Nuno Tavares, o miúdo novo que arrasou no primeiro dia de escola (a crónica do Benfica-P.Ferreira)

O Benfica goleou (outra vez) por 5-0 e bateu o P. Ferreira em casa na primeira jornada sem ser brilhante. Nuno Tavares, que marcou um golo e ofereceu dois, foi o destaque dos encarnados.

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O jovem lateral tem aproveitado a lesão de André Almeida para ser titular na direita da defesa encarnada

NurPhoto via Getty Images

O jovem lateral tem aproveitado a lesão de André Almeida para ser titular na direita da defesa encarnada

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Em entrevista ao Observador há pouco mais de uma semana, António Pacheco explicava que o resultado de uma Supertaça podia motivar o vencedor mas dificilmente desmotiva o derrotado, na medida em que uma vitória — qualquer que seja — é sempre uma injeção de otimismo mas uma derrota numa fase tão embrionária da temporada nem sempre agita um grupo coeso. Aquilo com que António Pacheco não estava a contar, até porque ninguém estava a contar, era que esse resultado da Supertaça fosse uma goleada por 5-0 imposta pelo Benfica ao Sporting. E assim, mesmo tendo em conta a racionalidade do antigo jogador de encarnados e leões, a verdade é que a motivação que a equipa de Bruno Lage carregava este sábado nas costas não era uma simples injeção de otimismo.

Menos de uma semana depois da tal goleada perante o Sporting, o Benfica recebia o P. Ferreira na Luz para a jornada inaugural da Primeira Liga e para o passo inicial daquela que será uma óbvia defesa do título nacional por parte dos encarnados. Na antecâmara de um jogo marcado para as 21h30 de um sábado de agosto mas com a perspetiva de lotação esgotada, a primeira alegria nas bancadas aconteceu ainda antes do apito inicial, ainda antes de qualquer golo e antes até de as equipas entrarem no relvado. Antes da estreia do Benfica na presente edição da Liga, a Luz recebia a partir de Barcelos a notícia de que o FC Porto tinha acabado de perder com o Gil Vicente na jornada inaugural do Campeonato — e a perspetiva de cavar já um fosso de três pontos, mesmo na primeira semana de 34, deu mais um boost à já forte e estável mentalidade encarnada por estes dias.

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Ficha de jogo
Benfica-P. Ferreira, 5-0

1.ª jornada da Primeira Liga

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: Manuel Oliveira (AF Porto)

Benfica: Vlachodimos, Nuno Tavares, Rúben Dias, Ferro, Grimaldo, Pizzi, Samaris (Jota, 78′), Florentino, Rafa (Carlos Vinícius, 78′), Raúl de Tomás (Chiquinho, 66′), Seferovic

Suplentes não utilizados: Zlobin, Jardel, Taarabt, João Ferreira

Treinador: Bruno Lage

P. Ferreira: Ricardo Ribeiro, Bruno Santos, Marco Baixinho, Maracás, Bruno Teles, Pedrinho (Matchoi, 72′), Diaby, Luís Carlos, Bernardo, Uílton (Yago, 57′), Tanque (Diogo Almeida, 68′)

Suplentes não utilizados: Simão Bertelli, André Micael, André Leão, Jorge Silva

Treinador: Filipe Rocha

Golos: Nuno Tavares (26′), Pizzi (32′ gp, 74′), Seferovic (70′), Carlos Vinícius (84′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Marco Baixinho (9′), Tanque (36′), Bernardo (48′ e 65′); cartão vermelho por acumulação a Bernardo (65′)

Do outro lado, porém, estava um P. Ferreira a regressar à Primeira Liga depois de um ano na Segunda em que foi campeão e perdeu Vítor Oliveira, o treinador especialista em subidas que decidiu abraçar um desafio no principal escalão ao leme do Gil Vicente. Para o substituir, foi escolhido Filipe Rocha, que este sábado também se estreava em jogos na Primeira Liga e trazia à Luz uma equipa com uma média de idades superior à do Benfica e assente nos anos de carreira de Luís Carlos e no virtuosismo de Diaby, irmão mais novo de Abou Diaby, antigo jogador do Arsenal e do Marselha. Ainda assim, e tal como o treinador, eram cinco os jogadores que também faziam este sábado o primeiro jogo na Primeira Liga (Maracás, Bernardo Martins, Diaby, Uílton e Tanque), o que revelava só por si a inexperiência do conjunto que volta esta temporada à ribalta do futebol português.

Na escolha do onze inicial, Bruno Lage aceitou, reconheceu e justificou aquele que tem sido o principal comentário feito ao Benfica e à gestão do treinador — sempre em formato de elogio. Na hora de eleger os titulares, Lage só fazia uma alteração face à equipa que no domingo goleou o Sporting e era forçada, já que Samaris saltava para o onze para render o lesionado Gabriel. Tirando isso, Rúben Dias e Ferro eram a dupla no eixo da defesa, Grimaldo o dono da esquerda, o jovem Nuno Tavares na direita e o meio-campo com Florentino a servir de pêndulo entre os rebeldes Pizzi e Rafa, tombados nos corredores e prontos a servir Raúl de Tomás e Seferovic. A regularidade encarnada, que traz estabilidade, certezas e garantias, é outra das constantes que a estrutura herdada da temporada anterior conseguiu transportar quase na perfeição para a época que está agora a começar: mas há um pormenor que foi a imagem de marca de Bruno Lage desde que chegou à Luz e que o técnico ainda não conseguiu reeditar.

