A urgência do hospital de Beja está a funcionar nos últimos dias com um enfermeiro para cada 20 doentes críticos, quatro vezes mais doentes do que o recomendado, denunciou a Ordem dos Enfermeiros.

A bastonária Ana Rita Cavaco esteve no fim de semana no hospital de Beja e constatou que os enfermeiros, por serem em número insuficiente, estão numa situação de exaustão total, chegando a trabalhar 16 horas seguidas e a cumprir 70 horas de trabalho semanal, quando deveriam fazer 35 horas semanais.

“É uma equipa extremamente cansada e com muitos atestados [baixas] por exaustão. Os enfermeiros estão numa situação de sobrecarga horária e Beja é o exemplo mais recente. Não trabalham só 35 horas por semana, trabalham 70 horas e por vezes mais”, lamentou Ana Rita Cavaco.

Ana Rita Cavaco considera que a notícia da contratação de mais 1400 enfermeiros pelo Ministério da Saúde é um passo importante para fortalecer o Sistema Nacional de Saúde, mas que por si só não é suficiente sequer para cobrir os profissionais que há um ano ficaram por contratar com a passagem às 35 horas de trabalho semanais.

Em declarações à agência Lusa, a bastonária dos Enfermeiros recorda que em julho do ano passado se contrataram cerca de mil dos 1.700 enfermeiros que seriam necessários apenas para suprir a passagem das 40 para as 35 horas semanais, ficando a faltar 700 profissionais.

“Estas 552 novas contratações não cobrem os cerca de 700 que ficaram por contratar e deviam ter sido supostamente contratados em outubro. E além disso, já tínhamos necessidades para trás. Há serviços com camas encerradas por falta de enfermeiros”, referiu a bastonária.

Ana Rita Cavaco indica que todas as instituições do SNS têm défices de enfermeiros e que estas mais de 500 contratações estão aquém das necessidades.

“É sempre positivo a contratação, mas isto não vai resolver grande coisa, nem resolver a carência de enfermeiros com a passagem às 35 horas, nem a que já existia anteriormente”, afirmou à Lusa.

A bastonária estima que estas contratações possam começar a ter efeito na “altura da campanha eleitoral” das próximas legislativas, em outubro.

A passagem às 35 horas na saúde abrangeu enfermeiros, técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica, farmacêuticos e assistentes operacionais. Os médicos têm um regime diferente e não estiveram integrados nesta transição.

Segundo a Ordem dos Enfermeiros, o SNS “já tinha uma carência crónica de 30 mil enfermeiros”, tornando necessário contratar três mil profissionais por ano durante 10 anos. Além disso, para colmatar a passagem das 40 para as 35 horas de trabalho seriam necessários cerca de 1.700.