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Estados Unidos da América

Trump pediu para que Omar e Tlaib não entrassem em Israel e Netanyahu acedeu. Mas afinal uma delas vai mesmo ao país

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Trump pediu publicamente que congressistas conhecidas por posições críticas de Israel fossem proibidas de lá entrar. Israel acedeu, mas acabou por permitir a Tlaib que vá visitar a avó — ela recusa.

Ilhan Omar (esq.) e Rashida Tlaib (direita) defendem o movimento BDS de boicote a Israel

AFP/Getty Images

O Governo israelita decidiu proibir a entrada no país de duas congressistas norte-americanas, conhecidas pelas suas posições críticas de Israel, depois de ser publicamente pressionado pelo Presidente Donald Trump.

As democratas Ilhan Omar (eleita pelo Minnesota) e Rashida Tlaib (pelo Michigan) iriam fazer parte de uma viagem a Israel — que incluía uma visita à Cisjordânia — este fim-de-semana. Até que, esta quinta-feira, o Presidente norte-americano expressou publicamente a sua vontade de que Israel proibísse a entrada às duas congressistas: “Seria um sinal de grande fraqueza se Israel permitisse que a congressista Omar e a congressista Tlaib visitassem [o país]”, escreveu no Twitter. “Elas odeiam Israel e todo o povo judeu e não há nada que possa ser dito ou feito que as faça mudar de ideias. O Minnesota e o Michigan vão ter dificuldades em voltar a elegê-las. São uma desgraça!”

Pouco depois do tweet do Presidente, a vice-ministra dos Negócios Estrangeiros israelita, Tzipo Hotovely, confirmou num comunicado que o país não iria permitir a entrada a Omar e Tlaib. E, mais tarde, o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu — que enfrenta uma eleição em setembro — justificou a decisão dizendo que “o plano destas duas congressistas é prejudicar Israel”.

A decisão sustenta-se na lei, aprovada em 2017, que proíbe a entrada no país de qualquer indivíduo que “faça apelos ao boicote a Israel”. Omar e Tlaib são conhecidas defensoras do movimento BDS, sigla para Boycott, Divestment, Sanctions (Boicote, Desinvestimento, Sanções), que defende várias formas de boicote a Israel como forma de pressão para alterar a política dos israelitas face à Palestina.

Em julho, o embaixador israelita nos Estados Unidos Ron Dermer assumiu publicamente ao jornal Times of Israel que Omar e Tlaib iriam poder entrar em Israel “por respeito pelo Congresso dos EUA e pela grande aliança entre Israel e a América”. No início desta semana, o site Axios deu conta de que o Presidente Trump estaria a tentar convencer os responsáveis israelitas a barrarem a entrada às congressistas. Também a agência Reuters ouviu uma fonte que esteve presente nas reuniões e que apontou no mesmo sentido: “Numa conversa há duas semanas todos os responsáveis eram favoráveis a que elas pudessem entrar mas, depois da pressão de Trump, recuaram”, diz.

Oficialmente, o embaixador Dermer nega: “Não fomos alvos de nenhuma pressão por parte da administração Trump e isto é a uma decisão soberana de Israel.” Mas, ao ser questionado pelos jornalistas, o chefe de Estado norte-americano admitiu ter “falado com pessoas” em privado sobre o tema, antes de publicar aquele tweet, como conta o New York Times.

Rashida Tlaib afinal foi autorizada a entrar em Israel para ver a avó. Mas agora recusa-se a ir

Se Ilhan Omar está claramente proibida de entrar no país, a situação com Rashida Tlaib, primeira congressisa norte-americana de origem palestiniana — tornou-se mais complexa. Inicialmente impedida de entrar, como anunciou o próprio Netanyahu, acabou por ser autorizada a visitar Israel “por razões humanitárias”, a fim de visitar a avó, como tinha previsto inicialmente fazer no final da viagem de trabalho.

Depois do anúncio oficial da proibição de entrada, Tlaib escreveu uma carta a pedir entrada no país para ver a avó: “Esta pode ser a minha última oportunidade de a ver. Respeitarei quaisquer restrições e não irei promover boicotes contra Israel durante a minha visita”, terá escrito Tlaib na carta enviada às autoridades israelitas, citada pelo site israelita Ynet. Esta sexta-feira, Israel confirmou que irá permitir essa entrada por “razões humanitárias”.

