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Rio de Janeiro. Sequestrador abatido estava com surto psicótico

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Homem armado entrou num autocarro, fazendo reféns numa ponte do Rio de Janeiro durante cerca de 3,5 horas. Foi abatido quando saiu do veículo. Psicóloga diz que jovem estava com "surto psicótico".

O sequestrador pôs o corpo fora do autocarro durante uns segundos

Reprodução/ TV Globo

O homem que sequestrou esta terça-feira um autocarro com reféns na ponte que faz a ligação entre Niterói e o Rio de Janeir, no Brasil, foi abatido por um atirador de elite, confirmou o porta-voz da Polícia Militar, Coronel Mauro Fliess, à Globo News. A Polícia Rodoviária Federal e Polícia Militar tinha cercado o autocarro, parado no meio da ponte e com 37 reféns — seis foram libertados ainda durante o sequestro.

Por volta de 9 horas (hora local) — ao fim de cerca de 3,5 horas de negociações —, foram ouvidos pelos menos seis disparos, seguidos de aplausos. Um atirador de elite comemorou sobre um carro dos bombeiros. O sequestrador de 20 anos saiu do autocarro de cara tapada, lançou uma mochila com uma das mãos e fez um sinal com a mesma mão. Quando já se preparava para voltar a entrar na viatura foi atingido e morto por um dos atiradores que se encontravam colocados em cima dos camiões dos bombeiros que se encontravam no local.

Mas esta não foi a primeira vez que o sequestrador saía do autocarro. Pouco depois de o autocarro se ter imobilizado atravessado na ponte, o homem saiu do veículo e regou a área à volta da com gasolina. Por volta das 6h30, um homem com uma máscara na cara lançou um cocktail molotov para fora do autocarro. Assume-se que seria uma ameaça do sequestrador que prometeu pegar fogo à viatura.

Mais tarde, o homem de chapéu, máscara e t-shirt branca voltou a sair do autocarro, aparentemente com um rádio na mão, e foi captado pela televisão. Durante o sequestro foi revelado que o homem tinha um revólver, uma arma de choque e uma faca, além da gasolina.

De acordo com o jornal Expresso, tudo começou quando Willian Augusto da Silva, o sequestrador, entrou no autocarro por volta das 5h05, sem dar nas vistas. Quando a viatura passava a ponte, às 5h25, Willian informou que se tratava de um assalto. Enquanto bebia vodka e permanecia aparentemente calmo, exigiu receber 30 mil reais (6.700 euros) para libertar os reféns e assegurou que não iria magoar ninguém e que em breve iria entregar-se às autoridades. Este foi o relato dos reféns que estavam dentro do autocarro.

Na altura, identificou-se como polícia militar, mas o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, confirmou que não se tratava verdadeiramente de um polícia militar. A Globo News diz que o homem teria um curso de vigilante.

“Temos um homem que se identificou como polícia militar. Parou o autocarro da Galo Branco na Ponte Rio-Niterói. Está a ameaçar lançar gasolina no autocarro, colocando os passageiros em perigo. Estamos em negociação com ele para liberar mais reféns, não sabemos qual o real propósito dele”, explicou Sheila Sena, porta-voz da Polícia Rodoviária Federal. A polícia considera que a ação foi premeditada.

Um atirador a postos no cimo de um camião dos bombeiros — Record News

Depois de o homem ser abatido, foi também revelado que a arma que tinha na mão não passava de um brinquedo. A Globo News diz que a informação não foi revelada mais cedo porque o sequestrador estava a acompanhar a cobertura televisiva nos telemóveis dos passageiros. Alguns desses passageiros estavam amarrados com braçadeiras, mas ainda assim conseguiram fazer algumas comunicações com o exterior através de mensagens enviadas a familiares e amigos.

