Sérgio e a nota 20 num teste onde o segredo estava na folha de rascunho (a crónica do Benfica-FC Porto)

O FC Porto foi à Luz ganhar o primeiro clássico, enterrar a crise e mostrar que o segredo do sucesso está no trabalho de casa. Lage perdeu pela primeira vez na Liga e errou onde nunca tinha errado.

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Zé Luís marcou o quinto golo em cinco jogos pelo FC Porto

Getty Images

Zé Luís marcou o quinto golo em cinco jogos pelo FC Porto

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Há menos de um ano, em outubro, o Benfica recebeu o FC Porto na Luz e um golo solitário de Seferovic foi o suficiente para garantir os três pontos a um conjunto encarnado que ainda era de Rui Vitória. O desaire deu origem a um discurso inspirado e inspirador de Sérgio Conceição, que disse diretamente aos adeptos que a equipa iria fazer tudo para que aquela fosse a última derrota da temporada na Liga. A verdade é que os dragões só voltaram a perder uma vez, cinco meses depois, no Dragão e novamente perante os encarnados. No final da história, os três pontos desperdiçados na Luz em outubro foram fulcrais nas contas decisivas, que deixaram o FC Porto em segundo lugar e a dois pontos do campeão Benfica. Este sábado, novamente na Luz, Sérgio Conceição não queria cometer o erro de fazer o mesmo discurso e preferia jogar pelo seguro, vencendo desde já.

Do outro lado, depois de ganhar os dois jogos da Liga com o FC Porto na temporada passada, o Benfica surgia à entrada para a terceira jornada assente em duas vitórias — P. Ferreira (5-0) e Belenenses SAD (0-2) — e duas exibições convincentes que se aliavam à goleada imposta ao Sporting na Supertaça. Na Luz, o momento não podia ser melhor: enquanto os dragões se debatem com uma reformulação estrutural que se tornou obrigatória com a saída de vários titulares e os leões têm uma dinâmica totalmente assente num jogador cuja continuidade ainda não está assegurada, os encarnados reforçaram o ataque para fazer face às saídas de João Félix e Salvio, viram Raúl de Tomás entrar diretamente para o onze inicial, descobriram um novo “menino” graças ao infortúnio de André Almeida e mantiveram uma espinha dorsal preponderante e bem oleada que tem em Pizzi e em Rafa os seus principais expoentes.

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Ficha de jogo

Benfica-FC Porto, 0-2

3.ª jornada da Primeira Liga

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: Jorge Sousa (AF Porto)

Benfica: Vlachodimos, Nuno Tavares, Rúben Dias, Ferro, Grimaldo, Florentino (Vinicius, 79′), Samaris (Taarabt, 45′), Pizzi, Rafa, Raúl de Tomás (Chiquinho, 70′), Seferovic

Suplentes não utilizados: Zlobin, Caio Lucas, Jardel, André Almeida

Treinador: Bruno Lage

FC Porto: Marchesín, Corona, Pepe, Marcano, Alex Telles (Manafá, 81′), Danilo, Uribe, Romário Baró (Otávio, 73′), Luis Díaz, Zé Luís (Soares, 73′), Marega

Suplentes não utilizados: Diogo Costa, Bruno Costa, Mbemba, Fábio Silva

Treinador: Sérgio Conceição

Golos: Zé Luís (22′), Marega (86′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Marchesín (41′), a Danilo (64′), a Zé Luís (73′), a Taarabt (80′), Luis Díaz (81′), Seferovic (83′), Alex Telles (83′)

Na antecâmara do primeiro clássico da temporada, o capitão André Almeida voltava a ser opção para Bruno Lage, que ainda assim mantinha a titularidade de Nuno Tavares e colocava em campo o mesmo onze pela terceira jornada consecutiva. Sérgio Conceição, que mudou várias peças na semana em que o FC Porto perdeu com o Gil Vicente e foi eliminado da Liga dos Campeões pelo Krasnodar, não fazia qualquer alteração à equipa que no fim de semana passado recebeu e goleou o V. Setúbal — colocando um fim à especulação que dava conta de que Otávio podia saltar para o onze, para impulsionar o jogo de Marega e potenciar a profundidade do maliano, em detrimento do jovem Romário Baró. Antes do apito inicial, existia uma certeza: uma derrota do Benfica não significaria, ainda assim, o mesmo que significaria uma derrota do FC Porto. Tal como uma vitória do FC Porto não significaria, ainda assim, o mesmo que significaria uma vitória do Benfica. Em caso de desaire, os encarnados seriam obrigados a um período de retoma que implicaria vencer todos os jogos a partir deste momento e não permitir mais felizes, ao passo que um desaire dos dragões era a confirmação da crise que Sérgio Conceição vai tentando afastar. Em caso de vitória, os encarnados reagiriam com relativa normalidade, apesar de ser contra um rival direto, e seguiriam caminho, ao passo que uma vitória dos dragões era o enterrar definitivo de um período muito pouco feliz.

