Há 13 anos, a aldeia de Cem Soldos, em Tomar, era, para quem por lá passava, mais uma placa de beira-de-estrada, um sítio desconhecido. Hoje já tem uma imagem coletiva, já sabemos que é a aldeia onde, desde 2006, decorre o festival comunitário dedicado à música portuguesa chamado Bons Sons.

O mesmo que este ano assinala 13 anos e dez edições, que tem na sua génese vontades amealhadas em conjuntos por um grupo de jovens que sempre gostou da sua aldeia, que sempre quis conversar, mas que desde cedo sentiu ideia de festa tradicional estava já expirada. Faltava pensamento, uma programação a que se possa chamar programação, tudo indicações dadas por Luís Ferreira, diretor artístico do Bons Sons. “Nunca nos identificámos com o discurso da terrinha, daí querermos trazer a contemporaneidade ao campo, podermos viver aqui, mas sermos de hoje, não sermos apenas uma memória que nunca existiu e daquela ideia do antigamente foi assim, que as pessoas acham, não sei bem porquê, que a cidade é o futuro e a aldeia é o passado e ela tem que permanecer intacta e num certo território”.

O Bons Sons iniciou-se com 5 edições bienais de forma comunitária, de 2006 a 2014, onde se tornou anual, num modelo pensado para não sobrecarregar a aldeia. Por lá passou grande parte do tecido musical português da história recente e não só, num aroma que cruza o desejo de preservar e homenagear a tradição com a urgência da nova música. Mas atenção, que para Luís Ferreira estavam reunidas todos os ingredientes para o fracasso, que era pouco sensual ou sedutor:

“Este era um projeto que tinha tudo para dar errado, que começa em 2006, primeiro festival de música portuguesa numa aldeia, liderado por jovens, voluntários, tudo para correr mal, como se costuma dizer em marketing: ‘não és nada sexy’. Felizmente correu bem, o que se tornava até estranho tornou-se especial. Fomos crescendo, nunca foi um projeto que se conformou, nem em forma, nem em conceito e fomos adaptando os dois vetores do Bons Sons, a cultura portuguesa e o pensamento do território. É um balanço muito positivo”.

Bons Sons assinala 10.ª edição com livro ilustrado que retrata o festival e a aldeia

E já que estamos na balança façamos mais pressão nos pratos da mesma. Esta é a edição que serve também para a organização parar, pensar e elaborar um manifesto de dez pontos onde volte a ordenar os seus princípios, a sua forma de estar, no fundo, uma recapitulação, que o povo gosta de tópicos e a memória nem sempre é grande amiga. Naquilo a que chamam “10 edições, 13 anos, 1 aldeia em manifesto”, o Bons Sons reitera o seguinte:

  • Pela contemporaneidade no campo. Vivemos a aldeia de hoje.
  • Por uma plataforma cultural. Somos o encontro.
  • Pelo planeamento do território. Temos ideias.
  • Pela cidadania participativa. Fazer é o nosso poder.
  • Pelo envelhecimento ativo. Somos um imenso lar.
  • Pelo ensino em comunidade. Crescemos com a aldeia.
  • Por projetos de território. Investimos nas pessoas.
  • Por uma ação sustentável. Não ficamos plantados.
  • Pela criação de espaço público. Habitamos a rua.
  • Pela cultura popular. A cultura sem dono.

Daqui retira-se também uma atitude que é, seguramente, coisa bastante rara (quase apetece dizer inédita) num festival português, é que este ano, o Bons Sons decidiu reduzir a lotação do recinto de 40 mil pessoas para 35 mil. É, sem dúvida, uma das grandes novidades deste ano e que reflete essa capacidade de tentar ver além dos cifrões, tentar cuidar das pessoas, dar mais condições para estarmos juntos e estarmos bem. Esmagar a aldeia, praticar filas intermináveis e encontrões desmedidos é algo que não se coaduna bem com o trabalho do Bons Sons. E nesse sentido, para Luís Ferreira “crescer não é necessariamente ter mais pessoas, crescer é ter mais alcance e efeito, crescer a nível de público é reduzir a pertinência do festival”, explica.

Isso faz-nos, por questões profissionais, como devem perceber, perguntar ao diretor artístico do Bons Sons se chegaram a estar nessa zona de confusão, acima de lotação, que torna qualquer festival irritante, pouco interessante: “Não acho que tenha chegado a esse ponto, temos tido a sorte de antecipar os problemas, sentimos que se nos mantivéssemos dessa forma iríamos por aí, sim. E também é certo que quem vem apenas à noite para ver um concerto tem uma experiência mais empobrecida do festival, legítima, como é óbvio, mas consome o festival de uma forma mais fugaz, não conhece a aldeia e os seus recantos. Esse crescimento sem fim que a economia nos tenta impor não nos interessa e também faz parte do nosso papel como projeto que pensa tomar esta atitude”.

Mais: reduzem a lotação e aumentam o recinto. Em vez de oito existem agora dez palcos. Um chamado Palco António Variações, na zona da eira, e outro chamado Palco Carlos Paredes, na igreja. Só por si, a inclusão de dois novos palcos já significa uma maior de recinto, portanto menos pessoas e mais espaço. E há, para este ano, mais atividades que cruzam outras disciplinas artísticas, teatro, exposições, instalações, dança e que decorrem por vários recantos de Cem Soldos das dez da manhã às dez da noite, algo que “ajuda a diversificar os estímulos e a diluir as pessoas pelo recinto”, afirma Luís Ferreira.

Em Cem Soldos a casa deles é o festival de todos

Depois – mais uma vez por motivos profissionais, é assim, que fazer – fomos mauzinhos e pedimos aquela coisa sempre chata de lhe pedir destaques do alinhamento de 2019, aquilo que é mesmo imperdível. “Vou-me defender dessa pergunta com os projetos especiais. Nós desafiámos 13 bandas que estiveram durante estes 13 anos no Bons Sons, a fazerem um concerto desenhado especificamente para o Bons Sons, onde fazemos duplas, temos Glockenwise e JP Simões, Benjamim e Joana Espadinha, temos muitos, esses concertos queríamos que fossem particulares e por isso são imperdíveis. Depois, temos o concerto de abertura e de encerramento, o de abertura que é feito pela Orquestra Filarmónica Gafanhense e que vai tocar uma música por consagrar de cada ano, que vai revisitar os temas consagrados de cada edição e depois temos o concerto de encerramento, com o Moullinex, mais performers e convidados, com muita gente em palco”.

O Luís lá se safou. Como se não bastasse, decidimos dobrar a maldade e pedir momentos inesquecíveis destes 13 anos. “Em 2010, o Fausto, foi muito importante. Para já por ser o Fausto, bastava isto, mas ele ajudou-nos a explicar o que era o Bons Sons e já era a terceira edição, mas esta coisa da música portuguesa e do facto de estarmos numa aldeia, havia sempre esse estigma e o Fausto ajudou-nos a explicar o que queremos dizer com isto, foi um concerto de entendimento, ou foi pelo menos o que sentimos em relação ao feedback do público e ao que foi escrito na comunicação social. Mais a importância de o ter cá, claro”. Luís Ferreira disse mais dois ou três concertos, mas a admitir que era ingrato, que são centenas e centenas de concertos e estes foram apenas aqueles que lhe vieram à cabeça. Por isso decidimos manter só o do Fausto. Assim ninguém fica chateado. Que venham de lá esses Bons Sons.