Dwayne “The Rock” Johnson é um armário ambulante americano com três expressões: divertido, preocupado e enfurecido. Jason Statham é um podão inglês com duas expressões: zangado e ainda mais zangado. Mas os filmes que protagonizam dão muito, muito dinheiro, fazendo deles os novos colossos das bilheteiras, os sucessores dos antigos campeões do cinema de ação brutalista, quer da primeira divisão (Schwarzenegger, Stallone, Willis), quer da segunda (Norris, Van Damme, Lundgren), e também de estrelas como Tom Cruise, Brad Pitt ou Leonardo Di Caprio, cujas fitas já não são garante imediato de prósperos fins-de-semana de estreia e nédias receitas totais. Que panões como Johnson e Statham sejam os novos ídolos da tela, diz muito sobre o estado da indústria cinematográfica americana, bem como sobre a evolução do gosto dos espectadores.

[Veja o “trailer” de “Velocidade Furiosa: Hobbs & Shaw”:]

Tendo em conta os lucros dos filmes de cada um, bem como da série “Velocidade Furiosa” em que ambos participam, era apenas uma questão de tempo até que Hollywood, e os seus novos parceiros chineses, se lembrassem de fazer um filme que os emparelhasse numa aventura só para eles. E aí está ele. Chama-se “Velocidade Furiosa: Hobbs & Shaw”, é realizado por David Leitch (“Deadpool 2”), e é um “spinoff” daquela saga criada no início deste século (e que já tem o nono título em andamento). Dwayne Johnson e Jason Statham interpretam as mesmas personagens, respetivamente o agente governamental Luke Hobbs e o antigo mercenário Deckard Shaw, repetindo também o número de não se poderem ver um ao outro nem pintados.

[Veja uma entrevista com Dwayne Johnson:]

Apesar de serem como cão e gato, os dois heróis vão ter que trabalhar juntos, com muita relutância e por imposição dos respetivos governos, porque uma organização secreta poderosíssima e “high tech” ameaça a humanidade com um vírus letal, e a irmã de Shaw, Hattie (Vanessa Kirby), uma operacional do MI6, está metida ao barulho. Além disso, é dado a Hobbs e Shaw um inimigo comum para combaterem, na pessoa de Brixton Lore (Idris Elba), um antigo membro das forças especiais inglesas que se tinha passado para o lado dos vilões e Shaw tinha supostamente eliminado. Só que Lore não só está vivo, como agora é parte humano, parte super-herói, por estar cibernética e geneticamente modificado pela citada organização secreta.

[Veja uma entrevista com Jason Statham:]

“Velocidade Furiosa: Hobbs & Shaw” não se limita a ser um “blockbuster” de ação. Quer ser também um filme de James Bond e um filme de super-heróis. Aqui, manda o gigantismo: no arcaboiço dos principais protagonistas, no orçamento (200 milhões de dólares), nos meios técnicos e humanos (dos computadores para os efeitos digitais a um verdadeiro exército de “duplos”), na história, que salta de país em país, nas sequências de ação (repetitiva) e ultra-violência (anestesiante) levadas ao paroxismo, nas dimensões visual e sonora que cultivam a desmesura massacrante de olhos e ouvidos. Mas se o corpo é enorme, a cabeça é microcéfala e os sentidos estão embotados. Sob a carapaça da espectacularidade mastodôntica, “Velocidade Furiosa: Hobbs & Shaw” é um filme descerebrado e oco, que muito cedo abdica de toda e qualquer verosimilhança, e é incapaz de uma emoção genuína, de subtileza ou de humor.

[Veja uma entrevista com Idris Elba:]

Neste último capítulo, a constante esgrima de insultos provocatórios, e pretensamente cómicos e “espirituosos” entre Hobbs e Shaw está ao nível de uma troca de dichotes escatológicos e sexuais entre adolescentes. E quando mais o argumento procura fazer-se de espertalhão, espalhar citações e auto-referências, e até mesmo dar uma de “meta”, mais o filme revela a sua natureza cerradamente bronca, o buraco negro cinematográfico, narrativo e criativo que representa, e a sua absoluta nulidade enquanto entretenimento. Mas a  confiança no sucesso deste cinema massa-bruta movido a efeitos digitais é tanta, que “Velocidade Furiosa: Hobbs & Shaw” já anuncia no final que terá a habitual continuação. Como cantava Frank Zappa, “Torture never stops”.