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Armamento Nuclear

Explodiu um míssil nuclear na Rússia. Há razões para preocupação?

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Um teste falhado com um míssil provocou uma explosão na Rússia. Tudo indica que o míssil seja nuclear. Aldeia próxima irá ser evacuada, mas Moscovo diz que as duas coisas não estão relacionadas.

O acidente aconteceu menos de uma semana depois de Trump ter retirado os EUA do Tratado de Não-Proliferação de Mísseis Intermediários

OMER MESSINGER/EPA

O que é que se sabe do que aconteceu?

Uma explosão numa zona de testes militares em Nenoksa, na região de Arkhangelsk, no noroeste da Rússia e junto Mar Branco, que dá acesso ao Ártico, matou pelo menos sete pessoas na passada quinta-feira, 8 de agosto.

Na sequência da explosão, a cidade de Severodvinsk, que fica a 29 quilómetros daquela zona de testes militares e é por isso a povoação que lhe fica mais próxima, registou níveis de radiação no ar 20 vezes acima dos níveis normais. Porém, desde então, as autoridades garantiram que esse pico de radioatividade já tinha passado e que a situação estava agora “normal”.

Eis que, esta terça-feira, as autoridades decidiram evacuar uma aldeia a cerca de 50 quilómetros de Severodvinsk, chamada Nyonoksa. Oficialmente, a justificação dada à agência estatal RIA-Novosti é a de que é necessário realizar atividades militares no local e de que a retirada dos habitantes nada tem a ver com a explosão. Os residentes devem abandonar a aldeia na manhã de quarta-feira, entre as 5h e as 7h da manhã (hora local), e serão levados de comboio.

Sobre o acidente em si, as autoridades russas foram parcas em explicações. A Rosatom, a agência nuclear russa, foi explicado que “os testes dos mísseis foram feitos a partir de uma plataforma offshore” e que “depois de os testes terem sido completados, o combustível do míssil entrou em combustão, seguindo-se uma explosão (…) devido a uma confluência de fatores, que acontecem com regularidade quando se testam novas tecnologias”. E o desfecho fatal: “Depois da explosão, vários funcionários foram atirados para o mar”.

Além desta explicação, tem imperado o silêncio.

Em 2018, Putin anunciou várias mísseis “invencíveis”. O que explodiu é um deles?

Em 2018, poucas semanas antes das eleições presidenciais de 18 de março, o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou aquilo que chamou de as novas armas “invencíveis” da Rússia, entre mísseis balísticos e também nucleares. A mensagem era tanto para dentro como para fora de fronteiras: a Rússia estava pronta para atacar se necessário. Especificamente para fora, em reação ao crescendo da NATO na Europa (como resposta à anexação ilegal da Crimeia em 2014) e aos EUA, Vladimir Putin disse ainda: “Antes, ninguém queria falar connosco. Ninguém nos ouvia. Agora, oiçam-nos”.

Entre os mísseis anunciados por Vladimir Putin, havia um desenhado para conter na sua estrutura um pequeno reator nuclear — o que já lhe mereceu a designação de “mini-Chernóbil voador” — com capacidade de longo alcance. Conforme designado pela Rússia — que em Moscovo é conhecido como 9M730 Burevestnik e nos países da NATO como SSC-X-9 Skyfall —, este míssil está preparado para voar a uma baixa altitude. Dessa forma, os escudos anti-míssil dos EUA, preparados apenas para repelir os mísseis intercontinentais que descrevam uma trajetória em arco — subindo ao espaço para depois descer sobre o seu alvo, ganhando velocidade na descida — de nada valeriam.

O que os (poucos) relatos que surgem das autoridades russas e também aquilo que as imagens de satélite recolhidas por especialistas em armas nucleares sediados nos EUA sugere é que, na passada quinta-feira, a Rússia tentou fazer um teste com o SSC-X-9 Skyfall — e, ao que parece, correu mal.

Foi essa a conclusão da investigação levada a cabo por vários especialistas do Middlebury Institute of International Studies, um dos mais prestigiados centros de estudo de armas nucleares nos EUA.

