Metade do país está a ribombar com os avisos meteorológicos de trovoada emitidos pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) em pleno agosto. Os distritos de Viana do Castelo, Braga, Porto, Aveiro, Portalegre, Évora e Beja estão pintados de amarelo no mapa de avisos meteorológicos. Vila Real, Bragança, Viseu, Guarda e Castelo Branco esperam avisos laranja. Mas, se Portugal é geograficamente tão pequeno, porque é que chove em alguns sítios e noutros estamos com sol?

A resposta, explica o IPMA ao Observador, não está apenas no ar. As trovoadas previstas para esta segunda-feira estão a ser provocadas por “um vale que está a passar nos níveis mais altos da atmosfera”. “Os movimentos atmosféricos são como ondas no oceano. Há picos e vales, tal como no mar. E agora o país vai ser sobrevoado por um vale que trará baixas pressões atmosféricas”, concretiza a meteorologista.

Chuva, trovoada e granizo: cinco distritos sob aviso laranja

Os centros de baixas pressões atmosféricas geram um movimento de ar convergente que o empurra de fora para dentro. À conta desse movimento, a humidade concentra-se mais e leva à formação de nuvens. Isso é o que está a acontecer por cima de Portugal. “O vale que está a atingir o país tem temperaturas mais baixas, enquanto a superfície está quente. Isso cria uma instabilidade que leva à formação de nuvens”, descreveu a especialistas ao Observador.

Ora, esse vale está a atingir o país inteiro — é por isso que, mesmo nos distritos livres de avisos meteorológicos, as temperaturas continuam altas mas o céu está mais nublado.

No entanto, a forma como esse vale afeta cada região depende “das características orográficas”, ou seja, das particularidades do relevo; e depende também das temperaturas verificadas em cada ponto do território. “Os locais onde estão previstas trovoadas têm orografia mais alta e estão mais quentes, o que causa maior instabilidade. Pode até trazer queda de granizo, mas como a temperatura à superfície está muito quente pode dissipar antes de chegar ao solo”, conclui a meteorologista.

Como nascem as trovoadas?

Quando duas massas de ar, uma quente e outra fria, colidem — como está a acontecer neste momento em Portugal –, a mais quente, húmida e próxima à superfície tende a subir, porque expande, e tende a tornar-se menos densa. Esse fenómeno é ainda mais pronunciado em zonas montanhosas. Ao subir, o ar condensa e forma nuvens do tipo cumulus e a humidade transforma-se em gotas de água.

A nuvem continuará a crescer enquanto o ar quente também continuar a subir. O mesmo acontece às gotas de água no seu interior, que aumentam de tamanho, tornando as nuvens cada vez mais carregadas e escuras. Entretanto, as gotas cedem à gravidade porque o ar ascendente já não as consegue suportar. Enquanto isso acontece, o ar seco e frio desce ao longo da nuvem, dando um empurrão às gotas de água. É então que começa a chover, a nuvem passa a ser do tipo cumulonimbus e transforma-se naquilo a que os meteorologistas chamam “células de tempestade”.

Essas “células” ganham carga elétrica quando uma massa de ar em movimento no interior da nuvem colide com outra massa. Os cristais de gelo no topo das nuvens são empurrados de um lado para o outro à conta dessa turbulência, fazendo com que colidam uns com os outros. Dessa forma, alguns cristais de gelo perdem eletrões e outros ganham-nos. É isso que cria as cargas positivas no topo das nuvens e negativas no fundo delas.

Em busca do equilíbrio, a parte negativa da nuvem é atraída para o solo, que tem carga positiva. É assim que começa a trovoada: primeiro vê-se o relâmpago, depois ouve-se o trovão.