O Benfica jogava então com a habitual dupla de centrais formada por Rúben Dias e Ferro, Nuno Tavares na direita e Grimaldo na esquerda, Florentino numa zona mais recuada do meio-campo e Samaris a servir de apoio na faixa central a Pizzi e Rafa, tombados nos corredores para servir Raúl de Tomás e Seferovic e procurar jogo interior. Do outro lado, Sérgio Conceição apostava novamente em Corona na posição de lateral direito, oposta à de Alex Telles, e Pepe jogava ao lado Marcano. No setor intermédio, Danilo e Uribe ocupavam o terreno à frente da defesa e atrás do ataque e Romário Baró e Luis Díaz, um em cada ala, apoiavam Marega e Zé Luís na zona mais ofensiva. Os primeiros minutos de jogo mostraram rapidamente que o FC Porto se iria apresentar tal como fez na receção ao V. Setúbal, com a primeira linha da equipa muito adiantada e os setores muito próximos, a realizar de forma natural as dobras para recuperar a bola ainda no meio-campo defensivo do Benfica. A pressão alta dos dragões ia asfixiando as linhas de passe encarnadas e a equipa de Bruno Lage tinha dificuldades em sair de forma controlada e com qualidade, obrigando Vlachodimos a bater sempre os pontapés de baliza de forma longa e os laterais a procurar uma profundidade que não é intrínseca a De Tomás e Seferovic.

O FC Porto conseguiu, durante o primeiro tempo, recuperar aquilo que de melhor fez no jogo com o V. Setúbal e que era a principal falha desde o início da temporada. Entre as muitas saídas que desfalcaram os dragões este verão, a mais sonante e preocupante terá sido a de Herrera, não só pelo papel de líder e capitão de equipa que desempenhava mas também pela presença quase fantasmagórica que tinha dentro de campo, onde pairava e tinha intervenções preponderantes e decisivas sendo raramente motivo de destaque. A ida do mexicano para o Atl. Madrid deixou o FC Porto órfão desse compasso no setor intermédio, cujo novo dono é Uribe — ora, o colombiano chegou já às portas da nova época, teve pouco tempo de adaptação e só apareceu de forma constante e positiva precisamente contra o V. Setúbal. Além de ser a companhia perfeita para Baró, que precisa de um jogador sólido e consciente ao lado para ter a confiança necessária para avançar e procurar espaço, é também uma metade que encaixa bem com Danilo, que depois da parceria bem sucedida com Herrera parece agora entender-se bem com Uribe. Era portanto o colombiano, em conjunto com o médio português, que servia de pêndulo das transições defensivas e ofensivas da equipa de Sérgio Conceição, numa injeção de qualidade que permite ao FC Porto quase nunca ser apanhado em situações de inferioridade numérica.

Numa primeira parte com poucas oportunidades de golo, o FC Porto acabou por conseguir chegar à vantagem com alguma sorte: pontapé de canto batido na direita e um ressalto em Ferro colocou a bola em Zé Luís, que deu o último toque para bater Vlachodimos (22′). Quinto golo em cinco jogos para o avançado cabo-verdiano, que levava os dragões para o intervalo a ganhar na Luz pela primeira vez desde 2010/11. A reação do Benfica foi perto de inexistente, já que a equipa de Bruno Lage manteve as mesmas dificuldades em sair a jogar — mesmo com uma redução de intensidade por parte dos dragões — e existia a ideia de que o FC Porto estava a ganhar também no confronto tático e no trabalho de casa, com Pizzi e Rafa a terem poucas oportunidades para fazer a diferença. Prova disso eram os números à meia-hora, que explicavam que Seferovic já tinha perdido a bola seis vezes, que o único remate do Benfica tinha sido de livre direto e que Danilo e Uribe ainda não tinham falhado um único passe. Na ida para o intervalo, os encarnados tinham sofrido o primeiro golo da época, estavam a perder pela primeira vez na época e mostravam que a falta de hábito de estar em desvantagem tornava complicada a reação.

