Nome de código: Rafa. Função: Abre-latas (a crónica do Belenenses SAD-Benfica)

O Benfica encontrou um Belenenses SAD apostado em roubar pontos ao campeão mas saiu do Jamor com a vitória (0-2). Rafa, aliado ao bom momento de Pizzi, é o desbloqueador crucial para Bruno Lage.

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O internacional português inaugurou o marcador já na segunda parte

NurPhoto via Getty Images

O internacional português inaugurou o marcador já na segunda parte

NurPhoto via Getty Images

Tem sido quase uma constante desde que Bruno Lage chegou ao comando técnico da equipa principal do Benfica. Entre as marés agitadas de Alvalade e a instabilidade que de tempos a tempos afeta o FC Porto, os encarnados permanecem, há cerca de sete meses, a navegar em águas tranquilas. Numa semana em que o Sporting procurou recuperar do empate na Madeira na primeira jornada da Liga, em que Marcel Keizer foi criticado por falar em “seis minutos e meio” de qualidade dos leões e em que ainda houve tempo para ver Bas Dost partir rumo ao Eintracht Frankfurt, o FC Porto foi eliminado da Liga dos Campeões pelo Krasnodar, Sérgio Conceição garantiu que o clube será “o que o presidente quiser” e as feridas do conflito da pré-temporada com Danilo Pereira parecem ainda não estar saradas. Pelo meio, o Benfica goleou o P. Ferreira perante uma Luz praticamente cheia, saltou para o pote 2 da Champions e entrava este sábado no jogo com o Belenenses SAD com os níveis de motivação em valores inequivocamente altos.

O adversário, porém, era uma espécie de calcanhar de Aquiles. No meio de uma segunda volta praticamente perfeita do Benfica na temporada passada, orquestrada pelo efeito Lage, os encarnados só escorregaram em casa com o Belenenses SAD, num empate a duas bolas que borrou o registo brilhante do treinador e da equipa que acabou por ser campeã nacional. Este sábado, na segunda jornada da Liga, Bruno Lage procurava vencer o único adversário que ainda não tinha conseguido bater e deslocava-se ao Jamor em busca de mais três pontos que ajudem a cavar o já existente fosso para FC Porto e Sporting. E para isso, nada melhor do que seguir as regras e as lições dos antigos: em equipa que ganha não se mexe.

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Ficha de jogo

Belenenses SAD-Benfica, 0-2

2.ª jornada da Primeira Liga

Estádio do Jamor, em Lisboa

Árbitro: Fábio Veríssimo (AF Leiria)

Belenenses SAD: Hervé Koffi, Diogo Calila, Eduardo Kau (Faraj, 79′), Gonçalo Silva, Nuno Coelho, Francisco Varela (Chima, 56′), André Santos, Jonatan Lucca, Matija Ljujic, Licá, Kikas (Vélez, 63′)

Suplentes não utilizados: Mika, Show, André Sousa, Dieguinho

Treinador: Silas

Benfica: Vlachodimos, Nuno Tavares, Rúben Dias, Ferro, Grimaldo, Florentino, Samaris, Pizzi, Rafa, Raúl De Tomás (Chiquinho, 74′), Seferovic

Suplentes não utilizados: Ivan Zlobin, João Ferreira, Jardel, Adel Taarabt, Caio Lucas, Carlos Vinícius

Treinador: Bruno Lage

Golos: Rafa (58′), Pizzi (90+1′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Lucca (3′), Eduardo Kau (35′), Kikas (50′), Ljujic (65′), André Santos (68′), Licá (83′)

Depois de golear o P. Ferreira na jornada inaugural, Bruno Lage não fez qualquer alteração o onze inicial e voltou a lançar Nuno Tavares na direita da defesa, Samaris no meio-campo e a dupla Seferovic e Raúl de Tomás na frente de ataque, apoiados por Pizzi e Rafa junto aos corredores. Do outro lado, Silas fazia duas alterações à equipa que no primeiro dia da nova temporada empatou sem golos em Portimão e trocava André Sousa e Dieguinho por Ljujic e Eduardo Kau. O agora treinador dos azuis e antigo símbolo do clube lisboeta volta a liderar um projeto ambicioso, que surpreendeu na época passada e causou dificuldades a Benfica, FC Porto e Sporting, e recebia este sábado os encarnados sem qualquer necessidade de se fechar no próprio meio-campo defensivo e com todas as ferramentas para procurar outro resultado que não a derrota.

O Benfica entrou no jogo à imagem e semelhança de Bruno Lage, à procura do primeiro golo e sem as ressalvas que havia demonstrado tanto com o Sporting na Supertaça como com o P. Ferreira na primeira jornada. Logo aos seis minutos, Raúl de Tomás ficou muito perto do golo depois de um passe de Pizzi e o marcador só não mexeu porque Koffi, o guarda-redes do Belenenses SAD, mostrou estar bem atento. Os primeiros 20 minutos de jogo trouxeram uma partida aberta, com o Benfica a manter um controlo aparente das ocorrências mas com o conjunto de Silas a permanecer certinho e atento, a procurar o equilíbrio e a não permitir demasiados espaços. O principal dinamizador dos encarnados era Rafa, que desenhava movimentos das alas para a faixa central e implementava uma velocidade no jogo que não encontrava paralelo e fazia a diferença: o internacional português assistiu Raúl de Tomás, que atirou de fora de área e ficou muito perto de inaugurar o marcador (21′), sofreu uma falta em posição frontal para a baliza de Kaffi que originou um livre perigoso de Grimaldo (34′) e ainda tentou marcar de calcanhar, num lance de elevada nota artística que deixou Bruno Lage a murmurar palavras menos bonitas junto à linha técnica (40′).