O Batalhão de Operações Especiais chegou ao local antes das 7 horas (hora local) e cerca de uma hora depois assumiu o controlo das negociações. O objetivo principal era libertar os reféns — seis dos 37 passageiros foram libertados durante as negociações. Mas uma das reféns terá sido usada como escudo humano, segundo a Record News.

A Globo News explica que são os negociadores que dão indicação aos atiradores se podem disparar sobre o suspeito ou não. A falta de evolução nas negociações, no sentido de um desfecho positivo, pode ter sido a razão para acabar por disparar sobre o homem.

Mais tarde, e segundo a informação transmitida à Agência Brasil pelo comandante do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (Bope), tenente-coronel Maurílio Nunes, a psicóloga que acompanhou a missão no local indicou que o jovem de 20 anos estava num “surto psicótico”. Este dado levou a polícia a iniciar uma “negociação tática” que culminou nos disparos fatais.

“Ele [o sequestrador] alegou que se iria atirar da ponte, estava difícil manter a negociação. Ele saiu do autocarro e apontou a arma a uma vítima. Sempre tomámos por princípio de que a arma era real. O autocarro tinha garrafas com gasolina penduradas e ele tinha um isqueiro, então a ameaça era real. A negociação passou para tática, comandada por mim”, acrescentou Maurílio Nunes, citado pela agência brasileira.

Antes da 7 horas, já a polícia tinha cercado o autocarro

A Globo News que esteve a acompanhar a situação desde cedo, mostrou como as autoridades armadas tinham o autocarro cercado. A polícia conseguiu que a viatura, que estava inicialmente atravessada na via, fosse reposicionada paralelamente à via. Havia carros da polícia a bloquear a via na parte da frente do autocarro. No topo dos camiões de bombeiros no local estavam atiradores profissionais, segundo a Globo News, com a mira apontada na direção do autocarro.

Depois de neutralizar o sequestrador, a equipa do Batalhão de Operações Especiais entrou imediatamente no autocarro e pediu às pessoas para deixarem os bens na viatura. “Foi aquela coisa desesperadora. Os policiais entraram logo, uns cinco, seis, agentes do Bope. Todos armados”, conta à Globo News Hans Moreno, um dos reféns que ainda se encontrava no autocarro. “Assim que o Bope entrou, já pediu para todo mundo parar e ficar com a mão para cima. E a gente avisava que era só um [sequestrador]. Alguns ficaram nervosos, outros chorando”.

O G1 diz ainda que o sequestrador morreu com seis perfurações, de acordo com uma primeira análise da sua autópsia. Na mochila que trazia consigo, conta a Folha de São Paulo, o jovem trazia, além da pistola falsa, uma faca, um taser (arma de eletrochoque) e uma biografia de Charles Bukowsky, um escritor nascido na Alemanha mas naturalizado americano e que é conhecido pelas suas obras com caráter obsceno.

Jair Bolsonaro, já reagiu ao caso e elogiou a ação “bem sucedida” das autoridades do Rio de Janeiro. “Criminoso neutralizado e nenhum refém ferido. Hoje não chora a família de um inocente”, escreveu o Presidente brasileiro através do Twitter.

Ainda não são conhecidas as motivações do sequestrador. O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, já falou com a família do atirador que pediu desculpa pelo sucedido. O governador defende que tanto esta família como as famílias dos reféns devem receber acompanhamento psicológico.

A circulação na ponte esteve — e às 14 horas (hora de Lisboa) ainda estava — interrompida em ambos os sentidos. Havia, durante o sequestro, a possibilidade de a via que faz a ligação no sentido Rio de Janeiro-Niterói ser dividida para permitir a circulação em ambos os sentidos. Perto das 8h30 (hora local), montou-se uma circulação reversível na via livre para que os carros que estavam parados na ponte pudessem ser retirados aos poucos.

O trânsito, em ambos os lados da ponte, tornou-se caótico. As pessoas estavam a ser aconselhadas a fazer as viagens de barco. A empresa que faz a travessia de barco diz que  aumentou o número de passageiros em 70% e que vai continuar a assegurar a travessia mesmo fora da hora de ponta.

