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Bons sons dia 3: um campo e um canto sempre novo

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Terceiro dia com lotação esgotada em Cem Soldos. Punk do quotidiano, referências tecnológicas em plena aldeia, além surpresas em palco, que isto é um campo sempre novo.

Veja aqui imagens do terceiro dia de Bons Sons

Carlos Manuel Martins / Bons Sons

Autor
  • Miguel Branco

Ao terceiro dia aventuramo-nos pela primeira vez no Palco da Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, situado naquilo que podia ser descrito como uma espécie de armazém agrícola, com telhado de metal, espaço sobre o comprido, com vista para uma casa de pedra velha, já não habitada. Rezas, Benzeduras e Outras Cantigas é aquilo que nos traz aqui, um projeto de César Prata e Vânia Couto, que antes de subirem ao palco têm direito a honras de apresentação por Tiago Pereira, mentor do projeto que resgata a música tradicional portuguesa feita por esse país fora. São dois cantores e multi-instrumentistas que, claro, carregam o legado do cancioneiro popular português que fundem com texturas diversas, vozes e instrumentos-objetos gravados ao vivo, loops, ecos. No fundo: o ADN do Portugal profundo com recurso à tecnologia. Um sentimento meio místico por este poder íntimo, por esta altitude evocativa que as orações, tocadas assim, podem criar. Belo começo para este sábado abrasador, belo cantinho que Tiago Pereira tem aqui no Bons Sons.

A bateria idosa do telemóvel obriga a uma paragem longa, o que, não mintamos, serve para também nós carregarmos baterias para uma noite que se avizinha intensa. E já agora fria, assim que chegamos ao Palco António Variações está um vento que obriga ao agasalho. Diz quem sabe que é a mais fria edição do Bons Sons. Felizmente, uns raios rasgam por vezes a negritude do céu, os deuses da meteorologia trazem luz para dar as boas-vindas aos Baleia Baleia Baleia. Que saúdam Cem Soldos com a frase: “Será que é hoje que conseguimos meter mil pessoas a saltar?”. Projeto de Manuel Molarinho e Ricardo Cabral, que reafirma o belo trabalho de Luís Ferreira e da sua equipa de programação. Um baixo (Manuel) e uma bateria (Ricardo), num lusco-fusco agora reluzente, punk-rock com letras de escrita urbana e atual, um projeto com muito valor, a pedir mais atenção ao mercado da música portuguesa, com um homónimo editado em Março de 2018 pela ZigurArtists – label do festival conhecido como ZigurFest – que temos de levar mais vezes no bolso.

O concerto vai seguindo e o público vai aderindo, rindo-se desta ironia. “Quero ser um ecrã” é um dos seus temas mais interessantes, rampa de lançamento para o olhar crítico que os Baleia Baleia Baleia têm em relação ao mundo tecnológico – salientemos que outras das suas canção chama-se “Sac’aplicação”. Mas voltando a “Quero ser um ecrã”:

“e é sempre verão no ecrã 
e os corpos estão sempre nús 
e há tantos gatinhos no ecrã 
e sushi 
e bolinhos 
e coisas boas”

Palavras bicudas, forma verdadeira de comunicar com o mundo, coisa que não há para aí aos molhos. Há uma ideia de interpretação/performance incrível, cada canção podia ser vista como um conto do quotidiano, a documentação da rotina e das manias que arranjamos para nos tramar inconscientemente. Meio a medo, que depressa se esvai, dão-nos uma versão mais punk de “Toma o Comprimido”, de António Variações, nome do palco onde se apresentam. E agora que o sol se vai escondendo e que regressa o cinzento, reparamos que talvez isto faça mais sentido assim, bate mais certo com Baleia Baleia Baleia, sobretudo quando vem “Se o Diabo Quiser”. O final é a comunhão com este público que parece dar sinais de se ter divertido a bem divertir neste concerto. É levantar bem alto a bandeira contra a extinção das baleias.

Jantamos, o frio não é pequeno, e voltamos a ligar o carregador, o nosso e o do telemóvel, para abraçarmos Stereossauro, um dos concertos que deve convocar mais gente a esta edição do Bons Sons, depois do disco Bairro da Ponte editado em fevereiro pela Valentim de Carvalho, objeto que tanta água tem feito correr até esta altura do ano. E logo para um terceiro dia do Bons Sons esgotado, como já havia acontecido no sábado da edição de 2018.

Tempo de eletrónica em banho de pop e fado, com temas de Paulo de Carvalho, Amália, Carlos Paredes, entre outros. Concerto acompanhado da animação feita para o disco por DJ Ride, eterno companheiro de Stereossauro, o que acrescenta qualquer coisa ao momento, uma preocupação de imagem. E sim, confirma-se, o Bons Sons está esgotado, garantia dada pelo número de empurrões e pela aquela ânsia de querer encontrar o melhor lugar, a melhor vista para o Palco Lopes-Graça. Tudo a dançar o scratch em sobreposição com a guitarra portuguesa.

A meteorologia lá prega outra partida ao Bons Sons, volta a chover e a chover bem, mas agora também não há grande remédio, é ir até ao fim, bater o pé, fingir que é psicológico. E vem também o comprimido Tiago Bettencourt, que promove uma enchente daquelas assim quase incómodas. O que vale é que o povo sabe as cantigas todas de cor e desata a enxugar a roupa enquanto canta. E a chuva também deu descanso, diga-se. “Maria” é o primeiro e um dos grandes exemplos que Tiago Bettencourt é mais do que bem-vindo a Cem Soldos, tudo na ponta da língua e assim foi praticamente do início ao fim.

Mais tarde, noutro dos concertos mais esperados do dia, mais um encontro pouco expectável: Glockenwise e JP Simões, num Palco António Variações à pinha. A turma de Barcelos, em altas depois do seu Plástico, disco que os inaugura na língua portuguesa (Valentim de Carvalho, dezembro de 2018) e que aqui vai com o input do grande camaleão JP Simões. Quer dizer, a ver se vai, pelo menos era o que estava anunciado e previsto. Mas a banda de Barcelos começa o concerto e não há sinal de JP Simões, bem nós dissemos que ele é camaleão, é tão camaleão que nem apareceu, pelo menos nas três primeiras canções do concerto. Nuno Rodrigues agradeceu o apoio e disse: “Nós somos os Glockenwise e é um prazer enorme voltar a tocar neste palco”.

Mas depois disto, lá vem ele, com um saxofone e um “good night ladies and gentlemen” praticamente impercetível. Lá começa por cantar um tema da sua autoria, do projecto Bloom, com arranjos dos Glockenwise. JP Simões como só ele, com aquele passeio pelo palco, de quem lá está mas na verdade está meio ausente. Pelo meio até se senta, enche o copo, acende um cigarro e fica ao fundo do palco a curtir a música. Os Glockenwise são uma das melhores bandas nacionais, mas a colaboração talvez não tenha atingido o ponto esperado. Assim sendo, vamos descansar. Que este domingo também está a valer.

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