Em abril, já na reta final da temporada passada, Kevin De Bruyne escreveu um longo texto para o site The Players’ Tribune. Os inúmeros parágrafos, todos na primeira pessoa, tinham como título “Let Me Talk”, deixem-me falar, em português. O médio belga explicava então que é muito tímido, que prefere ficar calado e assistir com um sorriso à alegria e animação constantes de Gabriel Jesus, Bernardo Silva e Sergio Aguero, apenas três dos muitos latinos que integram o plantel do Manchester City. No texto, porém, De Bruyne pedia para falar: falar sobre as vitórias, falar sobre o amigo Sterling, falar sobre a importância de Guardiola na equipa e falar sobre a dificuldade imposta por uma lesão.

A data de publicação do texto não foi ingénua. No final da temporada passada, De Bruyne estava a terminar um ano de altos e baixos que começou com uma lesão grave logo em agosto que não o afastou dos relvados durante muito tempo mas afetou a regularidade do médio. A final da Taça de Inglaterra, onde saltou do banco para marcar um golo e oferecer outros dois, serviu como espanta-espíritos e espanta-fantasmas, numa espécie de ponto final numa fase menos boa que afastou da Premier League, do Manchester City e do futebol um dos melhores médios dos últimos anos. Depois de já ter sido titular no jogo da primeira jornada da liga inglesa, em que os citizens golearam o West Ham (0-5), De Bruyne repetia a titularidade este sábado na receção ao Tottenham e era figura de proa no primeiro encontro da equipa de Guardiola com um dos restantes big six.

Além de De Bruyne, o meio campo do Manchester City contava com Gundogan e Rodri, ficando Silva e Fernandinho no banco, e Bernardo Silva regressava de forma natural ao onze inicial depois de ter falhado a jornada inaugural da Premier League devido a uma lesão muscular. João Cancelo, que via Kyle Walker manter a titularidade na direita da defesa, voltava a adiar a estreia pelo novo clube. Do outro lado, Mauricio Pochettino entrava no Etihad depois de uma vitória convincente perante o Aston Villa na primeira jornada (1-3) e lançava o reforço Ndombele numa fase mais recuada do setor intermédio, deixando a também cara nova Lo Celso no banco de suplentes.

O conjunto orientado por Guardiola entrou forte no jogo, chegando ao golo inaugural logo aos 20 minutos: De Bruyne, com um cruzamento digno de uma jogada de PlayStation, descobriu Sterling ao segundo poste da baliza de Lloris e o avançado inglês, que na primeira jornada assinou um hat-trick, voltou a marcar. O Tottenham mostrava muitas dificuldades em sair para o ataque de forma apoiada, com Ndombele muito abaixo da qualidade que mostrou no Lyon e Eriksen com pouco espaço para fazer a diferença e procurar Harry Kane, que estava sempre muito sozinho na frente de ataque dos spurs. Ainda assim, e face a uma quebra do rendimento do Manchester City logo depois do golo de Sterling, Lamela conseguiu empatar a partida totalmente contra o sentido das ocorrências (22′) e o jogo ficou totalmente em aberto, ainda que o Tottenham estivesse a ser totalmente manobrado por um Manchester City confortável, apostado em vencer e totalmente concentrado.

O previsível segundo golo dos citizens surgiu através de mais uma enorme assistência de De Bruyne, que surgiu tombado no corredor esquerdo e cruzou para o desvio de Aguero (35′). Na ida para o intervalo, adivinhavam-se mexidas por parte de Pochettino e o Tottenham precisava de jogar mais, criar mais e fazer muito mais para poder sequer discutir o resultado. No regresso para a segunda parte, a verdade é que os spurs estavam ainda mais presos no setor defensivo e iam cometendo inúmeros erros de posicionamento e marcação, o que abriu espaços para oportunidades de De Bruyne e Aguero que Lloris soube parar. Aos 56 minutos, face às visíveis dificuldades da equipa, Pochettino decidiu lançar Lucas Moura e mudar o sistema tático, retirando Winks e passando a atuar em 4x3x3. Mas colocar Lucas Moura em campo, mais do que ter mais um avançado e mais uma solução ofensiva, é colocar em campo um homem que adora estar presente nos momentos importantes.

Depois de ser crucial na caminhada do Tottenham até à final da Liga dos Campeões da temporada passada, tantos nos quartos de final, precisamente com o Manchester City, como na reviravolta incrível das meias-finais com o Ajax, Lucas Moura empatou a partida apenas segundos depois de substituir Winks, ao responder de cabeça a um cruzamento de Lamela (56′). Até ao final, o Manchester City manteve a enorme superioridade que foi tendo ao longo do jogo e o Tottenham limitava-se a sair apenas em contra-ataque, valorizando de forma óbvia o empate: Gabriel Jesus ainda marcou, já no período de descontos, mas o lance foi anulado pelo VAR por mão na bola de Laporte. Os spurs foram a Manchester impor o primeiro empate ao City de Guardiola, que perde dois pontos numa jornada em que Arsenal e Liverpool já ganharam, e Lucas Moura voltou a explicar que é o homem certo a chamar quando é preciso resolver um quebra-cabeças.