“Fotografia”

Depois de ter feito um filme nos EUA e outro em Inglaterra, o indiano Ritesh Batra volta à sua Mumbai natal, onde rodou em 2013 o encantador “A Lancheira”, que o revelou, para contar a história de mais um casal em “Fotografia”. Um fotógrafo ambulante solteirão, Rafi (Nawazuddin Siddiqui) pede a uma rapariga que não conhece e que um dia fotografa na rua, Miloni (Sanya Malhotra) que finja que é a sua noiva, para contentar a avó que vem do campo visitá-lo. Muito mais elíptico e emocionalmente reservado do que “A Lancheira”, ao ponto de nos deixar no escuro sobre as motivações e os comportamentos das personagens, “Fotografia” falha no capítulo da verosimilhança, já que nos pede para acreditar que uma rapariga como Miloni aceitasse, sem pestanejar, fingir de noiva de um completo estranho, quando pertencem a classes sociais e sobretudo castas diferentes; e é previsível e convencional mesmo apesar da sua idiossincrática, reticentíssima, estratégia narrativa. Há ainda um subenredo sobre uma marca de refrigerante de que Miloni gostava e supostamente já não se fabrica, mas Rafi procura por toda a parte, que não tem conclusão visível, e um fantasma que desaparece tão subitamente como surgiu, não se percebe porquê. Tudo o que Batra fez bem em “A Lancheira”, sai-lhe mal em “Fotografia”.

“Ibiza”

Uma deplorável comédia francesa em que Christian Clavier interpreta Philippe, um podólogo conservador e divorciado que vai passar férias a Ibiza com a namorada, Carole (Mathilde Seigner) e com os dois irritantes filhos adolescentes desta, que passam o tempo agarrados aos telemóveis e o desprezam e gozam com ele. O bem-intencionado Philippe quer a todo o custo cair nas boas graças dos futuros enteados, que acabam por o envolver, e à mãe, numa série de situações tão embaraçosas como estapafúrdias. Longe vão os tempos em que o cinema francês sabia fazer boas comédias populares, como “Barracas na Praia”, de Patrice Leconte (1978), onde Clavier, então em início de carreira, dava vida a uma personagem com algumas parecenças com a de Philippe. Este “Ibiza” de Arnaud Lemort tem tanta graça como pisar uma alforreca na praia ou ir nadar ao pé de uma saída de esgoto (por falar nisto, a sequência final na casa dos ricaços arrogantes e obcecados com o ambiente é particularmente repugnante, mostrando que os franceses parecem reduzidos a imitar as comédias americanas mais alarves).

“Síndrome de Estocolmo”

Estamos em 1973, na próspera, ordeira, passiva, conformista Suécia social-democrata, governada por Olof Palme. Ethan Hawke interpreta, neste filme de Robert Budreau, um delinquente chamado Lars Nystrom, que, acabadinho de sair da cadeia, mete-se por um banco de Estocolmo adentro armado com uma metralhadora, uma pistola e uma faca, manda sair toda a gente, excetuando duas mulheres que trabalham nas caixas (a estas, juntar-se-à depois um colega que se tinha escondido), e exige a libertação de um amigo e cúmplice que está preso, Gunnar Sorensen, mais um gordo resgate e um carro para a fuga. Nunca a próspera, ordeira, passiva e conformista Suécia social-democrata tinha visto tal coisa. E como se isto não bastasse, reféns e captores acabam por desenvolver um mecanismo de identificação, pelo qual primeiros passam a compreender, auxiliar e defender os segundos. A fita recria o assalto ao banco que deu origem à expressão “Síndrome de Estocolmo”, e que segundo alguns especialistas configura também uma situação clínica. “Síndrome de Estocolmo” foi escolhido como filme da semana pelo Observador, e pode ler a crítica aqui.