Aos 73 anos, Silas Chou é um peso pesado da indústria têxtil, com uma fortuna avaliada em 2,7 mil milhões de dólares, o que corresponde a quase 2.500 milhões de euros. Mas mais do que uma força que se move, em exclusivo, nos bastidores, o magnata de Hong Kong é, na verdade, uma figura de proa do mundo da moda. Já posou na passadeira vermelha da Met Gala, é próximo de Anna Wintour, é visto nas primeiras filas de desfiles e em after parties e a sua família — é casado e tem duas filhas — atrai a curiosidade da imprensa cor-de-rosa.

No seu histórico de investimentos, ressalta a compra da Tommy Hilfiger, através da Sportswear Holdings Limited, empresa partilhada com o empresário canadiano Lawrence Stroll, em 1989. Chou tornou-se o maior acionista da empresa, tendo mesmo chegado a ocupar o cargo de presidente. O investimento é considerado até hoje uma tábua de salvação para a marca do designer norte-americano. Em 2006, vendeu a sua parte por 1.600 milhões de dólares, cerca de 1.400 milhões de euros.

Em setembro 2010, Silas Chou e Tommy Hilfiger © PATRICK MCMULLAN/Patrick McMullan via Getty Images

Em 2003, foi a vez da Michael Kors, numa altura em que a empresa atravessava graves dificuldades financeiras. Chou e Stroll adquiriram uma porção maioritária da marca, no valor de 100 milhões de dólares, quase 90 milhões de euros. Em junho do ano passado, desfez-se da participação que ainda tinha na marca norte-americana. A venda terá rendido 500 milhões de dólares, quase 450 milhões de euros. Nos últimos anos, também investiu na Pepe Jeans e na Karl Lagerfeld.

Contudo, a última jogada do milionário foi, de longe, a mais surpreendente. Numa altura em que meio mundo especula sobre um possível rebentar da bolha dos influenciadores digitais, Chou investiu dez milhões de dólares, quase nove milhões de euros, no projeto de uma blogger norte-americana, Arielle Charnas, numa ronda de financiamento que contou com outros intervenientes. Jennifer Fleiss, uma das investidoras em questão, disse ao Business of Fashion que se trata de um dos maiores investimentos num influenciador, até hoje.

A blogger e influenciadora Arielle Charnas em abril deste ano © Jared Siskin/Patrick McMullan via Getty Images

Com 1,2 milhões de seguidores no Instagram, Charnas limita-se a seguir uma tendência global que tem estado a redefinir o papel de um influenciador — da divulgação de outras marcas, um pouco por todo o mundo, eles têm estado a tirar partido das suas audiências para se lançarem em projetos próprios. Neste caso, a marca existe há dez anos, chama-se Something Navy e, com esta injeção milionária, estima-se que já possa estar avaliada em 45 milhões de dólares, quase 40,5 milhões de euros, de acordo com o Business of Fashion.

Aos 32 anos, Arielle Charnas poderá ter chamado a atenção do empresário chinês após uma parceria com o gigante norte-americano da moda de luxo Nordstrom, que chegou às lojas em setembro do ano passado. Pete Nordstrom, o presidente da empresa, chegou mesmo a dizer que a linha tinha sido “o lançamento mais bem sucedido da marca”, depois de as vendas terem atingido os quatro milhões de dólares (cerca de 3,6 milhões de euros) num único dia. Contudo, em 2017, Charnas já tinha colaborado com a Treasure & Bond, a marca própria da Nordstrom.

Em 2015, com Silas Chou acompanha Anna Wintour a uma festa da Michael Kors © Andrew Toth/Getty Images for Michael Kors

No comando da Something Navy, ao lado da influenciadora, estará Matt Scanlan, o recém-contratado CEO e ainda fundador da Naadam, uma marca de peças em caxemira. O arranque deste novo capítulo, possibilidade pelo senhor Chou, será feito com uma linha de vestuário vendida online, que, eventualmente, irá expandir-se para acessórios, decoração, roupa de criança e produtos de beleza. Nos próximos meses, espera-se a contratação de novos funcionários, entre 12 e 20. Ao mesmo tempo, a conta de Instagram da fundadora continuará a ser o principal canal de comunicação.

Do lado do grande investidor, também há muito experiência no ramo. Silas Chou nasceu numa família ligada à indústria têxtil. O pai, Chao Kuang Piu, foi o fundador da South Ocean Knitters, um dos maiores produtores e exportadores de malhas de Hong Kong. Nos anos 80, o clã Chou já estava ligado a Tommy Hilfiger. O investimento feito em 1989, bem como o incentivo à internacionalização, tornou possível a chegada da marca à bolsa de Nova Iorque, em 1992. Atualmente, Veronica e Vivian Chou, as filhas do milionário, estão envolvidas nos negócios da família. A irmã, Susana Chou, foi presidente da Assembleia Legislativa de Macau, entre 1999 e 2009.