Adolfo Mesquita Nunes é um fã confesso do festival da Eurovisão e na tarde desta quinta-feira apareceu de headset (microfone em modo mãos livres) e, a dada altura, até com dois microfones nas mãos para apresentar, num estilo mais cénico, o desfile de alguns candidatos a deputados pelo partido que apresentaram as principais medidas, área a área. Foi também nesta sessão que ficou o pedido da líder Assunção Cristas: “Ambição. Não temos de ser pequeninos e poucochinhos”.

O partido já coube num táxi e no fim de tarde desta quinta-feira chegou (na sua mais alta representação) a meio Largo do Caldas para apresentar, ao ar livre, o programa eleitoral que leva a votos nas próximas eleições e com que Cristas pretende agigantar o CDS. Mesquita Nunes, coordenador do documento, fez o primeiro ataque ao único adversário citado pelo partido nesta sessão: o PS. E isto porque, disse o centrista, “desde que o CDS falou na reforma fiscal, começámos a ouvir falar de crise. Agora que o CDS começou a falar de baixar impostos, o PS lembrou-se de falar de crise“.

O ex-vice do partido (que saiu para integrar os quadros da Galp) referia-se à principal bandeira que o partido leva para a campanha das legislativas: a redução do IRS e do IRC. E também aos alertas sobre a possibilidade de uma crise internacional (com a recessão alemã e a guerra comercial entre a China e os EUA) poder pressionar as perspetivas para a economia nacional e que já povoam o discurso de alguns socialistas. Cecília Meireles foi chamada ao palco para corroborar a tese e para garantir que aquilo que o partido está a dizer “é responsável. Não é pôr em causa o equilíbrio das contas públicas, mas que o excedente possa em parte ir para a dívida pública e uma parte, 60%, seja utilizada no alívio da carga fiscal”.

Entrevista a Assunção Cristas: “Se toda a gente acha que vem aí uma crise, o melhor é despachar já o governo do PS”

A própria líder já o tinha explicado de manhã, em entrevista ao Observador. E a medida da redução do IRS já faz parte dos cromos repetidos do CDS nesta pré-campanha. Afinal foram muitas as propostas eleitorais que foi avançando mesmo antes de apresentar o programa eleitoral — coisa que só fez agora.

Nas primeiras filas do cenário montado no Largo Adelino Amaro da Costa (também conhecido por Caldas), onde se situa a sede do CDS em Lisboa, estavam os cabeças de lista do partido às legislativas e outros candidatos a deputados, bem como o único eurodeputado eleito pelo CDS, Nuno Melo. Mas o fim de tarde foi mesmo dos candidatos, sobretudo em lugares potencialmente elegíveis, que passaram em revista as áreas do programa, repetindo medidas que já tinham sido anunciadas, como o alargamento da licença parental para um ano até ao final da próxima legislatura, ou seja, até 2023, que foi reapresentada pelo cabeça de lista por Coimbra, Rui Lopes da Silva.

Ou a proteção de denunciantes, na área da justiça, que Telmo Correia também tocou quando apresentou medidas de combate à corrupção. Ou ainda a ideia de ter dívidas do Estado às empresas abatidas em impostos e a aposta na economia digital. Ana Rita Bessa, outro exemplo, juntou-se a Mesquita Nunes para responder a perguntas sobre saúde, repetindo a ideia de alargamento do subsistema de saúde para os funcionários públicos, a ADSE, aos trabalhadores do privado.

De pé, de microfone na mão, ao lado do apresentador da tarde, houve quem, como João Rebelo, escorregasse no entusiasmo e apelidasse aquele de “programa do Governo”. “Não é, ainda”, corrigia Adolfo Mesquita Nunes. Mas a ambição de Cristas é elevada, embora não quantificada, até porque o último resultado eleitoral deixou o partido em estado de choque — nas noites Europeias não conseguiu eleger o segundo eurodeputado e ficou pelos 6% de votação, atrás do Bloco de Esquerda e do PCP.

Sobre isso disse apenas que o “foco claro é nas pessoas” e que gosta “muito” da “palavra ambição. Não temos de ser pequeninos e poucochinhos, este programa tem ambição para a vida das pessoas”, disse confiante em “bons resultados”, porque tem “bons candidatos”. Os que, ao mesmo tempo, avisa terem um mês e meio “de intensíssimo trabalho” pela frente. “É preciso todos os dias repetir as ideias”, insistiu perante a plateia democrata-cristã.

A Adolfo Mesquita Nunes agradeceu a coordenação do programa. O ex-deputado não cantou — mesmo que Ana Rita Bessa ainda o tivesse desafiado a dada altura — mas, no fim, todos ao palco. E lá houve música: o hino do partido cantado pela cantora Dina (que morreu este ano), concorrente ao Eurovisão de 1992. Altura em que o CDS cabia, de facto, num táxi, com cinco deputados na bancada. E em que Dina conseguiu apenas o 17º lugar na competição internacional. Hoje o festival democrata-cristão pretende metas mais elevadas, ainda que não diga quais.