Já foi chamada por um crítico (Peter Margasak, do Chicago Reader) como “a melhor flautista viva” do jazz, mas não é sequer, maioritariamente, pelo virtuosismo na flauta que se tornou num importante nome do jazz norte-americano deste século. Nicole Mitchell, que lançou o primeiro álbum a solo em 2001, com o coletivo em seu torno (que fundou e mantém) Black Earth Ensemble — antes, tocou em outros grupos e foi recrutada por músicos para gravar — distingue-se sobretudo pelos dotes de composição.

Irreverente, com o improviso como motor de criação e o afrofuturismo como veículo musical e político para rever a história norte-americana, refletir sobre a tecnologia e o mundo e propor novos caminhos futuros (sociais e sonoros), Nicole Mitchell atua este domingo no festival Jazz em Agosto, na Gulbenkian, em Lisboa. Vai apresentar o álbum Mandorla Awakening II: Emerging Worlds, editado em 2016. Foi para falar do disco, do percurso enquanto artista mas também da sua história de vida que o Observador a entrevistou por telefone, em antecipação ao concerto.

Vai atuar em Lisboa este domingo. O concerto é apresentado como sendo uma atuação dedicada à apresentação do álbum Mandorla Awakening II: Emerging Worlds. Vai focar-se sobretudo nesse disco ou tocará também coisas de outros discos, como o LiberationNarratives, editado no ano seguinte, 2017?
Vamos focar-nos no Mandorla Awakening, que usa muito instrumentos bastante únicos e também linguagens musicais que não são habitualmente ouvidas juntas.

Mandorla Awakening, o disco, começou por ser uma ideia para uma novela literária, não foi?
É verdade.

Quando é que começou a pensar na narrativa que depois resultou no disco?
Acho que já no final dos anos 1990. Era uma espécie de linha narrativa que andava a explorar, que era em suma uma tentativa minha de me inspirar numa ideia ou criar um argumento que me ajudasse a perceber como é que o mundo se tornou naquilo que é hoje — e que outras possibilidades ou alternativas ao mundo atual poderíamos ter. Pensei muito sobre como nos seduziu e convenceu tanto a ideia de que nos estamos a tornar melhores enquanto seres humanos, devido ao desenvolvimento da tecnologia, quando na verdade não nos estamos a tornar melhores em sermos humanos com os outros e com a terra.

Se a tecnologia estivesse verdadeiramente orientada para o objetivo de nos ajudar a construir uma sociedade mais igualitária e para nos ajudar a ser mais conscientes quanto à utilização dos recursos da terra e à nossa interação com o planeta, como é que seria? Foi essa a pergunta que coloquei a mim mesma e foi por causa dela que cheguei à ideia da ilha de Mandorla, ou apenas Mandorla, enquanto lugar que funcionaria com essas regras e com esse conceito. Como é que chegamos a esse sítio imaginário é algo que está por perceber. Mas vejo isto como uma espécie de colisão de coisas: por um lado temos fragmentos de sabedoria em todas as culturas do planeta, mas não estamos a juntar esses fragmentos uns com os outros. A ideia de juntar linguagens musicais diferentes, de unir tradições musicais completamente distintas, é uma forma de exemplificar uma coexistência de que precisamos para verdadeiramente mudar o mundo.

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É então por isso que há muito colabora com músicos de outros países que não apenas os Estados Unidos da América? Para este disco que vai apresentar em Portugal convidou músicos japoneses, mas tem o hábito de convidar músicos de outros países há muito.
Acho que é um reflexo da forma como vejo a vida, para ser sincera. Acho mais interessante ver as nossas diferenças como vantagens e benefícios do que vê-las com temor ou tentar ignorá-las. Interessa-me utilizar a música para juntar pessoas diferentes, que na verdade têm coisas em comum. Mas mesmo as diferenças que existem são interessantes, podem tornar a vida mais estimulante. Temos este problema da hierarquia e de achar que devemos criar um modelo de vida que toda a gente tem de seguir o nosso modelo… Isso não nos vai ajudar, tem aliás sido destrutivo para o planeta e para a humanidade ao longo da história.

A ideia de supremacia branca, por exemplo, é algo muito em voga e é um problema sério. Há tanta beleza e tanta força nas diferenças que temos, são as diferenças que nos dão resiliência enquanto seres humanos. Colaborar com pessoas de sítios diferentes tem sido uma forma de explorar e aproveitar isso — e de dar a minha música como modelo de coexistência pacífica e frutífera.

