“Ajude-me.” Foram estas as palavras do capitão da marinha aposentado Rafael Acosta para o advogado, no dia em que apareceu no tribunal militar de cadeira de rodas e com sinais de que tinha sido sujeito a tortura. Acosta tinha sido detido há uma semana pelas secretas venezuelanas e acabou por morrer no mesmo dia em que compareceu em tribunal. A história é contada pelo The New York Times, num texto que denuncia que Maduro está a torturar membros dissidentes das suas próprias forças armadas para manter o poder. De acordo com uma organização não governamental com sede em Caracas e citada pelo jornal norte-americano, a a Coligação pelos Direitos Humanos e pela Democracia, há 217 oficiais ativos e aposentados detidos em prisões venezuelanas, incluindo 12 generais.

Voltando ao caso de Rafael Acosta, a sua autópsia — que o regime de Maduro não conseguiu manter oculta — confirmou que sofreu vários traumatismos e foi eletrocutado. Acabou por ser enterrado três semanas depois de ter aparecido em tribunal (a 10 de julho) e os cinco membros da sua família que foram autorizados a assistir ao enterro não puderam ver o corpo, coberto com um plástico castanho. O próprio governo admitiu ter exagerado no uso da força neste caso. Na sequência do caso foram mesmo detidos dois militares de baixa patente, mas a oposição e a família de Acosta acreditam que as ordens foram de Maduro.

Os militares continuam ao lado do líder venezuelano Nicólas Maduro, mas nos últimos dois anos já houve, contou também o New York Times, cinco tentativas para derrubar ou assassinar o presidente por parte de forças de segurança (que incluem as forças armadas).

O ex-chefe das secretas da Venezuela, que desertou em abril, Manuel Figueira afirmou que “os abusos contra oficiais militares cresceu porque eles representam uma ameaça real para o governo de Maduro”. Em julho, alta comissária para os Direitos Humanos das Nações Unidas, Michelle Bachelet, divulgou um relatório que acusava o governo venezuelano de sujeitar presos políticos com “choques elétricos, sufoco com sacos de plástico, simulação de afogamento, espancamentos, violência sexual, privação de água e comida, e exposição a temperaturas extremas”.

Hugo Chávez, o pai político de Maduro, afirmou em 2006 que o governo venezuelano tinha de ser “humanista” e recusar a tortura. Mas durante estes últimos anos de governação de Maduro têm-se sucedido os abusos contra militares dissidentes.