Na noite de sábado no Brasil, madrugada de sábado para domingo em Portugal, o Flamengo goleou o Vasco da Gama num dos dérbis do Rio de Janeiro e a equipa de Jorge Jesus subiu ao segundo lugar do Brasileirão, ao beneficiar do empate do Palmeiras de Scolari. Na antecâmara da receção ao Internacional, para a primeira mão dos quartos de final da Taça Libertadores, o Flamengo não podia ter pedido melhor resultado: mas a vitória parecia ter trazido uma consequência pesada. Gabriel Barbosa, a referência ofensiva de Jesus que já marcou 24 golos este ano, sofreu uma lesão muscular na coxa e estava fora dos convocados para o jogo da Libertadores.

Esta quarta-feira, a maioria dos jornais brasileiros garantiam que Gabigol tinha feito fisioterapia intensiva durante os últimos dias para poder jogar mas que Jorge Jesus, aconselhado pelo departamento médico do Flamengo, tinha decidido poupar o avançado e não o incluir na lista de convocados. A ESPN brasileira, porém, foi ligeiramente mais longe e não dava a ausência do jogador como absoluta: e, para chegar a essa conclusão, recordou os jogos grandes de Jorge Jesus em Portugal. Desde o Benfica-Sporting de 2009 em que garantiu que Saviola não jogava e depois o argentino foi titular; desde o Benfica-FC Porto desse mesmo ano em que garantiu que Ramires e Aimar não podiam jogar e depois o brasileiro foi titular; e desde um Sporting-Benfica, já ao comando dos leões, em que garantiu que Bryan Ruiz e Slimani não podiam jogar e depois tanto o costa-riquenho como o argelino foram titulares.

Contas feitas, em 37 clássicos ou dérbis que Jorge Jesus disputou até dezembro de 2015 — a ESPN serviu-se da contabilidade feita pelo jornal O Jogo nessa altura –, o treinador utilizou esta mesma estratégia em 22. Ou seja, em 59%. No Brasil, na Libertadores, a história não foi diferente: Gabriel Barbosa saltou de não convocado para titular e tanto a comunicação social como as redes sociais brasileiras rapidamente comentaram (ou criticaram) a “pegadinha” de Jesus.

E se o treinador português fazia três alterações face à equipa que no fim de semana goleou o Vasco da Gama, o Internacional de Porto Alegre fazia algo muito pouco habitual: mudava os onze jogadores que no sábado foram a Fortaleza ganhar e atuava com uma equipa totalmente renovada. Na liderança desse conjunto e enquanto referência destacada no ataque, estava Paolo Guerrero, o peruano de 35 anos que representou o Flamengo entre 2015 e 2018 e que foi assobiado pelos adeptos da equipa do Rio de Janeiro assim que entrou para o período de aquecimento no Maracanã.

A primeira parte do jogo, que terminou sem golos, trouxe um Flamengo que joga cada vez mais à imagem e semelhança de Jorge Jesus, com temporização, posse de bola e uma linha inicial de pressão muito forte, que reage à perda de forma imediata e asfixia a primeira fase de construção adversária. Com o fluxo atacante a privilegiar sempre o corredor direito, a equipa do Rio de Janeiro esteve perto de inaugurar o marcador várias vezes — primeiro com um bom remate de Bruno Henrique para uma boa defesa de Marcelo Lomba (12′) e também através de Gabriel Barbosa, já no período de descontos — e beneficiou de uma grande exibição de Willian Arão, que ia enchendo o campo e ofuscando 45 minutos pouco inspirados de Arrascaeta e até de Gabigol (que estava a ser obrigado a recuar demasiado para ir buscar jogo). Na ida para o intervalo, o Flamengo estava a dominar e andava mais perto do golo mas precisava de juntar mais as linhas para aproximar Bruno Henrique, Arrascaeta e Gabigol para criar oportunidades de forma mais constante.

Jorge Jesus apresentou-se de fato pela primeira vez e as redes sociais não deixaram escapar o pormenor

Um dos momentos da primeira parte acabou por pertencer a Jorge Jesus, que à passagem do quarto de hora inicial teve uma atitude quase paternalista e afastou Gabigol de Rafael Sóbis, numa altura em que os dois jogadores pareciam preparados para levar o conflito de palavras para um conflito físico. O treinador português correu ao longo da linha técnica e empurrou o avançado para evitar um confronto — acabou por ser Jesus a ser alertado pelo quarto árbitro, pelo próprio árbitro da partida e confrontado por Sóbis mas a possibilidade de um eventual cartão amarelo a Gabigol, ou até um vermelho, estava afastada.

Na segunda parte, Jesus trocou Arrascaeta por Gerson e o jogo começou a tornar-se mais duro e mais físico: o Internacional, que chegava aos quartos de final sem qualquer derrota na Libertadores, ao passo que o Flamengo já somava três derrotas, ia jogando com a ansiedade da equipa do Rio e tentava adiar todas as decisões para a segunda mão em Porto Alegre. O conjunto orientado por Jorge Jesus acabou por conseguir chegar ao golo aos 75 minutos, numa altura em que o encontro partiu e passou a viver de contra-ataques e transições rápidas, com uma grande assistência de Gerson para Bruno Henrique. O avançado brasileiro, que se torna cada vez mais a figura do Flamengo de Jesus, bisou apenas quatro minutos depois, ao receber um passe de Gabigol de costas para a baliza para depois rodar e atirar cruzado e rasteiro (79′). O jogo não terminou sem que a equipa do Rio recebesse mais uma má notícia, já que Arão, um dos melhores desta quarta-feira, viu o terceiro cartão amarelo e não vai poder jogar na segunda mão.

O Flamengo conquistou então uma importante vitória e vai para a segunda mão em Porto Alegre (na próxima semana, dia 28) com uma vantagem clara face ao Internacional e possibilidades fortes de chegar às meias-finais da Libertadores pela primeira vez em 35 anos — onde pode encontrar o Palmeiras de Scolari ou o Grémio — e procurar a vitória final que escapa desde 1981. Jorge Jesus começou com uma “pegadinha”, viu o Flamengo ganhar no Maracanã e chegar às três vitórias consecutivas e ainda foi elogiado pelo “terninho”, já que decidiu, pela primeira vez desde que chegou ao Brasil, trocar o fato de treino pelo fato do clube.