Rádio Observador

Crítica de Livros

A disneyficação da História

Amor Towles tem um novo livro. José Carlos Fernandes olhou para o último, um romance ambientado na URSS de Estaline com um Kremlin tão luminoso como o Castelo da Cinderela. Deu-lhe duas estrelas.

A história de "Um Gentleman em Moscovo", de Amor Towles, passa-se no hotel Metropol, em Moscovo

Sovfoto/Universal Images Group via Getty Images

Autor
  • José Carlos Fernandes

Título: Um Gentleman em Moscovo
Autor: Amor Towles
Editora: Dom Quixote
Ano de edição: 2018
Páginas:
544
Preço: 24,90€

O romance Um Gentleman em Moscovo foi publicado no ano passado pela Dom Quixote. Este ano, a editora lançou As Regras da Cortesia, do mesmo autor

No início do século XX, o Metropol era um dos mais luxuosos hotéis de Moscovo. A sua construção, iniciada em 1899, só foi finalizada em 1907 e teve o contributo de prestigiados pintores, escultores, cenógrafos e outros mestres das artes decorativas. A Revolução de Outubro não só espantou os seus clientes estrangeiros e fuzilou ou forçou à emigração muitos dos seus clientes nacionais como, em 1918, tomou posse do Metropol, converteu-o na Segunda Casa dos Sovietes e instalou lá os seus soldados e burocratas.

Em Um Gentleman em Moscovo, o romance de 2016 do escritor norte-americano Amor Towles (publicado em Portugal pela D. Quixote, com tradução de Tânia Ganho), a reconversão do Metropol não é completa e o edifício continua, parcialmente, a funcionar como hotel, com hóspedes e a burocracia soviética a cruzarem-se nos corredores — o que é uma liberdade literária perfeitamente admissível.

Entre os hóspedes que permanecem no Metropol está o Conde Rostov, que, apesar de em tempos ter exprimido num poema simpatia pela causa revolucionária, não escapa à aversão dos bolcheviques pela aristocracia: é condenado a prisão domiciliária no Metropol, mas é expulso da sua luxuosa suíte para um quarto de arrumos nas águas-furtadas. Estamos em 1922 e o romance acompanha a vida de Rostov na sua prisão dourada até 1954, mas pouco ou nada da história da URSS transparece neste romance amável e açucarado, que está para a vida em Moscovo entre a Revolução Bolchevique e o início da era Khrushchev como o filme “Bambi” está para a vida selvagem.

A sanha persecutória do bolchevismo contra os aristocratas (a “gente do passado”, na terminologia bolchevique), o frenesim de denúncias, torturas, julgamentos encenados e execuções do estalinismo (e em particular o Grande Terror de 1936-38) e a destruição e privações decorrentes da II Guerra Mundial são aludidas de forma pontual, abstrata e distanciada, e perturbam tão pouco a vida no Metropol quanto um tremor de terra na Nova Zelândia.

Enquanto milhões de ucranianos perecem numa fome criada deliberadamente por Estaline, Rostov e os seus comensais do Metropol apenas têm de esforçar-se um pouco mais para reunir os ingredientes necessários à confeção de uma rica bouillabasse provençal. Enquanto os nazis bombardeiam Moscovo, Rostov não prescinde da visita semanal ao barbeiro nem de repastos gourmet regados com vinhos finos escolhidos a dedo. E quando um homem poderoso do Partido se imiscui à força na vida de Rostov, não é para o obrigar a denunciar amigos ou para o enviar para o Gulag, mas para o convidar a que se junte a ele na leitura de Tocqueville e no visionamento privado de filmes yankees.

É uma amarga ironia que este tenebroso período da história soviética, que foi alvo de maquiavélicas manipulações pela propaganda bolchevique, seja agora também adulterado por Towles e convertido em mero pano de fundo para uma fantasia amável e frívola.

Porém, não se ficam por aqui as debilidades de Um Gentleman em Moscovo:

  1. Não só a presença da história é remota e vaga como Towles não tem o talento necessário para a integrar naturalmente na narrativa. Ou remete-a para notas de rodapé (o expediente de quem não sabe transmitir informação e está a marimbar-se para a coerência da voz narrativa) ou introduz nos pensamentos e palavras das personagens preleções pedagógicas em tom enciclopédico. Logo no início do romance, para benefício do leitor que esteja tão alheado da história do século XX que creia que Trotsky é uma marca de vodka, Towles coloca (a despropósito) na mente de Rostov esta “meditação”: “Sabia melhor do que a maior parte das pessoas [que] fora em setembro de 1905 que os membros da delegação tinham assinado o Tratado de Portsmouth para pôr fim à Guerra Russo-Japonesa. Nos 17 anos desde a criação dessa paz […] a Rússia passara por uma guerra mundial, uma guerra civil, dois surtos de fome e o chamado Terror Vermelho”.
  2. O esforço constante de Towles para soar profundo e sapiente produz apenas tagarelice sentenciosa. Se, por exemplo, uma personagem faz algo tão corriqueiro e irrelevante para a narrativa como tomar um café, com a chávena, o pires e a colher, vem esta pérola de filosofia instantânea: “O café, que se sente tão à-vontade numa caneca de lata como numa chávena de louça de Limoges, consegue energizar o laborioso de madrugada, acalmar os pensativos a meio do dia e animar os espíritos dos atormentados a meio da noite”.
  3. As personagens são incongruentes e pedantes e a mais irritante de todas, Sofia, exprime-se assim aos seis anos de idade: “A era da nobreza deu lugar à era do homem comum. Era historicamente inevitável”.

Um Gentleman em Moscovo foi eleito como melhor livro do ano por jornais tão respeitáveis como o Chicago Tribune, o Washington Post, o Philadelphia Inquirer e o San Francisco Chronicle, mas a distinção que melhor lhe assentaria seria o Prémio Zhdanov para a Reescrita do Passado.

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