Se em Portugal temos de esperar até à terceira jornada para assistir a um encontro entre duas das melhores equipas e entre dois destacados candidatos ao título, em Inglaterra era logo no primeiro fim de semana que o Manchester United recebia o Chelsea. Num jogo entre duas equipas com sortes diferentes na temporada passada — os red devils mudaram de treinador em dezembro, acabaram a Premier League em sexto e falharam a Liga dos Campeões e não conquistaram qualquer troféu, ao passo que o Chelsea ficou em terceiro, ganhou a Liga Europa e este ano está na liga milionária –, a verdade é que se encontravam dois conjuntos em absoluta transformação, que procuram agora abrir um novo capítulo no futuro.

O Manchester United decidiu segurar Solskjaer, apostar em reforçar a defesa (Maguire e Wan-Bissaka), dar um toque no esquema tático e jogar com Lingard, Rashford e Martial em simultâneo para colmatar a saída de Lukaku e ainda apostar em Andreas Pereira, que estava emprestado ao Valencia e regressou agora a Old Trafford. Ao mesmo tempo, deu espaço a Mason Greenwood e Angel Gomes, dois jovens da formação que se destacaram na pré-temporada, e mostrou que o objetivo é cimentar o futuro nas camadas jovens do clube. E é aqui que o percurso atual do clube de Manchester cruza com o do Chelsea.

O clube de Londres, que até teve uma época razoalmente bem sucedida e conseguiu uma conquista europeia, perdeu Maurizio Sarri para a Juventus e Eden Hazard para o Real Madrid e ditou o tónico para os próximos anos ao escolher Frank Lampard, histórico médio e antigo capitão dos blues, para suceder ao técnico italiano. A frase que tem acompanhado as tarjas que incluem a imagem de Lampard nas bancadas — “our past, our present, our future”, o nosso passado, o nosso presente, o nosso futuro, em português –, deixa claro que, tal como acontece em Old Trafford, a reconstrução será feita com prata da casa. Este domingo, contra o Manchester United, o Chelsea jogava com Tammy Abraham (que é formado no clube, estava emprestado ao Aston Villa e foi o segundo melhor marcador do Championship) na frente de ataque e Mason Mount (também das camadas jovens, resgatado ao Derby County) no meio-campo: enquanto que Giroud, Pulisic e N’Golo Kanté estavam no banco de suplentes.

O Chelsea entrou em Old Trafford mais decidido, apostado em chegar cedo ao golo e dar desde logo um passo importante rumo aos primeiros três pontos da temporada. Tammy Abraham acertou no poste de fora de área (4′) e Mason Mount obrigou De Gea a uma boa defesa também de meia distância (12′) e o Manchester United passava por algumas dificuldades, sem maneira de sair da zona mais recuada e a entregar toda a iniciativa ao adversário. Numa altura em que a equipa de Solskjaer ia jogando quase aos repelões, a tentar afastar os blues da grande área de De Gea para conseguir respirar mas sem qualidade suficiente para organizar o ataque, Rashford sofreu falta de Zouma no interior da área de Kepa e converteu a grande penalidade (18′), num golo que surgiu totalmente contra a corrente do jogo e que provocou uma quebra no rendimento do Chelsea.

Ainda assim, e mesmo com a equipa de Lampard a precisar de se reorganizar face à desvantagem inesperada, a verdade é que o Manchester United não conseguia assumir o controlo da partida. Apesar das boas indicações dadas pelos principais reforços que estavam em campo — Maguire pode mesmo ser um patrão da defesa, Wan-Bissaka é muito forte a defender e foi ficando progressivamente mais solto a atacar –, os erros de Pogba na condução das transições e a ausência de protagonismo de Pereira não permitiam à equipa de Solskjaer criar perigo junto à baliza de Kepa. Martial, sempre mais perigoso quando ia do corredor esquerdo para a faixa central, ia tentando jogar com Luke Shaw nas costas e procurar Rashford na área mas era normalmente abafado pela defesa dos blues, bem colocada e com a lição estudada para não permitir aventuras dos homens mais adiantados do United.

Na ida para o intervalo, e já depois de um período de total controlo do Chelsea em que os blues criaram várias oportunidades e Emerson atirou uma bola ao poste (40′), era notório que a equipa de Londres está vários furos acima do Manchester United no que à organização, às ideias e à implementação dessas ideias diz respeito. Quando Kovacic e Jorginho subiam alguns metros no terreno, os red devils não conseguiam conter o all in do movimento ofensivo do Chelsea — e tudo isto quando Hudson-Odoi e Willian ainda estão lesionados. Ainda assim, e porque estamos a falar de futebol, era o Manchester United quem ia vencendo.

Na segunda parte, e principalmente depois da entrada de Pulisic para o lugar de Ross Barkley, o Chelsea ganhou uma superioridade ainda maior no jogo e adquiriu uma qualidade tática, aliada à inteligência e à velocidade do internacional norte-americano, que não só provocou muitos problemas a Wan-Bissaka como tornava ainda mais previsível o empate dos blues. Numa partida nem sempre bem jogada — a confirmar a 100% o facto de ser a jornada inaugural de um campeonato –, o Manchester United continuava a fechar-se dentro de si mesmo e já só saía em transições rápidas, com passes longos a procurar a vertigem de Lingard, Martial e Rashford. E foi precisamente numa dessas transições, logo depois de Tammy Abraham perder a bola para Maguire, que os red devils chegaram ao segundo golo.

Rashford conduziu, até soltou com demasiada força para Lingard para o inglês conseguiu entregar a Andreas Pereira, que na única ação positiva em teve em todo jogo cruzou tenso para a área e ofereceu de mão beijada o golo a Martial (65′). Dois minutos depois, com o Chelsea ainda a assimilar o facto de provavelmente ter acabado de perder a partida, Pogba soltou um passe longo perfeito para Rashford e o jovem avançado atirou para o segundo da conta pessoal e o terceiro do Manchester United (67′). Em 95 segundos, a equipa de Solskjaer acabou com as esperanças do Chelsea, confirmou uma motivadora vitória na jornada inaugural e agarrou os primeiros três pontos da temporada: com tempo ainda para Daniel James, o menino de 21 anos contratado ao Swansea, se estrear a marcar pelos red devils a passe de Pogba (81′).

O Chelsea de Frank Lampard, que parecia condenado a ganhar em Old Trafford a partir do momento em que lançou o norte-americano Pulisic, onde recaem agora quase todas as esperanças dos blues no pós-Hazard, jogou mais, jogou melhor, jogou até acima da média, mas esbarrou na gigantesca eficácia do Manchester United. E mais do que isso, esbarrou em Harry Maguire, que na estreia com a camisola dos red devils se assumiu desde já como o novo patrão da defesa, manteve a baliza de De Gea quase inalcançável e pode muito bem ser o nome e o homem que vai liderar os próximos anos em Old Trafford. E, mais do que isso, justificou o porquê de ter sido comparado a Rio Ferdinand durante toda a semana.