Mas eis que, na sequência desse anúncio, a própria Rashida Tlaib diz que afinal não irá a Israel. No Twitter, Tlaib afirma que não não se sente confortável em ir ao país “sob estes condições opressivas”. “O Governo de Israel usou o meu amor e o meu desejo de ver a minha avó para me silenciar e só o tornou possível se assinasse uma carta — o que reflete o quão anti-democráticos e assustados eles são e estão”, escreveu a congressista num comunicado, citado pelo Washington Post.

A família de Tlaib que atualmente vive na Cisjordânia aplaudiu a decisão da congressista. “Isto mostra como Israel antagoniza todos os indivíduos ou organizações que apoiem os direitos inalienáveis do povo palestiniano”, declararam num comunicado enviado à CNN a avó de Tlaib, Muftiya Tlaib, e o seu tio, Ghassan Tlaib.

Reações unânimes de condenação da decisão nos EUA

Em reação ao caso, Ilhan Omar falou numa “afronta”: “A ironia de ser ‘a única democracia’ no Médio Oriente a tomar esta decisão está no facto de isto ser um insulto aos valores democráticos e uma resposta arrepiante a uma visita de responsáveis governativos de um país aliado”, escreveu a congressista do Minnesota no Twitter.

O Partido Democrata uniu-se em torno de Omar e de Tlaib. O senador Chuck Schumer, de origem judia e um dos democratas mais pró-Israel do país, declarou que a decisão “irá apenas prejudicar a relação entre os EUA e Israel”. “Impedir a entrar a membros do Congresso dos Estados Unidos é um sinal de fraqueza, não de força”, declarou.

Mas também membros do Partido Republicano se pronunciaram contra a decisão. Foi o caso do antigo candidato presidencial e adversário de Trump nas primárias, Marco Rubio.

Discordo a 100% das congressistas Tlaib e Omar sobre Israel e sou o autor da proposta de lei contra o movimento BDS que foi aprovada no Senado. Mas impedir que entrem em Israel é um erro”, escreveu Rubio. “Serem bloqueadas eram o que elas queriam desde o início, porque isso permite-lhes aumentar os seus ataques contra o Estado Judeu.”

Mais surpreendente foi a reação do Comité Israelo-Americano de Assuntos Públicos (AIPAC), um conhecido grupo de lobby pró-Israel nos Estados Unidos que tem apoiado Trump em muitas das suas decisões relacionadas com Israel. “Discordamos do apoio dado pelas congressistas Omar e Tlaib ao movimento anti-Israel e anti-paz BDS, bem como dos apelos da congressista Tlaib pela solução [para o conflito israelo-palestiniano] de um só Estado”, escreveu o grupo no Twitter. Mas, de seguida, acrescentou: “Também acreditamos que cada membro do Congresso deve poder visitar e experienciar a nossa aliada democrática Israel, em primeira mão.”

A declaração da AIPAC é particularmente relevante já que a própria organização criticou várias vezes as duas congressistas pelas suas posições relativamente a Israel. Omar esteve inclusivamente debaixo de fogo dentro do seu próprio partido, que não gostou de algumas das declarações da congressista contra grupos como a AIPAC. Omar acusou os lobistas de estarem a promover a “lealdade [dos EUA] a um país estrangeiro”, como relembra a CNN. Omar chegou a pedir desculpas por ter dito que o apoio a Israel “tem tudo a ver com os Benjamins, baby” — uma referência às notas de 100 dólares, com o rosto de Benjamin Franklin, numa insinuação de que tudo se trataria de dinheiro.

Ilhan Omar e Rashida Tlaib, as duas primeiras mulheres muçulmanas a serem eleitas para o Congresso norte-americano, têm sido alvo de vários ataques por parte do Presidente Trump. Em julho, o chefe de Estado indicou às duas congressistas e a outras duas representantes (Alexandra Ocasio-Cortez e Ayanna Pressley) que “voltassem para os lugares de onde vieram”. As quatro mulheres, que formam um grupo informalmente apelidado de “Esquadrão” dentro do Congresso devido às suas políticas mais à esquerda dentro do Partido Democrata, são todas não-brancas. Todas são cidadãs dos Estados Unidos: três nasceram nos Estados Unidos e a quarta (Omar) é refugiada da Somália naturalizada norte-americana.

Notícia corrigida às 14h. Benjamin Netanyahu não é Presidente israelita, mas sim primeiro-ministro

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