Vietto e um recital de um Luciano que não é Pavarotti (a crónica do Portimonense-Sporting)

O Sporting foi a Portimão vencer e Vietto, que finalmente mostrou o que vale, foi um dos melhores em campo. Apareceu entre linhas, fez aparecer e mais importante: jogou com Bruno Fernandes.

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O médio argentino voltou ao onze depois de ter sido suplente com o Sp. Braga

CVIDIGAL

O médio argentino voltou ao onze depois de ter sido suplente com o Sp. Braga

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Ao longo dos anos, o Sporting tem somado vários adversários cujas deslocações, os jogos dos leões em casa dessas equipas, eram particularmente complicados. No início da década, em anos de má memória para a equipa de Alvalade, a ida à Mata Real para defrontar o P. Ferreira era sempre penosa para o Sporting; as viagens à Madeira, onde o obstáculo principal foi durante muitas temporadas o Nacional e é agora o Marítimo, são normalmente árduas; e as deslocações à Pedreira para encontrar o Sp. Braga nunca são simples. Na última época, os leões juntaram outro cromo a essa longa lista: a derrota por 4-2 em Portimão, em outubro do ano passado e graças a um bis de Nakajima, tornava perigoso o jogo deste domingo, principalmente numa altura em que o Sporting só conquistou a primeira vitória da época na jornada anterior.

Ainda assim, as dificuldades dos leões em Portimão estão longe de ser recentes. Em 15 jogos ao longo da história entre as duas equipas no Algarve, todos para o Campeonato, o Sporting regista cinco vitórias, as mesmas que o Portimonense, e cinco empates. E se a democracia era total nesse tópico específico, a verdade é que a partida deste domingo colocava também em total pé de igualdade os dois conjuntos: quatro pontos para os dois lados, uma vitória e um empate para os dois lados, a possibilidade de saltar para a liderança da tabela à condição para os dois lados. Depois da derrota do Benfica, este sábado com o FC Porto, Sporting e Portimonense tinham a hipótese de subir ao primeiro lugar em caso de vitória e só dependiam mesmo do Famalicão, que joga este domingo com o V. Guimarães e só precisa de um ponto para ser líder isolado.

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Ficha de jogo

Portimonense-Sporting, 1-3

3.ª jornada da Primeira Liga

Estádio Municipal de Portimão, em Portimão (Algarve)

Árbitro: Carlos Xistra (AF Castelo Branco)

Portimonense: Ricardo Ferreira, Anzai, Willyan, Jadson, Henrique (Lucas Fernandes, 45′), Pedro Sá, Rómulo, Aylton Boa Morte, Cevallos (Dener, 68′), Bruno Tabata, Iury (Jackson Martínez, 63′)

Suplentes não utilizados: Gonda, Hackman, Rodrigo, Marlos Moreno

Treinador: António Folha

Sporting: Renan, Thierry, Coates, Mathieu, Acuña (Borja, 88′), Doumbia, Wendel (Eduardo, 79′), Raphinha, Bruno Fernandes, Vietto, Luiz Phellype

Suplentes não utilizados: Maximiano, Neto, Plata, Rafael Camacho, Diaby

Treinador: Marcel Keizer

Golos: Raphinha (2′ e 65′), Luiz Phellype (5′), Rómulo (9′, gp)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Boa Morte (65′)

O Sporting chegava a esta partida depois de ganhar ao Sp. Braga, num jogo em que foi para o intervalo a vencer por dois golos de diferença e passou o segundo tempo a sofrer para segurar o resultado, e uma vitória frente ao Portimonense significava o encarreirar num período de maior acalmia — ainda que o dossiê de Bas Dost ainda não esteja fechado, ainda que o dossiê Bruno Fernandes ainda não esteja fechado, ainda que o dossiê da substituição do holandês e do português em caso de dupla saída esteja longe de estar fechado. Dentro dos relvados, ainda assim, os leões tinham a possibilidade de chegar à segunda vitória consecutiva e de carimbar, desde logo, dois resultados positivos contra duas equipas historicamente difíceis para o Sporting.

Marcel Keizer só fazia uma alteração face ao onze que jogou contra os minhotos, trocando Diaby por Vietto, e incluía na convocatória Gonzalo Plata, o jovem avançado que está em Alvalade desde janeiro e que foi uma das figuras em destaque na Copa América. Bas Dost, cuja transferência teve ao longo da semana acusações do Sporting ao agente do avançado, acusações do agente do avançado ao Sporting, acusações do Eintracht Frankfurt ao Sporting e poucos ou nenhuns avanços propriamente ditos, voltava a ficar de fora dos escolhidos — ainda que tenha feito trabalho de ginásio na quinta-feira e treinado com a equipa na sexta. Do outro lado, António Folha não mudava nada na equipa que na semana passada venceu o Tondela e já contava com Jackson Martínez no banco de suplentes.

