Mais de duas dezenas de balas, de calibre 9 mm, não deflagraram ou encravaram nas armas, esta sexta-feira, nos primeiros treinos com fogo real na Escola Prática de Polícia, noticiou o Expresso. O presidente do Sindicato de Profissionais de Polícia receia que estas balas com defeito tenham chegado aos operacionais no terreno. A PSP classifica a notícia de alarmista e diz ao Observador que “não há nenhum problema com as munições da PSP”.

A PSP não nega que aconteçam situações em que as balas não deflagram ou as armas encravam. Aliás, a possibilidade de se verificar uma situação deste tipo faz com que as normas de utilização de arma de fogo deem indicações de como devem proceder os instrutores e formandos, assim como os profissionais no terreno, explica ao Observador o porta-voz da PSP, o intendente Alexandre Coimbra. No entanto, se este tipo de situação se regista com alguma regularidade durante as sessões de tiro, não há nenhum registo oficial de que tenham acontecido com as munições distribuídas nas esquadras.

Os sindicatos ouvidos pelo Expresso temem que as balas com defeito tenham chegado aos agentes na rua e que esteja em causa a sua integridade física. Ao Observador, Mário Andrade, presidente do Sindicato de Profissionais de Polícia, vai mais longe e diz que tem “quase a certeza que estas balas foram distribuídas em Lisboa”. Questionado sobre como poderia ter certeza, Mário Andrade diz que a PSP não ia comprar um lote só para a Escola Prática de Polícia (EPP). O porta-voz da PSP contraria essa ideia: o lote com 109 mil balas, adquirido em julho desde ano, foi exclusivamente para a EPP.

É comum as balas de formação terem defeito?

A falha de mais de 20 balas na formação dos 600 novos agentes da PSP foi denunciada esta sexta-feira. O porta-voz da PSP desvaloriza a questão: são 24 balas num lote de 109 mil, das quais já tinham sido disparadas centenas delas. O alarme surge agora, mas o intendente Alexandre Coimbra diz que já tinha acontecido uma situação equivalente em fevereiro.”Foi escrito, foi avaliado, foi substituído”, diz o porta-voz da PSP, referindo-se ao procedimento a adotar.

Em todas as sessões de tiro, o instrutor elabora um relatório que tanto pode reportar que decorreu tudo normalmente, como que houve balas que não deflagraram, armas que encravaram ou outras situações. “Numa sessão de 50 tiros podem não deflagrar uma ou duas”, diz o porta-voz da PSP. Quando o instrutor entende que a situação foge do normal, dá indicação para que a situação seja analisada. Foi o que aconteceu esta sexta-feira.

“O lote de munições em questão está a ser avaliado e será substituído”, disse a PSP numa reação à notícia do Expresso. O porta-voz garante que este procedimento, que pode culminar com a devolução das balas tal como está previsto no contrato, se iniciou ainda antes da publicação da notícia.

“Quem usa armas de fogo sabe que há sempre uma probabilidade ínfima de a munição não deflagrar”, diz o intendente Alexandre Coimbra, porta-voz da PSP — GettyImages

As balas com defeito podem ter chegado às esquadras?

Mário Andrade, presidente Sindicato de Profissionais de Polícia, diz que o problema com as balas que não deflagram ou encravam nas armas já tinha acontecido no ano passado. O porta-voz da PSP admite que é uma situação que pode acontecer nas sessões de tiro.

Mas o presidente do sindicato diz que as balas com defeito podem ter chegado aos agentes no terreno e indica duas formas: primeiro, que as balas do lote com defeito do ano passado possam ter sido dadas aos agentes recém-formados, juntamente com a arma de serviço e, segundo, que o lote que foi recebido em julho deste ano tenha sido distribuído aos comandos.

Alexandre Coimbra nega ambas as hipóteses. Primeiro, os novos agentes recebem a arma de serviço e as balas nos locais onde forem colocados, com as balas que aí foram distribuídas, e não as balas que existem na Escola para formação. Segundo, as 109 mil balas compradas em junho deste ano foram exclusivamente para a Escola Prática de Polícia, garante a PSP.

Os agentes da polícia podem estar em risco?

Os sindicatos receiam que em causa esteja a integridade física ou mesmo a vida dos operacionais. O porta-voz da PSP diz que “quem usa armas de fogo sabe há sempre uma probabilidade ínfima de a munição não deflagrar”, mas nega que esta evidência ou a situação nas sessões de tiro indiquem que as munições da PSP tenham um problema.

A PSP argumenta com a informação que tem disponível: “Não foi encontrado qualquer registo oficial de reclamações sobre deteção de problemas com estas munições ou outras”. Ou seja, nenhum operacional se queixou do mesmo problema detetado nas balas da Escola. A PSP diz mais: entre 2017 e 2018 foi entregue mais de um milhão de balas aos comandos da polícia, “não tendo, até ao momento, sido comunicada qualquer anomalia”.

Os sindicatos e outras fontes ouvidas pelo Expresso também disseram não ter conhecimento de problemas com as munições entre os agentes que andam na rua. “Mas os polícias não usam as armas diariamente e só se nota que há problema quando é feito um disparo”, diz Mário Andrade ao Observador. “Receio que numa situação de emergência venha a falhar.”

Sobre o facto de os operacionais não dispararem as armas com frequência e por isso poderem não ter ainda detetado os problemas, a PSP apresenta uma situação diferente: “Todos os anos, todo o efetivo da PSP cumpre o Plano de Certificação de Tiro, com sessões reais de tiro prático, quer em formação, quer na fase de certificação probatória”. Ou seja, há tiros a serem disparados todos os anos com as balas que são distribuídas aos comandos. Se houvesse um problema com as munições, a PSP acredita que já teria sido detetado.