Há cerca de um ano, no final de agosto de 2018, o Clube Desportivo Estrela anunciou que iria inscrever uma equipa de futebol sénior nas Distritais da Associação de Futebol de Lisboa. O Clube Desportivo Estrela era então o antigo Estrela da Amadora, liquidado e extinto oito anos antes, que depois de regressar através de várias modalidades decidiu dar o passo mais aguardado e lançou-se novamente no futebol sénior a partir do fundo da pirâmide do futebol português. O grupo de antigos sócios que pegou no extinto Estrela da Amadora e o tornou o renovado Clube Desportivo Estrela explicou, na altura, que decidiu empenhar-se em fazer ressurgir o conjunto da Reboleira porque em 2010 “ficou sem clube”. “E é chato ficar sem clube”, disse em entrevista ao Observador o presidente, Rui Silva.

Esta quarta-feira, em Inglaterra, milhares de adeptos ficaram a saber o que é ficar sem clube. O Bury Football Club, um emblema de Manchester fundado em 1885, há 134 anos, foi expulso da EFL, a liga de clubes ingleses, depois de uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) que iria resgatar o clube ter colapsado. O Bury atuava na League One, o terceiro escalão do futebol inglês, já que na temporada passada até conseguiu alcançar a subida depois de ter estado na quarta divisão — em dezembro, o atual dono, Steve Dale, comprou o clube por uma libra, numa altura em que o Bury já lutava contra atrasos no pagamento de salários. No início da época que agora começou, o clube começou desde logo com 12 pontos negativos, um castigo aplicado pela EFL graças à ausência de pagamentos a jogadores, staff, fornecedores, credores e à inexistência de manutenção do estádio. Com o passar das semanas, a liga de clubes foi suspendendo e adiando sem nova data prevista todos os jogos do Bury: ao todo, foram cinco partidas que o clube não disputou. Até que, a 9 de agosto, a EFL deu 14 dias ao Bury para ser adquirido ou para dar provas de sustentabilidade financeira para o resto da temporada.

Têm-se multiplicado as imagens de adeptos em lágrimas nas imediações do estádio do Bury

O prazo terminava às 23h59 da passada sexta-feira, dia 23 de agosto, mas foi alargado até à mesma hora desta terça-feira quando o presidente Steve Dale garantiu, aos microfones da BBC Radio Manchester, que o clube estava vendido e iria sobreviver. Num comunicado na direção oposta, a C&N Sporting Risk, a empresa que tinha realizado a OPA, disse desde logo que seria muito complicado fechar o negócio até ao final do prazo: cenário que se concretizou, já que a EFL anunciou esta quarta-feira a expulsão do Bury, decisão que diz ter tomado “depois de uma longa e detalhada discussão”. “Ninguém queria estar nesta posição. Mas depois de prazos falhados repetidamente, a suspensão de cinco jogos da liga e ainda o facto de não termos recebido as provas que exigimos em relação aos compromissos financeiros e à não materialização de uma eventual OPA, a direção da EFL foi forçada a tomar a mais difícil das decisões”, afirmou a liga em comunicado.

Em Gigg Lane, o estádio do Bury, a notícia foi recebida com lágrimas. Durante os últimos dias, cerca de 300 sócios e adeptos organizaram-se para limpar as bancadas do recinto e deixar pronto, da melhor forma possível, o relvado, numa última esperança de que o jogo agendado para o próximo sábado, contra o Doncaster Rovers, acontecesse. “Têm aparecido aqui homens adultos…homens de 50 anos, homens de 60 anos, a chorar. Alguns deles nem sequer choraram nos casamentos das próprias filhas. Aparecem aqui a chorar copiosamente”, explicou um jovem adepto ao The Guardian, que recorda ainda que o clube conquistou duas Taças de Inglaterra no início do século XX e 1999 estava na segunda liga a lutar pela promoção à Premier League. As imediações de Gigg Lane têm-se tornado, ao longo desta quarta-feira, autênticos memoriais, com muitos adeptos a deixarem flores, bandeiras, cachecóis e mensagens muito críticas ao presidente Steve Dale. Ainda não é certo se o clube vai extinguir-se, se vai proceder com a aquisição e tentar voltar a integrar a EFL na próxima temporada ou se vai procurar um qualquer outro caminho alternativo — por agora, e pelo menos até junho de 2020, o Bury não é reconhecido enquanto clube de futebol em Inglaterra.

