As fases más das equipas grandes têm normalmente, na ótica dos adeptos, três principais culpados: o presidente, o treinador e o avançado. O primeiro, porque escolheu o segundo; o segundo, porque escolheu o terceiro; e o terceiro, porque não faz golos suficientes para anular todos os que a equipa sofre. Aplicando esta lógica à realidade do Sporting pré-vitória com o Sp. Braga, os culpados da crise leonina eram Frederico Varandas, Marcel Keizer e Luiz Phellype. Se o presidente foi muito criticado depois das declarações algo disciplicentes depois da goleada sofrida com o Benfica na Supertaça e o brasileiro é normalmente acusado do facto simples de não ser Bas Dost, o treinador holandês foi nas últimas semanas acusado de errar (e tardar) nas substituições, de continuar a apostar em Diaby e não lançar Rafael Camacho ou Gonzalo Plata e de ter decidido, logo à partida, que Vietto e Bruno Fernandes não podiam coexistir.

Este domingo, contra o Portimonense, o Sporting venceu, subiu à liderança da Primeira Liga de forma provisória, Luiz Phellype marcou, Camacho e Plata continuaram sem jogar mas Vietto mostrou que afinal consegue jogar com o capitão leonino. Este domingo, ninguém se vai lembrar de Frederico Varandas. Marcel Keizer, porém, continua a ter de responder à flash interview e à conferência de imprensa no final de todas as partidas e torna-se por isso um protagonista quase acidental de tudo o que se passou dentro de campo: ainda que esta semana tenha adotado um discurso algo diferente do habitual.

Desde que chegou a Portugal, e provavelmente devido às limitações de não estar a falar na língua que lhe é intrínseca, Keizer tornou-se alvo de brincadeiras por repetir as frases good game, good passes, we can do better, bom jogo, bons passes, podemos fazer melhor, em português. Declarações algo vazias, de intenção e de significado, que se tornaram ainda mais problemáticas quando o treinador explicou — após a jornada inaugural, em que o Sporting não conseguiu mais do que um empate com o Marítimo — que os leões tiveram “uns bons seis minutos e meio”. Este domingo, Keizer mostrou uma vontade de ser, ter e criar melhor que ainda não tinha revelado.

“Estivemos fortes, não muito fortes, mas fortes. Estamos felizes com o resultado mas nesta equipa há mais possibilidades. Mas o resultado é bom, 1-3 fora de casa. Estou feliz pelos jogadores. Foi o melhor jogo da época mas nos outros jogos também tivemos partes muito boas. Mas como treinador quero mais do que isto e vamos continuar. Jogámos três jogos, não podemos estar eufóricos. Para nós é ver as coisas positivas deste jogo, treinar e continuar, porque ainda há um longo caminho pela frente”, garantiu o treinador holandês. Sobre Vietto, Keizer explicou então que tentou colocar o argentino “ao meio e Bruno na esquerda”. “Fizemos isto nos treinos, o Luciano [Vietto] está a melhorar e mostrou a sua qualidade. E também com Acuña por trás, porque resolve problemas defensivos e é uma boa combinação”, concluiu.

Em Portimão, o Sporting alcançou a melhor exibição da temporada e as duas primeiras vitórias consecutivas desde maio, no final da época passada. Os leões carimbaram também o golo mais rápido da Liga até agora, graças ao remate de Raphinha logo aos dois minutos, e assinaram um arranque absolutamente demolidor, com dois remates enquadrados, dois remates dentro de área, duas faltas sofridas, 83% dos duelos ganhos, 31 passes completos, 94% de eficácia de passe e 66% de posse de bola. Mais do que isso, o Sporting aproveitou o deslize do Benfica contra o FC Porto e o deslize dos dragões na jornada inaugural para se assumir enquanto “grande” ainda sem derrotas e saltar para a liderança, ainda que provisória, da classificação. É caso para dizer: good game, good passes, you’re doing better*.

*bom jogo, bons passes, estão melhores