O reinício das conversações de reunificação e as tensões em torno das prospeções de gás ao largo da ilha dividida vão dominar o encontro desta sexta-feira entre o Presidente de Chipre e o líder da comunidade cipriota turca.

Neste primeiro contacto bilateral desde 26 de fevereiro, o Presidente da República de Chipre Nikos Anastasiades e o líder da autoproclamada República Turca de Chipre do Norte (RTCN) Mustafa Akinci vão tentar fornecer um novo impulso a um processo negocial bloqueado e destinado a terminar com a partilha da ilha entra as duas comunidades, imposta desde 1974.

O diálogo também envolverá consultas com Elizabeth Spehar, representante especial em Chipre do secretário-geral da ONU António Guterres, que tem mantido contactos informais com os dois líderes.

O encontro fica ainda assinalado pela decisão da Turquia, anunciada na quarta-feira, do envio um segundo navio que também iniciou a prospeção de gás ao largo da ilha, apesar dos protestos de Nicósia.

Chipre considera que as atividades de prospeção são ilegais e a União Europeia, da qual o país é Estado-membro desde 2004, anunciou sanções contra a Turquia.

Ancara insiste que está a proteger os seus direitos e os direitos dos cipriotas turcos, que também devem usufruir dos futuros benefícios relacionados com a descoberta de importantes jazidas de hidrocarbonetos nesta região do Mediterrâneo oriental.

Em maio, numa carta dirigida a diversos responsáveis internacionais o ministro dos Negócios Estrangeiros turco Mevlüt Çavusoglu defendeu o direito do seu país em explorar hidrocarbonetos nas águas próximas de Chipre e criticou duramente as licenças concedidas pelo Governo cipriota grego no sul e sudeste da ilha a empresas multinacionais.

O ministro sublinhou ainda que a Turquia não reconhece a sua autoridade para delimitar uma zona económica exclusiva sem resolver previamente o conflito que divide a ilha e reiterou a posição turca de que as jazidas de hidrocarbonetos em torno de Chipre pertencem a toda a população da ilha e não deverão ser explorados antes de ser alcançado um acordo político.

As mais recentes negociações de alto nível onde também participaram diplomatas de topo das potências garantes, Grécia, Turquia e Reino Unido, fracassaram em julho de 2017.

Os principais pontos de discórdia incluem a exigência cipriota turca para condições iguais no processo de decisão federal, algo que a maioria cipriota grega receia tornar-se num poder de veto que possa paralisar o funcionamento do Estado.

A República de Chipre, dois terços do território, atualmente com cerca de 850.000 habitantes onde predomina a população de origem grega cristã ortodoxa e as minorias arménia e maronita, foi fundada em 1960 após a sua libertação da ocupação britânica, mas a ilha apenas esteve unida de facto durante três anos, quando se iniciaram os conflitos entre as duas principais comunidades, num território onde predomina a população de origem grega.

Em 1974, a tentativa de Enosis (união à Grécia) implicou a divisão na ilha na sequência da invasão militar da Turquia, dolorosas trocas de populações e a ocupação da parte norte, onde nove anos depois será criada a República Turca de Chipre do Norte (RTCN, habitada pelos cipriotas turcos de religião muçulmana (perto de 300 mil habitantes) e apoiada pela Turquia a nível militar, económico, demográfico e diplomático.