Centenas de adeptos e sócios juntaram-se nos últimos dias para limpar as bancadas do estádio, na esperança de que o jogo agendado para este sábado acontecesse

A história do Bury, porém, pode repetir-se já daqui a 14 dias. O Bolton, que há pouco mais de dez anos andava pelas competições europeias e aparecia de forma regular nos dez primeiros da Premier League, recebeu exatamente o mesmo ultimato que o Bury: a EFL deu 14 dias ao clube para encontrar um comprador ou dar provas de sustentabilidade financeira, isto na sequência das negociações com a Football Ventures Limited, a empresa interessada no Bolton, terem colapsado este fim de semana. O caso do clube também de Manchester torna-se ainda mais dramático porque o Bolton esteve na Premier League há pouco tempo, em 2012, e desceu na temporada passada à terceira liga inglesa.

“Todas as partes têm estado em diálogo contínuo ao longo do dia [terça-feira] e estão a trabalhar de perto para completar o negócio. Vamos continuar a trabalhar ao longo da noite se for necessário”, garantiram os administradores do Bolton na noite desta terça-feira, pouco depois de a EFL anunciar o prazo de 14 dias. Nesta altura, o clube perdeu quatro dos cinco jogos oficiais que já disputou esta época, não tem treinador e só cinco jogadores profissionais aceitaram representar o conjunto, sendo o resto do plantel composto por elementos das camadas jovens, todos com 18 anos ou menos. O início do pesadelo do Bolton começou em 2007, coincidindo com a saída do treinador Sam Allardyce, responsável pelo melhor período de sempre do clube.

O Bolton, que há dez anos andava pelas competições europeias, está à beira do precipício

O Bolton sobreviveu à descida nos anos que se seguiram, terminando a temporada sempre na segunda metade da tabela, bateu o recorde de transferências com a chegada do sueco Johan Elmander (que custou mais de oito milhões de libras), mas acabou por cair para o Championship em 2012, no último dia da época. Desde esse ano, o clube não voltou a conseguir a promoção à Premier League e caiu mesmo para o terceiro escalão em 2016 – algo que não acontecia desde 1993 –, ainda que tenha subido logo na temporada seguinte. Aos fracassos desportivos depressa se aliaram os institucionais e financeiros, com o Bolton a chegar a dezembro de 2015 com mais de 170 milhões de libras em dívidas – acumuladas devido a gestões irregulares, falta de pagamento a fornecedores e o fim das receitas do naming do estádio, primeiro com a Reebok e depois com a Macron. Os pedidos de liquidação sucederam-se e o clube só escapou a ficar nas mãos de um administrador apontado pela justiça porque Edwin Davis, antigo presidente do Bolton e um dos homens mais ricos de Reino Unido, emprestou cinco milhões de euros para saldar uma das principais dívidas quatro dias antes de morrer.

Em março, numa altura em que o dono e presidente Ken Anderson garantia que estava a negociar com vários consórcios interessados na aquisição do Bolton, a precária situação financeira tornou-se dramática. Depois de ser tornado público que o clube tinha falhado o pagamento dos salários relativos ao mês de fevereiro, o Telegraph revelou que o centro de treinos esteve fechado durante um dia inteiro devido à falta de dinheiro para comprar comida e bebida para os jogadores. Agora, cinco meses depois, o Bolton que já foi de Fernando Hierro, Jay-Jay Okocha, Nakata e Mário Jardel, tem 14 dias para garantir que não fecha portas. Caso contrário, junta-se ao Bury enquanto histórico da cidade de Manchester que deixa milhares e milhares de adeptos sem clube.