Ana Rita Cavaco não tem dúvidas sobre as razões da sindicância feita à Ordem dos Enfermeiros: “Estamos a falar de inspetores que, para além de mentirem, são desonestos. E que estão a soldo da ministra”. A bastonária da Ordem esteve no programa “Direto ao Assunto” da Rádio Observador, na manhã desta sexta-feira, onde falou sobre a investigação de que é alvo e recordou também os problemas que enfrentam os enfermeiros.

A bastonária acusa os inspetores do Ministério da Saúde de falta de independência face ao Governo e relembra: “Quem tem uma condenação do Tribunal de Contas por infração financeira é a senhora inspetora geral da Saúde, a Doutora Leonor Furtado”.

As greves cirúrgicas, que levaram a ministra da Saúde a ordenar a realização de uma sindicância, criaram uma complexa discussão no âmbito público e profissional, mas não o suficiente para fazer Ana Rita Cavaco duvidar da postura que adotou durante o ano passado e o início deste ano: Entende que “não passou dos limites” enquanto bastonária e que se limitou a “cumprir o estatuto que diz ‘fazer a defesa da profissão e dos interesses da profissão’ “.

Apesar de não eliminar a possibilidade de vir a ser destituída, considera que a greve valeu a pena: “Tranquiliza-nos que essa decisão (da destituição) nunca poderá ser tomada pelo Governo nem pelo Ministério da Saúde, embora nós achemos que a senhora ministra gostasse muito”. Ministra com quem, garante, não se senta à mesa “porque ela não quer”. “Praticamente todos os dias, desde que ela tomou posse, o meu gabinete solicita uma audiência, que já devia ter existido — tivemos uma primeira reunião e depois nunca mais tivemos nenhuma”.

Sobre a gestão de capitais do Ministério da Saúde, a bastonária diz estar “incomodada” com o facto de “quase todos os hospitais” pagarem “milhares de euros” a advogados em processos judiciais contra enfermeiros.

Em 2018, o número de enfermeiros a emigrar voltou a atingir valores históricos: “Nunca tínhamos tido tantos enfermeiros a emigrar”, garante. Fatores como a desmotivação, os baixos salários ou a não evolução na carreira fazem com que o Serviço Nacional de Saúde tenha um rácio de 4,1 a 4,2 enfermeiros por mil habitantes — um valor muito a baixo da média da OCDE — que regista 9,2 a 9,3 profissionais por mil habitantes.