Numa segunda parte nem sempre bem jogada, com muitas interrupções, muitas queixas apresentadas a Jorge Sousa e largos minutos praticados aos repelões, sem qualquer tipo de discernimento ou clareza, a primeira oportunidade apareceu ainda nos instantes iniciais, com Luis Díaz a ver Vlachodimos roubar-lhe o golo com uma grande defesa (47′). O Benfica, que ao intervalo perdeu Samaris e viu Taarabt entrar para o meio-campo — o grego lesionou-se no pulso nos últimos minutos do primeiro tempo –, tremeu com uma saída do guarda-redes, que deixou os postes para intercetar uma bola de cabeça e acabou por ficar perdido fora da grande área com a bola na posse dos jogadores adversários (58′). Os encarnados abriram um período de maior controlo das ocorrências a partir de uma enorme ocasião de Seferovic, que fez o mais difícil e atirou ao lado quando só tinha Marchesín pela frente (60′), e obrigaram o FC Porto a recuar as linhas e Alex Telles e Corona a juntar-se mais a Pepe e Marcano, para não arriscar subidas de Rafa e Pizzi ou entradas dos dois jogadores em terrenos interiores.

[Carregue nas imagens para ver alguns dos melhores momentos do Benfica-FC Porto:]

O melhor período dos encarnados no jogo trouxe vários lances de insistência mas poucas oportunidades dignas desse nome, com Raúl de Tomás muito fora da partida, Seferovic com pouco espaço e Rafa e Pizzi a atravessar uma noite desinspirada, sem picos de velocidade e com muitos passes falhados. O all in da equipa de Bruno Lage partiu o jogo, que deixou de ter clarividência e passou a ser gerido pelas emoções, com várias entradas mais duras, passes sem qualquer nexo e inúmeras interrupções provocadas por jogadores deitados no relvado. Chiquinho e Carlos Vinicius, lançados para os lugares de Raúl de Tomás e Florentino com poucos minutos de diferença, foram a par de Taarabt os únicos elementos encarnados que conseguiram encontrar lacunas na defesa dos dragões — a qualidade do primeiro aliada à força do segundo abriu várias brechas entre Pepe e Corona no último quarto de hora da partida mas o Benfica acabou por sair do relvado sem ter enquadrado um único remate, algo que não acontecia desde abril de 2016.

Sérgio Conceição trocou Zé Luís por Soares e Baró por Otávio para aproveitar a profundidade que estava a ser permitida pelo Benfica, que deixava as costas da defesa totalmente desprotegidas e ficava completamente suscetível a contra-ataques. Foi assim que o FC Porto chegou ao segundo golo, com um passe longo de Otávio que descobriu Marega isolado na cara de Vlachodimos: o maliano, que minutos antes tinha estado na mesma situação e atirou por cima (77′), não desperdiçou duas vezes seguidas e aumentou a vantagem dos dragões (86′). Até ao final, Chiquinho lesionou-se com gravidade — e deixou o Benfica, já com as três substituições efetuadas, a jogar com menos um elemento durante os últimos instantes — e Seferovic ainda marcou nos descontos mas o golo foi anulado por fora de jogo do suíço.

O FC Porto venceu o Benfica na Luz, impôs a primeira derrota na Liga a Bruno Lage e Sérgio Conceição tornou-se o primeiro treinador da história dos dragões a ganhar duas vezes em casa dos encarnados (já havia vencido em 2018, com um golo solitário de Herrera). Mais do que isso, a verdade é que o FC Porto venceu o jogo antes ainda do apito inicial: numa análise rápida às partidas mais recentes dos dois conjuntos, o Benfica ganhou três jogos consecutivos mas nunca conseguiu uma exibição global totalmente positiva, já que entrou mal com o Sporting, não foi brilhante com o P. Ferreira e teve muitas dificuldades com o Belenenses SAD. Já os dragões, apesar das derrotas com o Gil Vicente e o Krasnodar, estiveram perto da perfeição no fim de semana passado, com o V. Setúbal, numa partida que serviu de ensaio para a visita à Luz e que foi o rascunho de todas as dinâmicas do FC Porto que este sábado apanharam o Benfica desprevenido. Os dragões igualam assim os encarnados na classificação, ainda que estejamos apenas na terceira jornada, e encerram de vez uma crise que se podia prolongar em caso de derrota perante o Benfica. Quanto à equipa de Bruno Lage, que parecia até aqui praticamente imbatível, precisa de repensar um esquema de jogo que rapidamente descamba para a impaciência natural da juventude dos jogadores que estão em campo — até porque um dos fatores que o treinador apresentou como sendo crucial falhou este sábado em toda a linha. Raúl de Tomás e Seferovic, que Lage tinha destacado como os primeiros homens a defender e um dos mais importantes para o facto de a equipa não sofrer golos, chegaram a meio da segunda parte sem qualquer ação defensiva.

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