A equipa liderada pelo investigador Jeffrey Lewis anda há mais de um ano a investigar o caso das armas “invencíveis” anunciadas por Vladimir Putin. Desde então, e ainda antes do acidente de quinta-feira, aquela equipa já tinha descoberto, através de imagens de satélite nas imediações de Arkhangelsk abrigos que podiam estar a ser utilizados para cientistas nucleares desenvolverem o míssil e a sua plataforma de lançamento. Ao lado desse abrigo, estavam também contentores de carga. Dias depois dessa descoberta, toda aquela estrutura foi retirada do local. E, mais tarde, a equipa de Jeffrey Lewis voltou a avisar todo aquele aparato, mas desta vez em Nenoksa, onde se encontra a zona de testes russa.

A equipa Middlebury Institute of International Studies começou a desconfiar que os russos se preparavam para fazer um teste com um míssil nuclear quando avistaram, também em imagens satélite, o navio Serebryanka — cuja presença foi também confirmada pelo jornal Barents Observer. Este navio é propriedade da Rosatom e é utilizado para transportar cargas radioativas e também para recuperá-las, através da sua limpeza, em caso de acidentes.

O navio não só estava no local antes da explosão como ali permaneceu depois dela. “As evidências apontam para que tenha ocorrido qualquer tipo de acidente durante o teste do Skyfall ou de outro missíl movido a energia nuclear”, concluiu Jeffrey Lewis, num texto publicado na revista Foreign Policy. “A referência a radiação foi surpreendente, porque os testes com motores de mísseis não envolvem radiação. Bom, com uma exceção”, escreveu, algo sarcástico Jeffrey Lewis. Essa exceção, está bom de ver, será o míssil nuclear Skyfall ou outro semelhante.

Tudo isto pode parecer preocupante — e, quando se põe como cenário uma guerra nuclear, não há como não sê-lo. Porém, o que o acidente de quinta-feira sugere, tal como todas as pistas que dele sobram, é que a Rússia tem o míssil nuclear Skyfall bem imaginado — mas daí não passa.

Há risco ter acontecido uma mini-Chernóbil?

Se esse risco existe, as autoridades russas não o admitem — o que, só por si, é um eco da tragédia nuclear de Chernóbil de 1986, quando as autoridades demoraram três dias a admitir que tinha havido um acidente naquela central no Norte da Ucrânia. À altura, disseram que a situação era estável. Mikhail Gorbatchov viria a falar sobre o assunto 18 dias depois da explosão. Num discurso de 25 minutos à nação, prometeu: “O pior já passou”. Hoje sabe-se que não foi bem assim.

Apesar de o silêncio das autoridades russas ter algumas semelhanças, é precipitado e provavelmente errado pressupor que tenha havido um desastre nuclear com as proporções de Chernóbil em Arkhangelsk. O que não quer dizer que não tenha acontecido nada e que a Rússia não esteja preocupada com o que se passou.

No próprio dia da explosão, a autarquia de Severodvinsk chegou a publicar no seu site oficial um alerta onde referia que os níveis de radiação no ar dispararam 20 vezes acima dos valores habituais — informação que foi confirmada pela Greenpeace. Esse alerta foi tanto quanto bastou para a população de Severodvinsk e de outras localidades na região irem em peso às farmácias locais, para comprar várias cápsulas de iodo, utilizadas para contrariar os efeitos nocivos da radiação.

Porém, a informação que dava conta do pico de radioatividade foi retirada do site da autarquia de Severodvinsk e, a partir daí, a mensagem por parte das autoridades foi a de que tudo não passou de um episódio de “curta duração”.

“A radioatividade subiu para o dobro do que devia ser durante um período de menos de uma hora. Os nossos especialistas na área e os que estão noutras áreas fora da zona de testes não registaram vestígios de radioatividade desde então”, garantiu um porta-voz da RFNC-VNIIEF, o principal instituto de investigação nuclear da Rússia, em conferência de imprensa.

Desde a explosão da passada quinta-feira que, após anúncio do Ministério da Defesa russo, a Baía do Dvina ficou interdita a quaisquer acessos por parte de civis e também de navios comerciais, tornando aquela zona exclusiva às autoridades russas até ao dia 10 de setembro.

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