Chama-se “jukebox musical” ao musical de palco ou de cinema que não tem uma banda sonora própria e vai buscar melodias e canções já existentes. “Moulin Rouge”, de Baz Luhrmann é um “jukebox musical” que foi pedir emprestadas canções aos Beatles, Elton John, Dolly Parton ou Phil Collins, tal como o são os dois “Mamma Mia!”, que se serviram em exclusivo de trabalhos dos ABBA. Já “Blinded by the Light-O Poder da Música”, de Gurinder Chadha (a realizadora de “Chuta como Beckham” e “Adeus Índia”), é uma inusitada mistura de filme de Bollywood passado em Inglaterra e com pretensões político-sociais, e de “jukebox musical” só com canções de Bruce Springsteen.

[Veja o “trailer” de “Blinded by the Light: O Poder da Música”:]

O filme é baseado nas recordações de juventude do jornalista e documentarista Sarfraz Manzoor, fanático de Bruce Springsteen, e que se chama aqui Javed, interpretado por Viveik Kalra. Estamos em Luton, na década de 80. Javed frequenta o liceu local, pertence a uma família paquistanesa que emigrou para Inglaterra, tem um pai autoritário e tradicionalista que trabalha numa fábrica de automóveis, nunca se assimilou e quer que o filho vá para a universidade e, se não conseguir ser médico ou advogado, que seja pelo menos contabilista. Só que Javed sente-se plenamente inglês, quer sair de casa e de Luton o mais depressa possível, seguir o seu próprio caminho e escrever para ganhar a vida.

[Veja uma entrevista com a realizadora:]

Um dia, Roops, um colega “sikh”, lhe dá a conhecer a música de Bruce Springsteen e Javed tem uma revelação quase mística. É dele, da sua vida, da sua família, das suas ambições, frustrações, desejos e sonhos que falam as canções de Springsteen, pertencente, tal como ele, a uma família modesta, suburbana e conservadora. E a partir daí, elas vão passar a ser o seu oxigénio, o seu alento, o seu combustível sonoro e anímico, o seu evangelho sob forma musical. Para frisar a importância das canções de Springsteen na vida de Javed, a realizadora sobrepõe os versos na tela enquanto ele as está a ouvir, mostrando a pouca confiança que tem na força emocional e na capacidade sugestiva do seu ator e das próprias canções. “Blinded by the Light-O Poder da Música” é um daqueles filmes que não para de frisar o óbvio, de sublinhar o que o espectador percebeu logo à primeira vez.

[Veja uma entrevista com o ator principal:]

Esta propensão demonstrativa da realizadora está por toda a parte deste filme feel good com tempero ideológico, e que contempla todos os lugares comuns, situações feitas, personagens-tipo e indignações prontas-a-sentir quer das produções de Bollywood, quer das fitas passadas na Inglaterra deste tempo e saídas das mãos de cineastas de esquerda. O pai tirano, a mãe submissa, a irmã discreta mas secretamente “rebelde”, a pressão para seguir a tradição, a namorada contestatária filha de pais abastados e caricaturalmente conservadores, a intolerância social e racial e a miséria económica da era Thatcher (que, a certa altura, num plano insidioso, é assimilada ao extremismo racista), a professora “progressista” compreensiva, o vizinho bondoso e compreensivo, o elogio do multiculturalismo.

[Veja uma cena do filme:]

Tudo isto anda a boiar num molho de canções de Bruce Springsteen que servem também para ilustrar sequências musicais e de dança desajeitadas e pirosas, desembocando num final estereotipadamente edificante e forçadamente feliz, em que até o rígido e opressivo pai de Javed se rende ao talento do filho e ao seu desejo de seguir os seus sonhos, e começa mesmo a ouvir Springsteen no carro. A ficha técnica final informa-nos que Safraz Manzoor já viu Bruce Springsteen (que apadrinha o filme) ao vivo 150 vezes. Que lhe faça muito bom proveito. Mas a julgar por esta pepineira de juntar por números e cantarolar em coro, Bollywood e Asbury Park não vão bem um com o outro.