O debate sobre o direito à privacidade reacendeu-se no Reino Unido, depois de a Mercedes admitir que rastreia os carros dos seus clientes e que se serve dessa informação para localizar e recuperar veículos de clientes que entram em incumprimento no pagamento acordado em contratos de financiamento.

Para “perseguir” os devedores, a marca da Daimler recorre ao sistema de geolocalização com que todos os veículos são obrigados a estar equipados desde meados de 2018, o chamado eCall. Sucede que esta tecnologia tornou-se obrigatória na União Europeia para salvar vidas, devendo ser exclusivamente utilizada em situações de emergência. Não para recuperar carros de clientes inadimplentes.

O caso foi denunciado pelo The Sun, suscitando questões de violação do direito à privacidade, com a CNN Business a reportar que a celeuma em terras de Sua Majestade é tal que várias personalidades, incluindo o ex-secretário de Estado conservador David Davis, pedem ao Governo que investigue a prática.

Pelo seu lado, a Mercedes mostra-se despreocupada com esta técnica para reaver os veículos dos caloteiros, assegurando que os visados concordaram em ser rastreados, sendo este um dos termos do contrato de financiamento. Através de um porta-voz, a marca da estrela assume que recorre à tecnologia de geolocalização ao serviço do eCall, mas afirma que o faz apenas “em casos excepcionais”, como último recurso. Isto é, quando o cliente não só falha o pagamento como também não responde ao pedido de devolução do veículo. “Queremos deixar bem claro que não fazemos um rastreamento constante”, enfatiza o fabricante de Estugarda.

Ouvida pela CNN Business, a organização não-governamental britânica Privacy International, pela voz de Christopher Weatherhead, defende que “o que a Mercedes está a fazer é tecnicamente ilegal”.

Recorde-se que a legislação aprovada pelo Parlamento Europeu para obrigar à implementação do eCall em todos os novos veículos comercializados no espaço da União Europeia definia que a chamada automática de emergência só seria efectuada em caso de acidente grave e, nessa circunstância, limitar-se-ia a comunicar dados básicos (mas essenciais para a eficácia da resposta), como o tipo de veículo em causa e o respectivo combustível, a hora do acidente, o número de ocupantes e, claro, a localização do carro.

O Observador contactou a Mercedes para perceber se esta prática também é comum em Portugal. O porta-voz da marca afirma “não ter informação sobre o assunto”.