Ainda que a Premier League, tal como a liga portuguesa, só esteja este fim de semana a assistir à terceira jornada da temporada que agora começou, este sábado tinha desde já um jogo que podia decidir quem assumia de forma isolada a liderança da classificação. Liverpool e Arsenal, as únicas duas equipas que venceram os dois primeiros jogos em Inglaterra — depois de o Manchester United ter empatado na segunda-feira com o Wolverhampton de Nuno Espírito Santo, falhando a subida ao topo da tabela em ex aequo com reds e gunners –, encontravam-se em Anfield e uma vitória significaria, para uns e para outros, o assumir da posição de líder da Premier League.

O Liverpool de Jurgen Klopp, que na temporada passada ficou a um ponto do campeão Manchester City, bateu Norwich e Southampton nas duas primeiras semanas da Premier League; o Arsenal de Unai Emery, que na época anterior não conseguiu mais do que um quinto lugar, ganhou ao Newcastle e ao Burnley no duplo compromisso inicial. Era o encontro entre duas equipas com estratégias muito diferentes na abordagem ao mercado de verão: se os reds pouco ou nenhum investimento fizeram e também não viram nenhum jogador importante deixar Anfield, os gunners contrataram Pépé, Tierney e David Luiz e ainda garantiram o empréstimo de Ceballos e perderam Ramsey, Koscielny e Iwobi. Mais do que isso, era o encontro entre uma equipa que foi campeã europeia e ficou muito perto de ganhar a liga inglesa e uma equipa que olha para a temporada que agora começou como um novo capítulo que pode ser o início do recuperar da glória que há já algum tempo não se vê no Emirates.

Nos onzes iniciais, se o Liverpool atuava com a equipa tipo e sem grandes surpresas — depois de optar por Joe Gomez para a direita da defesa na jornada inaugural, Klopp manteve Trent Alexander-Arnold da vitória perante o Southampton para o jogo deste sábado –, Unai Emery desfazia a dupla Aubameyang/Lacazette na frente de ataque do Arsenal e colocava Pépé ao lado do avançado gabonês, com Ceballos a apoiar os dois homens mais adiantados. O clube londrino entrava em campo para, além de conquistar os três pontos, além de conquistar a vitória, além de conquistar a liderança da tabela, travar uma série de oito jogos consecutivos sem vencer o Liverpool. Para isso, era necessário não sofrer golos. E foi precisamente isso que o Arsenal não conseguiu evitar.

Numa altura em que as duas equipas já pensavam no intervalo, Matip respondeu de cabeça a um pontapé de canto batido por Alexander-Arnold e colocou o conjunto orientado por Jurgen Klopp a vencer (41′). O golo do central camaronês valeu, mais do que a vantagem, garantiu ao jovem lateral direito a nona assistência nos últimos dez jogos que disputou em Anfield, incluindo uma em cada uma das cinco partidas mais recentes. No final da primeira parte, adivinhava-se que Emery estivesse a estudar a entrada de Lacazette, para ir atrás do resultado, e que Klopp apostasse em chegar rápido ao segundo golo para não abrir espaço a um eventual empate. Pelo meio, Nicolás Pépé tornou-se o primeiro jogador a driblar Virgil Van Dijk em 50 semanas de Premier League, já que nenhum adversário tinha passado pelo central holandês desde março de 2018.

Aubameyang não teve o habitual colega do lado, Lacazette, dentro de campo e não conseguiu fazer a diferença

Na segunda parte, o Liverpool avolumou a vantagem quando ainda muitos adeptos voltavam aos respetivos lugares em Anfield: aos 48 minutos, quando ainda mal estavam cumpridos três minutos do segundo tempo, David Luiz cometeu grande penalidade sobre Salah e foi o próprio egípcio que converteu o penálti, com um grande remate praticamente indefensável para Leno. Com o Arsenal a ter muitas dificuldades em entrar com qualidade e com a bola controlada no último terço do terreno do Liverpool — Ceballos não conseguiu fazer a diferença, Aubameyang parecia estar sempre à procura de Lacazette (que só entrou a dez minutos do apito final) e Pépé não aproveitou uma grande oportunidade que teve na primeira parte e acabou por ser bem neutralizado por Van Dijk –, Salah lançou-se em corrida pela direita, fletiu para a faixa central e atirou em arco, rasteiro, para fazer o terceiro da tarde em Anfield (58′). Em pouco mais de 15 minutos, o avançado egípcio tinha resolvido praticamente sozinho uma sempre complicada receção ao Arsenal. O conjunto orientado por Unai Emery ainda reduziu a desvantagem, a cinco minutos do apito final e por intermédio de Torreira (85′), mas era demasiado tarde para procurar o empate.

Nada que seja propriamente estranho: além de este ser já o nono jogo consecutivo em que o Arsenal perde ou empata com o Liverpool, Mohamed Salah esteve envolvido em sete golos nos seis jogos que fez contra os gunners e marcou nas quatro vezes que os reds receberam a equipa londrina. Com a vitória deste sábado, o Liverpool assumiu desde já a liderança da Premier League, com mais dois pontos do que o Manchester City e mais três do que o Arsenal (beneficiando ainda da derrota já este sábado do Manchester United, perante o Crystal Palace), e voltou a deixar claro que é o principal rival do conjunto orientado por Pep Guardiola na luta pelo título nacional. Do outro lado, o Arsenal teve uma espécie de choque de realidade, depois de duas semanas em que os adeptos dos gunners acreditaram na possibilidade de lutar pelo primeiro lugar, e tem de assimilar e trabalhar sobre o facto inequívoco de que ainda está vários furos abaixo de Liverpool e Manchester City.