Tem-se interessado cada vez mais pelo afrofuturismo. Porque é que o vê como veículo apropriado para as ideias, líricas e sónicas, que quer transmitir com a sua música?
Na verdade, já nasci quase embrenhada de afrofuturismo. A minha mãe era uma pintora e uma escritora de ficção autodidata e cresci a ver coisas como pinturas de mulheres negras vindas do espaço e de outros planetas em casa. Ela escrevia histórias sobre relações entre pessoas e ET e tinha livros da [escritora de ficção científica afro-americana] Octavia Butler em casa. Quando cresci, o termo afrofutruismo ainda não existia mas a minha mãe estava a expressar-se artisticamente de forma afrofuturista, sem dúvida.

De 2007 em diante, comecei a explorar gradualmente essas ideias na minha música. Quero que o que faço seja capaz de expressar todos os aspetos das emoções e experiências humanas, o que sei que é uma tarefa hercúlea. A música é poderosa e tem possibilidades infinitas relativamente ao modo como podemos usar sons para nos expressarmos. Mas a música também nos oferece novos modos de vermos o mundo e de pensarmos sobre o mundo em que vivemos. Acredito mesmo nisso e gosto muito de o fazer.

[Uma TED Talk de Nicole Mitchell, sempre acompanhada pela flauta:]

Fala muito na ideia de fazer música que crie “mundos visionários”, universos imaginados e idealizados que partam de uma reflexão sobre como o mundo está e como poderia mudar. Pode desenvolver o conceito?
Acho que está muito relacionado com o universo, com a compreensão do potencial que temos de intervir no mundo humanamente. Acredito que nós, enquanto humanidade neste planeta, sonhámos juntos o nosso mundo — inconscientemente — para que se tornasse aquilo que é. Concordámos com certas ideias e preenchemos e manifestámos as ideias que tínhamos no mundo que temos neste momento. Mas se todos nós ou muitos de nós nos conectarmos com visões diferentes, podemos transformar a realidade que temos em algo melhor.

Seja a pintura, o som, o cinema… Todas essas coisas podem ajudar-nos a usar a nossa imaginação para vermos mais além. Acho que a imaginação é um dos nossos grandes recursos enquanto seres humanos e estamos numa fase, neste momento, em que estamos mais longe do que já estivemos em relacionarmo-nos com a nossa imaginação. Acho que não lidamos tão pouco com ela há muito tempo, estamos a afastar-nos cada vez mais da imaginação. À medida que entramos de forma cada vez mais profunda no universo digital, estamos a exercitar cada vez menos a imaginação. Mesmo as crianças não a estão a exercitar como costumavam fazer e isso é mesmo um problema sério. A capacidade de mudar a nossa vida através da imaginação é um dos nossos melhores dons, mas precisamos de a exercitar.

Acho que o tipo de música que as pessoas ouvem mais reflete isso, essa dificuldade em lidar com universos imaginados, mais distantes dos modelos que conhecemos? Ou nem por isso?
Sinto que têm havido alguns desenvolvimentos criativos. Ainda agora acontecem, na música — até na pop. Há um certo tipo de humor na música atual que parte de uma sátira ao quão séria tornámos a nossa vida. Acho que isso é algo que está aparecer mais e que é positivo, porque o humor é parte do que somos.

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A acompanhá-la no disco que vai apresentar no festival Jazz em Agosto, além de músicos japoneses convidados, teve elementos da sua formação mais longa enquanto líder, o Black Earth Ensemble. Que grupo é este e que características é que tem tentado preservar nele ao longo dos anos?
A maior parte dos grupos têm elementos fixos mas gosto bastante de mudar e de colaborar com outras pessoas. Dar oportunidades a outras pessoas, outros músicos, também é algo que gosto de fazer e que vai continuar. O foco para o Black Earth Ensemble tem sido, contudo, que ele seja uma representação dos benefícios da diversidade: trabalho com pessoas com contextos diferentes e géneros [sexuais] distintos. Diria até que temos pessoas de todos os géneros e isso é intencional. Divirto-me mais quando trabalho com pessoas muito diferentes entre si e criamos um “flow” mais fluído na banda. Em termos musicais, não há uma linha sonora contínua: o Black Earth Ensemble move-se musicalmente consoante o que me interessa a cada momento, porque artisticamente sou bastante aberta a direções diferentes.