O número de assaltos a autocarros cresceu 21,6% no Estado do Rio de Janeiro, noticiou a Globo News. De janeiro a abril houve mais de 5,8 mil casos, o que significa, em média, um assalto a cada 30 minutos.

A cronologia dos acontecimentos

O sequestro durou aproximadamente três horas e teve vários momentos-chave, incluindo a libertação de seis reféns e a neutralização do sequestrador. Veja a cronologia dessas três horas, de acordo com a Globo News:

  • 6h00: o homem faz-se passar por polícia militar e manda parar o autocarro na ponte que liga Niterói ao Rio de Janeiro;
  • 6h19: é libertada a primeira refém;
  • 6h31: um homem mascarado lança um cocktail molotov para fora do autocarro;
  • 6h38: é libertada uma segunda refém;
  • 6h53: os negociadores do Batalhão de Operações Especiais (Bope) chegam ao local para ajudar a negociar com o sequestrador;
  • 7h04: um homem saiu do autocarro e foi revistado, era o terceiro refém;
  • 7h20: foi libertada a terceira mulher (quarta refém);
  • 7h45: o sequestrador desceu do autocarro, disse algo aos negociadores e voltou para dentro do veículo;
  • 7h50: o Batalhão de Operações Especiais assumiu as negociações;
  • 7h58: libertado o quinto refém;
  • 8h06: o sequestrador atira uma caixa para fora do autocarro;
  • 8h20: é libertada uma sexta refém;
  • 8h42: o governador Wilson Witzel disse nas redes sociais estar em contacto direto com o comando da Polícia Militar;
  • 9h04: o sequestrador é abatido por um atirador depois de sair do autocarro para lançar uma mochila.

A reação do estado do Rio de Janeiro

Na tarde desta terça-feira, várias horas após ter terminado o sequestro de um autocarro na ponte que liga Niterói e o Rio de Janeiro, Wilson Witzel , o governador deste estado brasileiro, foi o protagonista de uma conferência de imprensa de rescaldo do incidente.

De forma pausada e com tranquilidade, Witzel justificou a neutralização do sequestrador porque este estava “a colocar em risco dezenas de pessoas” ao ameaçar pegar fogo ao veículo que transportava 20 passageiros. “No local verifiquei que dentro do ónibus havia um forte cheiro a gasolina e que pendurado no teto tinha garrafas com gasolina”, conta o governador antes de explicar que no momento em que foi dado o disparo “o criminoso estava com um isqueiro na mão, pronto para incendiar o veículo”.

Havia grande expectativa de que este comunicado ao Brasil pudesse trazer mais informações sobre o incendiário e as suas motivações mas Wilson Witzel apenas explica que “durante as conversas de negociação ele [o criminoso] demonstrou uma perturbação mental” e “dizia que queria parar o Estado”. O governante explica que por enquanto ainda se estão a efetuar inquéritos e investigações para perceber ao certo como tudo aconteceu, tanto que ficou garantido que as autoridades iriam ouvir tanto “familiares como reféns” para “entender que tipo de motivo levou esta pessoa a praticar esse ato” e “para que possamos evitar novos incidentes.”

Foi garantido também que tanto os reféns como os familiares do sequestrador estão a receber apoio e Witzel revela que a família do mesmo está muito abalada com a situação, especialmente a mãe do suspeito: “Ela [a mãe] está muito abalada, só pergunta onde errou.  Nós vamos ajudar a recuperar esse momento difícil.”

Falando depois sobre um contexto mais abrangente, o governador afirma que “as autoridades ainda têm de melhorar muito” e que há ainda “muito trabalho para fazer no combate à violência urbana”. Mesmo assim reforça que são precisas “mais condições e militares”.

*Artigo atualizado às 8h28 desta quarta-feira, dia 21 de junho

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