Existe a ideia pré-concebida de que um grande treinador, um daqueles que figura entre os grandes da história, que ganhou tudo ou quase tudo, que orientou equipas em vários países e encontrou sucesso em praticamente todas, tem de ser peculiar. Tem de ser arrogante ou muito extrovertido; indesculpavelmente ciente do que vale ou tremendamente humilde; apostado em vencer desde a primeira hora ou apologista da ideia de que os troféus se conquistam jogo a jogo. Não existe meio termo, aparentemente. Não existe espaço para o dito tipo normal. É necessária a timidez de Paisley, a franqueza de Mourinho, a paixão de Klopp e o cinismo de Guardiola. Bobby Robson era um tipo normal. Um tipo normal que nasceu numa família normal numa cidade normal e foi à procura dos sonhos de uma forma que sempre pareceu normal. Porquê? Porque levava com ele todas as características que definem todos os outros grandes treinadores, medidas com regra e esquadro, sem exageros nem escassez, como apenas mais um tipo normal que ia conquistar o mundo dentro de um campo de futebol.

Bobby, que morreu sir mas nasceu apenas o quarto dos cinco rapazes da família Robson que vivia no norte de Inglaterra, treinou de 1968 a 2004. Antes, de 1950 a 1968, foi jogador do Fulham (em dois períodos distintos), do West Bromwich Albion e dos Vancouver Royals. Contas feitas, dos 76 anos que viveu, 54 foram totalmente dedicados ao futebol, quer dentro dos relvados ou junto ao banco de suplentes. É mais uma das típicas histórias de jogador com pouca glória que se torna treinador recheado de alegrias – venceu títulos, incluindo uma Taça UEFA e uma Taça das Taças, em quatro países diferentes do lado de lá da linha lateral e não levantou um único troféu com as botas calçadas. Foi o mentor de Mourinho, sobreviveu ao fracasso no Sporting para vingar no FC Porto, sucedeu ao legado de Cruyff no Barcelona e foi um de apenas três selecionadores a levar Inglaterra às meias-finais de um Mundial (até ao verão passado e até Gareth Southgate, era mesmo um de apenas dois).

Ainda enquanto jogador do Fulham, que depois chegou a treinar

Em janeiro de 1969, Bobby Robson foi o escolhido pelo Ipswich Town para substituir Cyril Lea, um jovem treinador galês que quando foi despedido garantiu que o clube de Suffolk “só se iria mover numa direção, para baixo”. Um ano antes, Robson soube que tinha sido despedido do comando técnico do Fulham, onde tinha jogado durante grande parte da carreira, através das manchetes dos jornais e antes de ser informado pela direção. Em Ipswich, depois de quatro temporadas iniciais quase medíocres, acabou por assinar um reinado de 13 anos em que ficou duas vezes no segundo lugar da então First Division, atual Premier League, ganhou uma Taça de Inglaterra ao Arsenal em Wembley, esteve regularmente nas competições europeias e acabou por conquistar uma Taça UEFA em 1981, ao bater os holandeses do AZ Alkmaar na final. Mas mais do que estabelecer um legado no que é agora um modesto clube a passar por dificuldades na terceira liga inglesa, Bobby Robson começou em Ipswich uma rotina que se tornaria um cartão de apresentação.

O treinador inglês sempre se deu bem com os jovens – desde os tempos em que jogava e era um dos mais velhos dos plantéis mas servia enquanto padrinho dos mais novos e inexperientes. Em Ipswich, onde ao longo de 13 anos só contratou 14 jogadores provenientes de outros clubes, Robson começou a trabalhar de perto com as camadas jovens do clube e a estrutura da formação e promoveu à equipa principal dezenas de jogadores, conferindo à academia do clube o estatuto de principal fornecedora de recursos à seleção inglesa. O técnico compensava as lacunas táticas – não só suas como dos jogadores – com ferramentas que garantiam relações mais próximas, uma atitude de maior cuidado e a assunção total de que era “o motivador”. Como explicou mais tarde, Bobby Robson forçava-se a chegar todos os dias às instalações de todos os clubes em que trabalhou com um sorriso, com entusiasmo e com vontade de começar um novo capítulo: mesmo que no dia anterior a equipa tivesse sofrido uma derrota ou um qualquer desaire. “Quem motiva o motivador?”, questionava o inglês. Essa forma de pensar, de que antes de levantar a perna e rematar existe o movimento de nos levantarmos da cama e lavarmos a cara, começou em Ipswich.