A Tomeka Reid, multi-instrumentista que toca no disco que vai apresentar em Lisboa, disse uma vez ao The New York Times que enquanto mulher foi para ela importante vê-la ter sucesso e liderar formações musicais. Serviu de exemplo, como modelo que provava que era possível atingir um patamar artístico elevado sendo mulher e líder. No seu caso, quando apareceu, como era o cenário musical no jazz e na improvisação?
Comecei com um ensemble de afro-beat em Los Angeles, foi a minha primeira experiência com a improvisação. O líder desse ensemble era muito encorajador e a música não era muito jazzística… Não era, pelo menos, jazz direto, era antes influenciado pelo jazz. Quando me mudei para Chicago passei sete anos como integrante de um coletivo que criei com outras compositoras e intérpretes. Aí, vivi um ambiente inteiramente feminino. Acho que precisava desse ambiente para desenvolver a minha confiança, para testar abordagens novas e para aprender.

Depois, trabalhei com homens que, sendo líderes, propiciavam experiências positivas, estimulavam-me a liberdade e a possibilidade de ser eu própria mesmo nos projetos musicais a que davam o seu nome. Tive pessoas que me deram oportunidade de crescer e que me apoiaram muito. Aliás, só comecei o Black Earth Ensemble porque fui estimulada a isso por essas pessoas, diziam-me: “Tens de formar a tua própria banda, tens valor e imaginação para isso”.

O que acha que teria acontecido se o seu percurso inicial tivesse sido outro? Se não começasse a trabalhar num ambiente feminino, por exemplo?
Acho que foi bom ter tido outras mulheres que faziam música com quem me pudesse identificar e com quem pudesse crescer. Mas não foi só isso: mudar-me para Chicago foi importante porque lá conheci jovens artistas negros, alguns dos quais mulheres — artistas visuais, escritores, bailarinos… Foi muito importante para mim. Não tinha um ambiente desses, artístico, de que fizesse parte, antes de me mudar para Chicago. Precisava de encontrar pessoas que tivessem visões similares e com quem me fosse natural relacionar artisticamente, que me inspirassem, com quem pudesse trabalhar. Se não tivesse tido isso, não sei se alguma vez teria evoluído de modo a ser a artista que sou.

O que acha que se teria tornado, em alternativa?
Uma artista mais isolada. Vejo muito isso hoje em dia, vejo muita gente que quer fazer música mas que não sente que faz parte de alguma coisa. As pessoas só evoluem assim, quando sentem que fazem parte de uma comunidade, quando contactam com outros. A interação inspira, cria uma ideia de propósito e de desenvolvimento. Quem começa a trabalhar predominantemente sozinho e contrata algumas pessoas para trabalhar consigo depois pode alcançar e criar um público que a segue, mas sinto mesmo que ter uma ligação com outros que estão a tentar fazer o mesmo que tu é importante. Até humanamente. E é algo que está a faltar hoje em dia. Pessoalmente, sinto que fiz parte de diferentes comunidades, de jovens artistas negros da minha idade e de artistas mais veteranos.

Fala com agrado da mudança para Chicago, onde evoluiu como compositora e intérprete. Mas pelo que já li houve uma mudança anterior, quando era mais nova, de Syracuse, Nova Iorque — onde cresceu durante parte da infância — para Anaheim, na Califórnia, que foi mais difícil, certo?
Foi mais difícil, sim. Primeiro porque uma criança, depois porque fui para um sítio onde as pessoas não queriam ter negros por perto e garantiam que todos percebiam isso muito claramente. As pessoas diziam-me claramente: não te queremos aqui. Diziam-no literalmente, saía de casa com a minha mãe e podia sempre haver alguma coisa que acontecia…

Que tipo de coisas?
Quando tinha uns 8 ou 9 anos, saía de casa e andava nos passeios ou pelas ruas era habitual alguém sair de casa para dizer: ‘Sai daqui, estás a desvalorizar o valor da minha propriedade, afasta-te da minha casa, preta [nigger, termo em inglês que é ofensivo]’. Chegaram a cuspir-me em criança. Enfim, passei por algo que não tinha vivido em Syracuse. A base de tudo era o ódio: muitas pessoas olhavam-me com um ódio profundo simplesmente porque existia. Diziam à minha mãe para voltar para África, também.

