabilizados”.

Num comunicado, citado pela imprensa francesa, o sindicato lembra que o número de feridos e mortos causados pela repressão policial não para de aumentar.

Neste sentido, recordou as mortes, entre outros, de Zyed Benna e Bouna Traoré (2005), Remi Fraisse (2014) ou Zineb Redouane (2018).