Em 1978, de fato claro, à esquerda, com a equipa do Ipswich que conquistou a Taça de Inglaterra ao bater o Arsenal em Wembley

Os bons resultados no clube de Suffolk garantiram-lhe o convite para o cargo de selecionador nacional, onde substituiu Ron Greenwood apenas dois dias depois de Inglaterra ser eliminada do Mundial de 1982, em Espanha. Nesta altura, a memória dourada do Campeonato do Mundo organizado em casa e conquistado em casa, em 1966, era uma recordação distante: a seleção inglesa vivia tempos de profunda impopularidade, andava arredada das grandes decisões há vários anos e o sonho de representar o país, para os jovens jogadores de então, já não estava tão presente como havia estado duas décadas antes. A passagem de Bobby Robson pela seleção inglesa, que durou oito anos, abrigou as duas derrotas mais dolorosas por que os adeptos tiveram de passar (até ao desaire nas meias-finais do Mundial 2018) – mas restaurou e galvanizou a honra de um conjunto nacional que andava perdido no meio de quase 20 anos de marasmo.

Depois de falhar a qualificação para o Euro 1984 – e colocar o lugar à disposição, a favor de Brian Clough –, Robson acabou por conseguir levar a seleção inglesa até ao Mundial 1986. No México, com Gary Lineker enquanto referência ofensiva, Inglaterra chegou aos quartos de final e só caiu com a Argentina de Maradona, num jogo que ficaria para a história graças aos dois golos do ’10’ argentino que garantiram a vitória: o primeiro, ficou conhecido como “Mão de Deus”; o segundo, como “golo do século”. Mais tarde, pouco impressionado com a ideia de intervenção divina no golo inaugural, Bobby Robson deixou de medir as palavras ao centímetro como sempre fizera e haveria de fazer e permitiu-se a um comentário mais mordaz. Educado, como sempre. Mas mordaz. “Não foi a mão de Deus. Foi a mão de um patife. Deus não teve nada a ver com o assunto. A partir deste dia, Maradona ficou diminuído aos meus olhos para sempre”, disse o então selecionador inglês.

Depois da eliminação na fase de grupos do Euro 88 e de um empate num particular com a Arábia Saudita, Bobby Robson voltou a colocar o lugar à disposição e voltou a ver a demissão ser recusada pela federação inglesa. Dois anos depois, no Mundial de 1990, Inglaterra chegou às meias-finais de um Campeonato do Mundo pela primeira vez em mais de 20 anos e perdeu nos penáltis com a RFA, que acabaria por conquistar o troféu. Quatro anos após o doloroso desaire com a Argentina, a seleção inglesa falhava a tão pretendida final de um Mundial na decisão por grandes penalidades: mas o trabalho, o recuperar da glória da seleção, estava cumprido.

“O melhor jogo que fizemos, na verdade, foi quando saímos”, recordou John Barnes, um dos jogadores dessa seleção, quase 20 anos depois da meia-final com a RFA. Bobby Robson restaurou a imagem da seleção inglesa e redefiniu o que significava estar associado com o conjunto nacional numa altura em que o futebol inglês vivia ameaçado pelo hooliganismo, o comportamento descontrolado dos jogadores dentro de campo e múltiplas crises internas na federação. Ainda antes do Mundial de 1990, o treinador tinha comunicado que não continuaria no cargo. Foi para a Holanda e para o PSV, emigrando pela primeira vez, e foi campeão nacional nos dois anos que passou em Eindhoven; seguiu-se o Sporting, onde ficou apenas um ano e meio e acabou despedido por Sousa Cintra depois de uma derrota com o Casino Salzburgo para a Taça UEFA, numa altura em que estava na liderança do Campeonato; depois o FC Porto, onde foi duas vezes campeão; e o salto para o Barcelona.

O primeiro dos cinco cancros apareceu no início dos anos 90, durante os primeiros tempos na Holanda. O segundo, localizado por detrás do nariz, foi diagnosticado quando Bobby Robson treinava o FC Porto e obrigou-o a perder os primeiros meses da temporada 1995/96. A invasiva cirurgia, que o condenou a uma prótese para substituir o maxilar superior, vinha acompanhada por uma sentença difícil de ouvir. Os médicos recomendaram de forma natural que o inglês, na altura com 62 anos, se reformasse de forma imediata e aceitasse o prognóstico duro que apontava para pouco mais do que três anos de vida. “Mas eles não o conheciam como eu o conhecia”, explica Elsie Gray, mulher de Robson durante mais de 50 anos, no documentário “Bobby Robson: More Than a Manager”, que estreou na Netflix no verão passado. O técnico tinha em cima da mesa a proposta com que sonhou a vida inteira e não iria desperdiçá-la por uma qualquer sentença de morte ou prazo de validade — aceitou mudar-se para Espanha, assentar arraiais na Catalunha e assumir o comando técnico do Barcelona, a cadeira por que tinha esperado desde os tempos do Ipswich.