A introdução de Vietto no onze inicial leonino trazia à baila uma das questões mais discutidas no âmago do Sporting ao longo deste início de temporada: o coabitar do argentino e de Bruno Fernandes no meio-campo. Os instantes iniciais da partida mostraram rapidamente que Vietto ia descair na esquerda, ao passo que Bruno Fernandes o faria na direita e mais atrás do que Raphinha, com o argentino a jogar perto de Wendel e a explorar terrenos interiores para aparecer na faixa central e criar desequilíbrios numéricos. Foi precisamente essa superioridade de elementos numa zona muito próxima da grande área algarvia que acabou por despoletar um arranque demolidor do Sporting na partida: Vietto aparecia pelo meio, Raphinha deixava o corredor para oferecer linhas de passe na faixa central, Bruno Fernandes desmarcava-se nas costas do ala brasileiro e Luiz Phellype recuava muitas vezes, trazendo consigo centrais do Portimonense. Pedro Sá, que nos primeiros 20 minutos foi driblado três vezes, tinha pouca ajuda de Jadson e Rocha, que pareciam muito preocupados em marcar Luiz Phellype, e estava praticamente sozinho contra quatro elementos ofensivos muito perigosos.

O primeiro golo apareceu logo aos dois minutos, com Raphinha a receber na direita de Bruno Fernandes, a fazer o tal movimento do corredor para dentro para depois tirar um adversário e rematar de pé esquerdo, em arco, para inaugurar o marcador. O segundo surgiu instantes depois, com Vietto a abrir muito bem para Bruno Fernandes, com um passe na diagonal que rasgou toda a defesa algarvia, e o capitão leonino serviu Luiz Phellype, que em frente à baliza deserta só precisou de encostar para aumentar a vantagem (5′). Num início absolutamente alucinante em Portimão, o Portimonense conseguiu alcançar uma grande penalidade na primeira vez que chegou junto da baliza de Renan, com Mathieu a fazer falta sobre Iury, e Rómulo converteu, reduzindo a desvantagem (9′).

Ainda que a primeira parte tenha terminado sem mais golos — Xistra chegou a assinalar uma grande penalidade a favor do Sporting depois de consultar o VAR mas voltou atrás quando alertado para uma falta de Thierry no início da jogada –, a verdade é que leões e algarvios protagonizaram 45 minutos de grande qualidade em Portimão. Bruno Fernandes esteve perto de fazer o terceiro, num lance que só não deu golo porque Rocha tirou em cima da linha (37′), e Iury teve na cabeça o empate (39′), e a equipa de Marcel Keizer ia beneficiando de algo que ainda não se tinha visto esta temporada: um entendimento entre Vietto e os restantes colegas, com relevância para Bruno, Wendel, Raphinha e Luiz Phellype, que se materializava em passes de desmarcação, arrancadas que arrastavam adversários e uma qualidade que vinha na etiqueta do argentino mas que ainda não tinha sido testada.

Na segunda parte, António Folha lançou desde logo Lucas Fernandes no lugar de Iury. As duas equipas tiveram dificuldades em recuperar o ritmo do primeiro tempo e os dez minutos iniciais depois do intervalo arrastaram-se entre interrupções, faltas e períodos de pouco discernimento. Ainda assim, era o Portimonense que procurava ter o controlo do jogo e procurar o empate, subindo em larga escala a percentagem de posse de bola e circulando durante vários segundos para depois começar a construção de forma pensada. A equipa de Keizer sofria principalmente com a maior lateralização do jogo de Vietto, que deixou de ocupar a faixa central com tanta frequência e passou a jogar mais encostado à direita, sem espaço para soltar os passes em profundidade que apanharam a defensiva algarvia desprevenida na primeira parte. Foi nesta fase de superioridade dos algarvios que Folha tentou fazer o xeque-mate, ao colocar Jackson Martínez na frente de ataque, mas a resposta do Sporting à entrada do colombiano foi demolidora.

[Carregue nas imagens para ver alguns dos melhores momentos do Portimonense-Sporting:]

Num lance em que Bruno Fernandes teve demasiado tempo para pensar, olhar para trás, pôr o pé em cima da bola e decidir o que ia fazer, o capitão leonino cruzou a partir da esquerda para o segundo poste, onde apareceu Raphinha com um movimento acrobático a fazer o terceiro dos leões e o segundo da conta pessoal (65′). Marcel Keizer reagiu ao golo com a entrada de Eduardo para o lugar de Wendel, numa tentativa de controlar um meio-campo que estava volátil e que era a peça-chave para impedir as transições ofensivas do Portimonense, que estava muito adiantado no terreno, e segurar o resultado. A fatura do ritmo elevadíssimo da primeira parte foi cobrada no quarto de hora final, onde os dois conjuntos não conseguiram esconder uma quase obrigatória quebra de rendimento provocada pelo desgaste físico.

O Sporting somou assim a segunda vitória consecutiva num terreno historicamente complicado e sobe ao topo da Primeira Liga, ficando agora à espera de saber o que faz o Famalicão em Guimarães para perceber se fica ou não em primeiro de forma isolada. Contra um Portimonense de António Folha cuja qualidade é inegável, os leões assinaram uma exibição convincente — a melhor da época — e não permitiram que a segunda parte da partida com o Sp. Braga, muito sofrida e passada a defender, se repetisse, decidindo a partida com o terceiro golo e mantendo as linhas numa posição intermédia. Luciano Vietto, muito criticado ao longo da pré-época e no início da temporada pelas exibições sofríveis, pelos erros consecutivos e pela total falta de encaixe com os colegas de equipa, fez toda a diferença no meio-campo leonino, descobriu linhas de passe e esteve permanentemente muito móvel e ligado à partida. Mais do que isso, mostrou a Marcel Keizer que, afinal, pode existir uma maneira de coexistir com Bruno Fernandes dentro de campo sem que se anulem um ao outro.

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