Ainda assim, e face à confiança e à certeza dos jogadores do Belenenses SAD, o Benfica estava a perder muitas bolas no primeiro terço do terreno e na zona de construção e tinha dificuldades em assentar a primeira linha criativa logo no início do meio-campo adversário. A dada altura, e apesar de os encarnados serem demolidores no que toca aos duelos, era a equipa de Silas que liderava em passes realizados, na eficácia desses mesmos passes e ainda na posse de bola, colocando algum gelo na partida principalmente depois de um período em que Rafa teve demasiada liberdade nos espaços à volta da baliza de Kaffi. Na ida para o intervalo, aquele que foi praticamente o último lance do primeiro tempo era o espelho do que se ia passando dentro de campo: Kikas ganhou a bola em zona proibida, Rúben Dias parecia ter o lance controlado mas escorregou, o avançado ficou isolado e atirou para uma boa defesa de Vlachodimos. O Benfica não marcava, não estava totalmente tranquilo e tremia em setores mais recuados. Ainda assim, estava subentendida uma espécie de ideia de que bastava aos encarnados marcar um golo para abrir uma brecha para um resultado positivo e confortável.

No regresso para a segunda parte, o Benfica mostrava-se apostado em reduzir de forma progressiva e consistente o espaço permitido ao Belenenses SAD, partindo sempre a partir de Florentino ou para a faixa central, onde Rafa e Pizzi apareciam em terrenos interiores para depois lateralizar com a bola controlada, ou diretamente para as alas, onde os mesmos dois jogadores procuravam cruzar para a área em busca de Seferovic ou Raúl de Tomás. Com o passar dos minutos, o Benfica foi conquistando metros ao Belenenses SAD, que tinha cada vez mais dificuldades em conter as investidas ofensivas dos encarnados. Ainda assim, a equipa de Bruno Lage não estava a conseguir criar oportunidades dignas desse nome — as principais, uma bola no poste de Seferovic e um cabeceamento de Pizzi, acabaram anuladas por fora de jogo — e parecia procurar espaços onde eles não existiam, com Rafa e Pizzi a terem dificuldades em encontrar linhas de passe. O conjunto de Silas, ainda que fechado no próprio meio-campo, encerrava muito bem as linhas e estava no jogo de forma confiante, a bloquear os ímpetos criativos da linha ofensiva encarnada.

Até que o desbloqueador percebeu o que tinha de fazer. Num momento que parecia condenado a terminar tal e qual como tinham terminado vários lances semelhantes desde o intervalo, Rafa ficou com a bola no meio de um emaranhado de jogadores no interior da grande área de Koffi, puxou para dentro e atirou em arco para inaugurar o marcador, num golo de bonito efeito que acabou por recompensar a exibição esforçada do internacional português, destacadamente o melhor do Benfica este sábado no Jamor (58′). Silas reagiu com as entradas de Chima e Vélez e, ao contrário daquilo que se antecipava, o Benfica não foi capaz de empreender o habitual período demolidor que se segue ao primeiro golo, acabando por privilegiar a manutenção da vantagem e recuando as linhas para evitar transições rápidas por parte do Belenenses SAD.

Bruno Lage tirou Raúl de Tomás, que não obstante todo o trabalho sem bola que empreende dentro de área para criar espaços continua sem marcar, e lançou Chiquinho, numa altura em que o Belenenses SAD crescia no jogo e via como palpável a chegada ao empate. Licá, que foi durante toda a partida o elemento mais perigoso dos azuis e uma autêntica seta apontada à baliza de Vlachodimos, ficou perto do golo com um remate tenso depois de uma arrancada de Vélez na direita (77′) e o próprio Vélez ia aproveitando um erro colossal de Nuno Tavares, que ofereceu de mão beijada o empate ao Belenenses SAD e quase fez todos os adeptos do Benfica esquecerem o enorme golo que marcou na semana passada contra o P. Ferreira (79′). Foi nesta fase de maior motivação da equipa de Silas e de algum desnorteio do setor mais recuado dos encarnados, tanto pelo jogo pouco conseguido de Nuno Tavares como pelo espaço que Rúben Dias deixava sempre nas costas, que Seferovic aumentou a vantagem depois de uma boa jogada coletiva e pareceu encerrar as contas (84′). O lance, porém, foi anulado pelo VAR por fora de jogo do avançado suíço e o segundo golo do Benfica só surgiu já no primeiro minuto do período de descontos, através de um remate rasteiro de Pizzi e já depois da entrada de Chiquinho, que parece entrar cada vez melhor nas dinâmicas da equipa.

[Carregue nas imagens para ver os melhores momentos do Belenenses SAD-Benfica:]

O Benfica foi mais eficaz do que o Belenenses SAD e soube entrar bem na segunda parte para não prolongar por demasiado tempo um nulo que podia tornar-se perigoso. Ainda assim, Silas voltou a causar muitas dificuldades a uma das três principais equipas da Primeira Liga e a verdade é que os azuis andaram perto do empate e podiam ter roubado dois pontos aos encarnados caso Licá e Vélez tivessem aproveitado as respetivas oportunidades. À parte isso, Bruno Lage alcançou o cromo que lhe faltava na caderneta e venceu o único adversário que ainda não tinha conseguido bater e somou duas vitórias em duas jornadas, ficando agora à espera de saber o que fazem FC Porto e Sporting. Por tudo isso, o treinador pode agradecer a Rafa que — aliado ao melhor arranque de época de sempre de Pizzi — foi o grande impulsionador da vitória, trouxe o jogo das alas para o corredor central e procurou sempre as linhas de passe que o adversário ia bloqueando.

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