Tudo começou quando a 29 de novembro do ano passado uma mulher foi detida depois de o seu filho recém-nascido ter recebido alta do Hospital de São João. Esta costureira de 29 anos, residente em Famalicão, tinha entrado na zona dos cuidados intensivos, onde o filho se encontrava a receber cuidados médicos, e, perante o choro da criança, começou a dar-lhe palmadas no rabo com tal violência que o bebé até bateu com a cabeça nos braços de uma cadeira, sempre chamando-lhe “demónio” e “filho da p…”. O caso é relatado na edição desta segunda-feira do Jornal de Notícias a propósito da recente decisão do Tribunal da Relação do Porto em manter esta mulher em prisão preventiva.

O jornal cita o que se passou com base na acusação do Ministério Público, que procura condenar esta mãe por dois casos de violência doméstica agravada, mas esta é só a “ponta do iceberg”, já que os maus-tratos começaram muito antes.

O bebé  nasceu em setembro do ano passado sem qualquer problema de saúde ou má formação e desde então permaneceu ao cuidado quase exclusivo da mãe, já que o pai trabalhava durante todo o dia e à noite precisava de descansar — até dormia num quarto separado. Quando a criança tinha um mês, teve de ser levada pela mãe ao Centro de Saúde de Famalicão, onde lhe diagnosticaram uma gastroenterite, e foi a partir desta data que começaram os maus-tratos: “Após tal data, no interior da residência, sempre que o menor chorava de forma inconsolável e prolongada, a arguida pegava nele ao colo e abanava-o, de forma violenta, o que sucedeu por várias vezes”, relata o MP ao explicar que este comportamento abusivo acabou por causar hemorragias intercranianas na criança, de tal forma que até eram visíveis nos seus olhos.

Onze dias após a visita ao Centro de Saúde o bebé começou a vomitar e a mãe levou-o ao Hospital de Famalicão — ao analisá-lo, os médicos verificaram que o perímetro do cérebro do bebé tinha aumentado consideravelmente, de 38,5 centímetros para 42, chegando, mais tarde, a alcançar os 45. As hemorragias internas foram detetadas também e tudo isto fez com que o bebé fosse enviado para os cuidados intensivos. Com o passar do tempo foi mostrando sinais de que estava a melhorar mas certo dia, relata a acusação, quando a criança estava a chorar na enfermaria, testemunhas viram-na a gritar: “És um demónio, choras porque és mau”. Durante essa madrugada, poucos dias antes do episódio que garantiria a sua detenção, deu várias violentas palmadas nas nádegas da criança que, entretanto, foi colocada ao cuidado de uma família de acolhimento e aparenta ter melhorado — apesar de eventuais repercussões dos ferimentos causados no cérebro só se poderem verificar mais tarde.

A mulher em questão mantém-se assim em prisão preventiva, aguardando julgamento, enquanto o pai, contaram vizinhos do casal ao JN, se mudou para o Algarve onde está a tentar refazer a sua vida. Já foi confirmado que nada sabia sobre os maus-tratos e os próprios vizinhos também dizem só ter sabido quando a mulher foi detida.