Não foi, somando tudo, uma experiência positiva, mas a minha mãe era de Chicago pelo que felizmente passei uns tempos lá durante os verões. Todos os verões ia para Chicago e percebia: ‘Ok, aqui isto não acontece, as pessoas são amigáveis, nem todo o mundo é igual àquilo, aquilo é simplesmente o sítio onde vivo’. Fiquei feliz quando terminei o liceu e pude sair de lá.

[“Blackman Unfinished”, do disco ‘Liberation Narratives’, editado por Nicole Mitchell em 2017:]

Como foi…
[interrompe] Posso só dizer mais uma coisa?

Claro.
Há mais ou menos um ano levei a minha neta ao bairro em que vivia quando era criança. Ela tem cinco anos e queria brincar no mesmo parque em que brincava quando era pequena. Portanto disse-lhe: ‘Ok’. Fomos para o parque e fiquei lá sentada com ela. Apareceu um rapaz que se aproximou e disse: não podes brincar connosco porque és negra. Foi há um ano. Portanto, as coisas não mudaram assim tanto. É mesmo estranho. É interessante que não tenha sido uma pessoa branca a dizê-lo — era um rapaz mexicano.

O tema é incontornável: Donald Trump. Mais do que perguntar-lhe se tem notado mudanças no seu país, gostava de saber porque é que acha que ele foi eleito.
Houve, desde logo, uma grande campanha mediática, com estações de rádio por todo o país a receberem financiamento não apenas do Partido Republicano mas de uma extrema-direita muito particular, que conseguiu assim difundir as suas posições por todo o país. Mas há também muitas áreas rurais nos Estados Unidos onde as pessoas são pobres, não têm muitos recursos e acho que lhes foi transmitida a mensagem de que o Trump ia fazer a diferença para eles. No final, acabou por não a fazer.

As pessoas também ficaram seduzidas com a ideia de que alguém ser genuíno significa que é bom. Se olharmos para o Trump, é uma pessoa genuína, é alguém que diz aquilo que pensa, sem se preocupar com parecer inteligente ou sofisticadamente desonesto, como muitos políticos antigos costumavam ser. Ele não tem grandes filtros e é muito claro quanto ao que pensa. As pessoas pensaram que por isso significava que no fundo era boa pessoa. Mas por alguém ser genuíno não se torna… as pessoas acharam que ser-se sincero implicava ser-se boa pessoa, mas não, podemos ser sinceramente maus. Aquelas pessoas que me chamavam ‘preta’ também estavam a ser sinceras…

Para terminar, gostava de lhe perguntar uma coisa. Foi recentemente nomeada para diretora dos programas de estudos jazz da universidade de Pittsburgh. A nomeação foi vista, no universo do jazz, como simbólica da abertura da academia ao free-jazz, à improvisação e à música mais experimental. Concorda com quem viu esse simbolismo na nomeação?
Antes de mais, emociona-me muito e deixa-me muito humilde a decisão de me convidarem para ser diretora de jazz de uma universidade como Pittsburgh. É uma grande honra, desde logo por ser sucessora da Geri Allen [compositora e pianista que ocupava o cargo desde 2013 mas que morreu em 2017 com 60 anos, vítima de cancro], que era alguém que via como uma das minhas grandes heroínas.

Acho que a decisão de facto é um sinal que me deixa muito entusiasmada. Há uma fome e uma curiosidade grandes relativamente a esta ideia de juntar todo um legado musical, unir vertentes do jazz e celebrar a inovação. Historicamente, os programas de jazz têm-se focado imenso na tradição. Acho que grande parte da academia e dos programas de ensino de jazz nos EUA têm denotado uma falta de interesse e atenção à inovação e à experimentação. Isto representa uma abertura de mentes, significa que se está a permitir que a curiosidade ganhe forma e que se está a validar tentativas de transformação e renovação musical. Estou muito entusiasmada. É uma responsabilidade grande e levo-a muito a sério, quero aliás ouvir a comunidade de Pittsburgh, que tem uma grande tradição no jazz. Já tivemos diferentes gerações de grandes músicos oriundos de Pittsburgh, espero ajudar os jovens a conhecerem mais e melhor essa história.