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Bons Sons, dia 4: acabar em grande é assim

O derradeiro dia em Cem Soldos cantou a arte manual do fabrico do linho e abusou no funaná. Um domingo para corajosos para comemorar dez edições.

Autor
  • Miguel Branco

O que é que se faz sempre antes de qualquer outra coisa? Comer, pois claro. Ao almoço, as Sopa de Pedra dão-nos uma sobremesa incrível: um pequeno ensaio à mesa – um teste vocal descontraído, só para ver para ver como estão as modas, entre cafés e pudins – é um miminho que nem toda a gente tem. Elas que mais logo se vão apresentar no Palco Zeca Afonso em conjunto com Joana Gama, em mais um dos concertos especiais do Bons Sons 2019.

É precisamente aí que estamos. A tarde foi entre jogos de capitais à sombrinha e refrescos. Avançamos no tempo para testemunhar a união do coro feminino do Porto – que pesquisa e aborda as canções típicas da tradição oral de várias latitudes nacionais – com a genialidade do piano da bracarense Joana Gama. Começam todas – das Sopa de Pedra estão presentes oito dos dez elementos – sentadas em meia-lua, fazem percussão com o tampo daquilo que parecerem ser secretárias de liceu antigo. Depois fazem uma história, um pequeno teatro que leva Joana para o piano. Centram-se, para já, no repertório de Lopes-Graça, mais um pedaço de história e tradição no Bons Sons, e melhor que este durante esta edição será difícil.

O trabalho das Sopa de Pedra é de uma delicadeza, de uma beleza fina pouco dada ao presente. Está vento, é certo, mas os arrepios vêm de outro sítio, paisagem perfeita com as oliveiras em perspetiva. É uma daquelas imagens que funcionam como terapia hipnótica, que servem para limpar a cabeça e congelar no que vemos em palco. Há um silêncio incomum sobre o Palco Zeca Afonso. É que a gente sabe como o português gosta de comentar, mas por agora porta-se lindamente.

Rumam juntas a Amílcar Vasques Dias, músico e pensador da música popular portuguesa, que tanto Joana Gama como Sopa de Pedra têm no seu dossiê discográfico. E isto também é apelar à sensibilidade, ao pensamento, sobretudo quando se fala de uma arte quase desaparecida como o fabrico manual do linho. Cantam “Estrigadeiras do Meu Linho. Lágrima”. É nosso cada pedaço de respiração desta música. Num momento mais descontraído ainda promovem uma onda à maneira de um estádio de futebol, que tão bem resulta nesta encosta do Palco Zeca Afonso.

Em andamento, damos connosco a pensar a quantidade de vezes que vimos adufes, bongos, ferrinhos, cordofones de vários tipos. É também nesse aspeto que está a riqueza deste festival. Agora viajamos para o Palco Amália, para piano e saxofone, também eles a querer contemplação, a provocar encantamento. Falamos do piano de João Paulo Esteves da Silva e do saxofone de Ricardo Toscano. Uma vibração jazz meio fragmentada para rostos que assumem agora pose entre a admiração e a perplexidade. É impressionante como dois instrumentos conseguem construir realidade tão paralela e imagética. É que isto tanto podia ser coisa próxima d’”Os Aristogatos”, como banda sonora de um sonho que esquecemos assim que acordamos. A improvisação como um carril que encaminha o caos do pensamento. Uma embalo que nada tem que ver com sonolência, ainda que se contem algumas cabeças para trás, de olhos fechados, mas nunca estáticas, absorvendo a melodia, vislumbrando ainda a luz ténue que o sol emana, mais três nuvens que parecem ter sido desenhadas ou obra de três jatos dispostos à mesma distância. Como é um privilégio escutar estas duas gerações distintas, maravilha. Se for hora de fazer resumos, é hora de dizer que hoje, para nós, o último e quarto dia do Bons Sons tem sido um dia de alheamento, intimidade egoísta com os concertos até agora consumidos.

O Bons Sons é seguramente um festival especial, de oportunidades inéditas e junções que talvez não voltemos a ver. O que também não se deve ver em muitos festivais é um chapéu-de-sol do Intermarché a dizer “Poupe Combustíveis”, o Bons Sons sempre na atualidade. Toada que se mantém assim que os Tape Junk, de João Correia, surgem no Palco António Variações. É de Março o seu conjunto de canções recostadas, pop-rock com cheiro a mantinha de sofá, como aliás prova o título: Couch Pop. Não é que já tenhamos testado, mas isto quase dá vontade de sacar do pano do pó e limpar o móvel da televisão ou a estante dos livros. Assim que experimentarmos, revelaremos os resultados. Com isto chega a nostalgia do fim, num domingo que ainda vale, verdade, mas que parece não querer deixar de ser domingo, pelo menos no sentido de segunda ser dia de trabalho e de este recinto estar consideravelmente mais vazio que em outros dias. A malta responsável foi abalando.

Mas também há a equipa da boa irresponsabilidade ou a equipa amanhã-não-tenho-nada-para-fazer. Na pausa para a casa de banho ouvimos uma amiga confessar à outra: “Sabes como é que eu imagino o Dino d’Santiago? Um dinossauro, mas peregrino, tipo com uma daquelas conchas de Santiago de Compostela, sabes?”. Então não sabemos. Dinossauro ou não, Dino traz o som da diáspora, um dos artistas mais queridos da música portuguesa e o Bons Sons só o confirma, o Palco Lopes-Graça é agora um leque, perdão, um porradão de danças diferentes, numa lógica que é anti-competição, é farra, é partilha. Traz-nos Mundo Nôbu, um disco com dedo, ou seja produção executiva, de Kalaf, um mundo de ritmos quentes, uma morna que até convida a que voltemos à T-shirt, a que deixemos de acreditar em camisolas. O funaná voltou ao Bons Sons, ele que sempre traz esta alegria de celebração, ainda que já cá estejamos há quatro dias e as pernas meio dormentes. Dino d’Santiago pode ser compreendido como uma anestesia, uma amnésia feliz. Ele que, como já vem sendo hábito, desce para o meio do público para a canção final. Mentira, a última é a que tem ser: uma versão a capella de “Sodade”, de Cesária Évora. Quando se dá a debandada, o cansaço é tanto que até há quem peça para ser levado ao colo. O Bons Sons não. Alguma vez? Era lá ele menino para isso, o Bons Sons vai pelo próprio pé, aliás, vai há 13 anos e há dez edições.

Para quem escreve estas linhas foi a primeira – “a primeira de muitas”, parecem dizer-nos os deuses dos festivais e os santos de Cem Soldos. O fim de festa faz-se com Moullinex, aquela eletricidade que vem em boa hora, os últimos cartuchos são uma ideia de discoteca na praça central de uma aldeia. Ou pelo menos o disco como forma de expressão final. Lantejoulas de libertação. Grande pinta. Dias bonitos estes num festival em que se comem ovos cozidos, onde se bebem litrosas e vinho licoroso, e onde o clássico da redenção de qualquer madrugada encharcada e portuguesa não tarda em aparecer. Venha de lá esse grande caldo verde. Rematado com um pão com chouriço, já agora.

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