Ao contrário do que acontecia na temporada anterior, em que o Benfica entrava em praticamente todos os jogos de forma altamente eficaz, com as linhas muito subidas e uma pressão alta avassaladora, os encarnados têm tido algumas dificuldades em arrancar de forma forte e decisiva nos últimos jogos. Tal como aconteceu na Supertaça, o Benfica entrou na partida deste sábado a errar alguns passes e com indecisões na primeira fase de transição, sem conseguir chegar com a bola controlada à zona mais recuada do meio-campo do P. Ferreira: por volta dos 20 minutos de jogo, Seferovic ainda só tinha tocado duas vezes na bola e os encarnados tinham 77% de posse mas ainda não tinham rematado. Raúl de Tomás, mais tombado na ala esquerda, ia sendo o melhor do Benfica e o único que escapava à bem montada estrutura pacense, que tinha um xadrez sólido e bem construído que ia dificultando o jogo interior que Pizzi tão bem faz e as correrias características de Rafa.

O primeiro golo do Benfica nesta edição da Primeira Liga apareceu não contra a corrente do jogo, porque o Benfica ia mantendo o controlo das ocorrências, mas de forma algo inesperada. Pizzi mostrou as costas à baliza de Ricardo Ribeiro e fez um passe curto para Nuno Tavares, que recebeu e viu o capitão encarnado pedir-lhe de imediato que colocasse a bola na direita. Num ato de desobediência perfeita e calculada, Nuno Tavares deu dois passos para dentro, armou a perna esquerda e atirou de fora de área para inaugurar o marcador (26′). No dia em que estreou na Primeira Liga, o jovem lateral estreou-se também a marcar e desatou uma partida que estava difícil. Escassos minutos depois, Bruno Santos jogou a bola com a mão no interior da área do Paços e Pizzi converteu a grande penalidade, marcando já pela terceira vez em 2019/20 (32′).

Na ida para o intervalo, o Benfica estava a vencer por 2-0 sem ter feito uma primeira parte brilhante — muito longe disso — e ia beneficiando do momento de génio de Nuno Tavares e do erro de Bruno Santos. Tal como aconteceu com o Sporting, os encarnados aproveitavam a eficácia acima da média para compensar algum défice exibicional e de rendimento e iam para o balneário com a certeza de que bastava uma espécie de damage control no segundo tempo para chegar ao final da partida com a vitória assegurada.

Na segunda parte, o Benfica entrou mais dinâmico e com mais facilidade em entrar entre as linhas do Paços, que também abria espaços para tentar procurar um golo que relançasse o resultado. Durante um período mais morno, em que Samaris se assumiu enquanto líder do meio-campo e passou a organizar de forma exímia a passagem da bola do setor defensivo para o intermédio e daí para o ofensivo, Bernardo viu o segundo cartão amarelo e o P. Ferreira ficou reduzido a dez elementos, tornando praticamente hercúlea a tarefa de uma equipa que já estava a cair no jogo e a conformar-se com o normal e expectável domínio encarnado.

[Carregue nas imagens para ver os melhores momentos do Benfica-P. Ferreira:]

Seferovic mascarou aquela que até foi uma noite de pouca inspiração com o terceiro golo dos encarnados, ao beneficiar de uma assistência do recém-entrado Chiquinho, que por sua vez foi lançado por Nuno Tavares (70′). Apenas quatro minutos depois, Pizzi bisou depois de (mais) um entendimento entre Chiquinho e Tavares (74′) e o jovem lateral ainda foi a tempo de oferecer a Carlos Vinícius a estreia a marcar com a camisola do Benfica (84′). O jogador de apenas 19 anos, que subiu ao plantel principal encarnado para ser lateral esquerdo mas tem aproveitado a lesão de André Almeida para se destacar na direita da defesa, esteve presente em todos os golos à exceção do penálti e foi — a par do inevitável Pizzi — o elemento em destaque no conjunto orientado por Bruno Lage, compensando uma noite mais apagada de Rafa e Seferovic.

O Benfica soma assim a segunda goleada consecutiva por cinco golos de diferença, depois da Supertaça, e cava desde já uma diferença de três pontos para o FC Porto. Sem nunca ser brilhante, sem nunca ser asfixiante e mesmo alguns pontos abaixo daquilo que era a equipa do final da temporada passada, os encarnados vão conseguindo ser tremendamente eficazes e aproveitam os erros e as fragilidades do adversário para criar uma distância insuperável entre os dois conjuntos. Mais do que isso, e logo na primeira jornada da Liga, a turma do Benfica recebeu um menino novo que brilhou, arrasou e impressionou logo no primeiro dia de escola e tem tudo para dar boas dores de cabeça a Bruno Lage.

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