Um tribunal de Hong Kong proibiu a presença de manifestantes fora de “zonas designadas” no aeroporto da região administrativa especial chinesa, anunciou esta quarta-feira, em comunicado, a Autoridade Aeroportuária.

A ordem judicial temporária vai servir para impedir que “as pessoas impeçam ou interfiram de maneira voluntária e ilegal com a operação normal do aeroporto internacional de Hong Kong”, acrescentou a nota.

Dezenas de voos foram retomados esta manhã em Hong Kong, depois do segundo dia consecutivo de cancelamento das operações, que deixaram milhares de passageiros em terra.

Centenas de manifestantes concentraram-se na terça-feira, pelo quatro dia consecutivo no aeroporto internacional do território, acabando por dispersar já de madrugada e após a intervenção da polícia antimotim, que efetuou pelo menos uma detenção.

Os agentes dispararam gás pimenta sobre os manifestantes, tendo sido registado um ferido entre as forças de segurança, constatou a agência Lusa no local.

Polícia de Hong Kong confirma cinco detenções após confrontos no aeroporto

A polícia de Hong Kong confirmou esta quarta-feira a detenção de cinco pessoas na sequência dos confrontos registados entre as forças policiais e manifestantes pró-democracia no aeroporto internacional daquela região administrativa da China.

O porta-voz da polícia local, Mak Chin-ho, precisou que os cinco homens detidos, com idades compreendidas entre os 17 e os 28 anos, são acusados de promover uma manifestação ilegal.

Dois dos detidos são igualmente acusados de agredir um elemento das forças policiais e de possuir armas ofensivas, segundo a mesma fonte.

O porta-voz admitiu a possível detenção de mais suspeitos, incluindo ativistas que agrediram um polícia da unidade antimotim durante incidentes registados terça-feira à noite no aeroporto de Hong Kong.

A lei do território prevê sentenças de prisão perpétua para as pessoas que cometam atos violentos ou atos que possam interferir na segurança do tráfego aeroportuário e do aeroporto.

“A polícia promete a todos os cidadãos de Hong Kong que tomaremos as medidas para levar todos os culpados à justiça”, concluiu o porta-voz, em declarações à comunicação social.

A grande maioria dos manifestantes pró-democracia são estudantes universitários, cerca de metade são homens e está na faixa etária dos 20 anos e quase todos admitem que odeiam a polícia, segundo um estudo divulgado esta quarta-feira pelas agências internacionais que traça o perfil dos ativistas que têm estado envolvidos nestas últimas 10 semanas de protestos em Hong Kong.

O estudo, desenvolvido por investigadores de quatro universidades daquele território, envolveu entrevistas a mais de 6.680 pessoas ao longo de 12 ações de protesto de diferentes tipos, de grandes manifestações a iniciativas de menor dimensão.

Quando questionados sobre as razões que motivaram o seu envolvimento no movimento pró-democracia, 87% falaram da anulação da lei de extradição, 95% apontaram o seu desagrado com a atuação da polícia nas manifestações e 92% pediram a criação de uma comissão independente de inquérito sobre a violência policial.

Ministro dos Negócios Estrangeiros com nota apenas de “casos pontuais” de portugueses afetados em Hong Kong

O movimento de contestação em Hong Kong não causou até ao momento grandes perturbações a cidadãos portugueses, registando-se apenas “casos pontuais” de problemas com viagens, disse esta quarta-feira à Lusa o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva.

“Salvo casos muito pontuais não temos notícia de portugueses que estejam a ver as suas viagens ou a sua vida muito perturbada por estes acontecimentos”, disse o ministro.

“Os poucos casos de que temos conhecimento, e estamos a acompanhar, são algumas pessoas e um grupo, uma turma universitária, que esteve em Macau, ia agora de Hong Kong para Tóquio, e uma parte ainda não conseguiu partir”, precisou.

No contexto das manifestações pró-democracia que desde junho se realizam em Hong Kong, milhares de manifestantes invadiram na sexta-feira o aeroporto local, um dos mais movimentados do mundo, num protesto que aumentou e levou, na segunda e na terça-feira, à suspensão de serviços e ao cancelamento de centenas de voos com partida de Hong Kong.

“Mantemos as nossas recomendações […] que as pessoas tenham os cuidados de segurança habituais nestas circunstâncias, designadamente evitando os locais ou as áreas em que ocorrem confrontos, em que haja distúrbios ou em que haja repressão”, disse Santos Silva, que falava à Lusa à margem de uma entrevista sobre outro tema a divulgar em data futura.

Santos Silva disse ainda que apesar da proximidade com Hong Kong, “a situação em Macau é muito tranquila”.

O ministro evocou por outro lado a posição da diplomacia da União Europeia (UE), reiterando o apelo “a todas as partes” para que “não agravem a tensão e se abstenham de ações violentas”, “sejam eles as forças policiais ou os manifestantes”.

“É muito importante que a violência não progrida e é muito importante que a questão política e legal que está em causa em Hong Kong neste momento seja resolvida por vias políticas e legais e não pela violência”, afirmou.

Os protestos em Hong Kong duram há mais de dois meses, têm sido marcados por violentos confrontos entre manifestantes e a polícia, com recentes dados a apontarem para um impacto económico na indústria de viagens na ex-colónia britânica.

O clima de contestação social em Hong Kong resulta da apresentação de uma proposta de alteração à lei da extradição, que permitiria ao governo e aos tribunais a extradição de suspeitos de crimes para jurisdições sem acordos prévios, como é o caso da China continental.

A proposta foi, entretanto, suspensa, mas as manifestações generalizaram-se e denunciam agora uma “erosão das liberdades” na antiga colónia britânica.