Chegou a Barcelona a meio do ano de 1996 para substituir Johan Cruyff, que para além de ter sido campeão espanhol quatro épocas seguidas tinha enraizado a própria filosofia no clube e era já uma instituição em Camp Nou, na cidade e na Catalunha. A principal tarefa de Bobby Robson, como explica Guardiola no mesmo documentário da Netflix, foi substituir Cruyff – e não ser treinador do Barcelona. O técnico inglês tinha aceitado o ingrato papel de suceder a uma autêntica dinastia que havia terminado graças a dois anos desprovidos de títulos e que tinha dividido ao meio uma cidade inteira: entre os que queriam que Cruyff ficasse e os que queriam que Cruyff saísse. Mas Robson estava na cadeira de sonho e ia fazer as coisas à sua maneira desde o dia 1. Chegou acompanhado por José Mourinho, seu braço direito desde os tempos do Sporting, e explicou à cúpula do clube catalão que a contratação do português não era opcional. “Se o problema é dinheiro, tirem uma parcela do meu salário para ele. Mas ele vem”, disse o treinador. E Mourinho foi.

A braços com uma equipa que tinha Guardiola, Luis Enrique, Figo, Stoichkov, Baía e Couto, Robson achou que precisava de uma referência ofensiva clara. Explicou a Josep Lluis Núñez, então presidente do Barcelona, que gostava muito de um jovem brasileiro do PSV. Com apenas 19 anos, Ronaldo viajou da Holanda para Espanha a troco de 20 milhões de euros, tornando-se na altura o jogador mais valioso de sempre, e rapidamente se percebeu que o futuro do treinador estaria diametralmente relacionado com o sucesso do avançado. Na estreia, na Supertaça de Espanha contra o Atl. Madrid, Ronaldo bisou e o Barcelona venceu por 5-2: a temporada parecia lançada e a nostalgia ligada a Cruyff começava a desvanecer.

Mourinho tornou-se o braço direito de Robson ainda no Sporting e acompanhou o inglês até ao Barcelona

Mas Bobby Robson tinha algo contra ele: o facto de ter sido escolhido pessoalmente por Núñez. A liderança do presidente estava a ser questionada e a continuidade do treinador, por muito que os resultados dentro de campo não comprometessem, parecia cada vez mais ameaçada. “Eles não estavam contra ele, estavam contra o presidente”, explica Guardiola no documentário. Além das lutas internas, Robson encontrou em Barcelona um problema de autoridade no balneário, uma dificuldade extrema em chegar aos jogadores e tirar deles aquilo que queria da forma que queria, já que praticamente todos ainda bebiam de forma inconsciente de tudo aquilo que tinham ouvido de Cruyff. A equipa estava a ganhar mas não estava a jogar à holandesa, à Cruyff, e os assobios ouvidos recorrentemente no final de goleadas aplicadas em casa tornou difícil a adaptação do treinador e a relação com os adeptos. No final da temporada, fiel às suas ideias, conquistou a Taça das Taças e a Taça do Rei e ficou a dois pontos do primeiro lugar na liga espanhola — e foi “promovido” a diretor-geral para abrir espaço para Louis Van Gaal no comando técnico da equipa.

Em Barcelona, e apesar de ter ficado claro que foi apenas uma espécie de penso rápido até à entrada de outro holandês, Bobby Robson formou José Mourinho a um nível a que ainda não tinha conseguido, influenciou os futuros treinadores Luis Enrique, Guardiola e Lopetegui e lançou um Ronaldo que se tornaria um Fenómeno. A ligação aos jovens e o papel de motivador e formador, que o próprio assumia e do qual se vangloriava, começou ainda em Ipswich com a atenção à formação e os conselhos a um jovem Alex Ferguson que chegou a assistir a treinos e continuou no FC Porto quando convidou André Villas-Boas, então com 16 anos, para integrar o departamento de observação do clube porque “viu algo nele”.

Voltou ao PSV, regressou a Inglaterra para treinar o Newcastle, o clube que apoiava quando era criança, e ainda ficou perto de conquistar a Premier League com uma equipa liderada por Alan Shearer e abrilhantada por Craig Bellamy. Bobby Robson, o tipo normal, perdeu a luta contra o cancro há dez anos, em 2009. Tinha 76 anos. Para a história ficam a glória no Ipswich, a renovação da seleção inglesa, a atenção aos jovens jogadores e treinadores que ainda ninguém tinha tido e a ideia de que foi um cavalheiro em tudo aquilo que fez. “É uma daquelas pessoas que nunca morre, não tanto pelo que fez ao longo da carreira, por mais uma vitória ou menos uma vitória, mas por aquilo que sabia dar àqueles que, como eu, tiveram a boa fortuna de o conhecer e caminhar ao lado dele”, disse Mourinho há alguns anos. Robson morreu sir porque sempre o foi mesmo sem o ser.