A história desta Supertaça Europeia começa a ser escrita em abril. Nessa altura, o Liverpool eliminava o FC Porto na Liga dos Campeões antes da fantástica reviravolta frente ao Barcelona em Anfield, ao passo que o Chelsea ultrapassava o Slavia Praga na antecâmara do triunfo nas grandes penalidades com o Eintracht Frankfurt nas meias da Liga Europa. Nesse mês, Stéphanie Frappart dirigia um encontro da Ligue 1 entre Amiens e Estrasburgo. Não era a primeira mulher a fazê-lo, porque em França já tinha havido Nelly Viennot. Mas constituiu um momento histórico para aquilo que se passaria esta quarta-feira.

Não existem assim tantas diferentes entre um jogo masculino ou feminino porque o futebol é igual. São as mesmas regras, pelo que farei o mesmo que faço num jogo feminino. Temos de demonstrar a nós mesmas que técnica e fisicamente estamos ao mesmo nível do que os homens. Não temos medo de tomar decisões erradas, estamos preparadas”, atirou a francesa de 35 anos, escolhida pela UEFA para a Supertaça Europeia em Istambul entre Liverpool e Chelsea. Com apenas 13, Frappart decidiu o que queria na vida, inscreveu-se numa escola para conhecer melhor as regras, jogou futebol também até aos 19 e a seguir dedicou-se a 100% à arbitragem. Em 2014, chegou ao segundo escalão gaulês – ouvindo, por exemplo, que era complicado uma mulher dirigir jogos de homens. Cinco anos depois, provou que não. E chegou ao estrelato por uma porta maior do que o esperado, após o reconhecimento recebido ao ser escolhida este verão para dirigir a final do Campeonato do Mundo feminino.

O jogo, esse, foi bom. Aliás, foi muito bom para agosto, altura em que as equipas estão ainda numa fase inicial de uma longa época com cerca de 60 jogos à espera caso alcancem as mesmas campanhas da última temporada. Teve golos, teve grandes defesas dos dois guarda-redes espanhóis (Kepa e Adrián), teve momentos individuais ao nível dos melhores. E teve, sobretudo, uma imagem completamente diferente daquilo que tinha saído da primeira jornada da Premier League: o dominador Liverpool que goleou o Norwich por 4-1 só conseguiu ser melhor no arranque da segunda parte com a entrada de Firmino, o dominado Chelsea que foi goleado por 4-0 em Old Trafford frente ao Manchester United (um resultado muito enganador, acrescente-se) teve uma grande prestação e poderia ter fechado o jogo no prolongamento. Se foi uma final histórica pela presença de Frappart como árbitra nomeada, também o foi por Adrián, o guarda-redes suplente dos reds contratado este verão ao West Ham que segurou a equipa no prolongamento antes de defender a grande penalidade decisiva de Abraham (2-2, 5-4).

O encontro começou com a francesa em destaque pelos protestos das duas equipas: primeiro do Chelsea, depois de um corte com a mão de Van Dijk num contra-ataque dos blues que foi sancionado sem a respetiva sanção; depois do Liverpool, após um remate de Sadio Mané cortado por Christensen com o braço para canto (embora se possa discutir a proximidade do remate do avançado senegalês). A partida começava de forma intensa, tão intensa que voltou a haver a já tradicional invasão de campo por um adepto – com a diferença de haver regras claras nesta altura por parte da UEFA de passar ao lado desse tipo de situações na transmissão televisiva, apesar de se ter percebido através de vídeos nas redes sociais que tropeçou sozinho a fugir dos stewards

No jogo jogado, havia muito equilíbrio e pouco daquilo que se pensava que haveria sempre: transições. Aliás, à exceção da melhor oportunidade do Liverpool na primeira parte quando Salah foi lançado em velocidade, entrou na área e rematou para defesa de Kepa, apenas de bola parada os campeões europeus foram conseguindo incomodar o Chelsea. Que, ao invés, tomou conta do meio-campo através do trio Kanté-Jorginho-Kovacic, quebrou a barreira de Van Dijk e companhia com constantes transições e foi levando perigo à baliza do também espanhol Adrián (Alisson, lesionado, vai parar cerca de dois meses), acertando mesmo na trave numa jogada onde Pedro Rodríguez ganhou espaço no lado esquerdo e disparou um míssil sem hipóteses.

Sadio Mané, em mais um canto onde acabou por ficar sozinho aproveitando os bloqueios feitos pelos centrais dos reds, podia e devia ter feito melhor de cabeça mas a tendência do jogo era cada vez mais dos blues, que terminaram a primeira parte com uma vantagem de 1-0 que até poderia ser maior: primeiro foi Giroud a inaugurar o marcador naquele que foi o seu quarto golo em finais após assistência de Pulisic (36′); depois foi o americano a receber na esquerda, a conduzir sozinho o lance de ataque até fletir para o meio e a rematar com sucesso num lance que já estava invalidado por fora de jogo na altura do passe inicial.

Jürgen Klopp tinha de fazer alguma coisa perante o colete de forças onde o Chelsea tinha colocado o Liverpool. Não havia espaço entre linhas, não havia vantagem na fase de construção, não havia profundidade no ataque, não havia saídas embaladas de Salah ou Mané como era habitual. E o alemão não demorou também a voltar à fórmula habitual, abdicando de Oxlade-Chamberlain para a entrada de Firmino. As próprias dinâmicas do encontro mudaram mas bastou o brasileiro estar em campo para voltar o verdadeiro campeão europeu, que chegou ao empate logo a abrir o segundo tempo com golo de Sadio Mané (48′).

Por alguns momentos, o Chelsea ainda conseguiu sair em transições e colocar em sentido a via única em que o Liverpool tinha transformado o jogo, sobretudo quando o ritmo da partida baixava, mas os reds tinham encontrado a sua zona de conforto em campo, com trocas de bola antes de acelerações que iam recuando as linhas defensivas dos londrinos. Depois, brilhou Kepa, com duas intervenções fantásticas num lance onde Van Dijk ainda acertou na trave no seguimento de um canto. E depois voltou a brilhar Kanté, a tomar conta do meio-campo como um ‘6’, como um ‘8’ e até como um ’10’ em determinados momentos, a agarrar na bola e a fintar meio mundo antes de deixar a bola para o (verdadeiro) fantasista Pedro Rodríguez. O jogo partiu, o perigo andou perto das duas áreas mas ninguém evitaria um prolongamento quando as forças já começavam a faltar.

O mínimo erro poderia decidir a final mas neste caso até bastou apenas o virtuosismo de um ataque que quando junta os três verdadeiros mosqueteiros encontra sempre uma quarta via para o golo: numa jogada iniciada em Sadio Mané, a desmarcar Firmino nas costas da defesa do Chelsea, o brasileiro cruzou atrasado e o senegalês atirou ao ângulo na passada sem hipóteses para Kepa (95′) antes da reação quase imediata dos blues, que depois de verem Adrián tirar o golo a Abraham chegaram ao empate com uma grande penalidade sofrida pelo jovem avançado e convertida por Jorginho (101′). As pernas já começavam a não responder à cabeça mas os londrinos ficaram próximos do 3-2 na segunda parte do prolongamento, com uma grande defesa de Adrián a remate de Mount antes de Pedro Rodríguez atirar a rasar o poste da baliza do Liverpool.