Uns mini-cérebros feitos em laboratório nos Estados Unidos produziram ondas cerebrais semelhantes às de um bebé prematuro, anuncia um estudo publicado esta quinta-feira na revista científica Cell Stem Cell. Esta foi a primeira vez que cérebros rudimentares produzidos pelo Homem em laboratório formaram redes de neurónios suficientemente complexas para produzirem ondas cerebrais consideráveis. Ainda assim, os cientistas dizem que os órgãos não eram pensantes nem conscientes.

Estes cérebros, umas esferas brancas com meio centímetro de diâmetro, foram produzidos através de células estaminais recolhidas do sangue e da pele de humanos. As células estaminais são células em bruto que, quando expostas a determinados químicos, podem especializar-se para cumprir determinadas funções. Neste caso, os cientistas expuseram as células estaminais num cocktail avermelhado que as transformou em neurónios — o tipo de células que compõem o sistema nervoso.

Ao fim de cinco meses, esses neurónios especializaram-se em células recetoras de um neurotransmissor envolvido na habilidade para propagar informação ao longo do cérebro. Quatro meses mais tarde, os neurónios começaram também a diferenciar-se em astrócitos, as células maiores e mais abundantes do sistema nervoso central, e daí em neurónios inibitórios. Esses neurónios são os que regulam a atividade cerebral e conseguem impedir a informação de passar de células em célula dentro do cérebro.

Foi nessa fase que os cientistas notaram que os órgãos se estavam a tornar mais complexos, porque umas células excitavam o cérebro enquanto outras acalmavam-no. Além disso, as células conseguiram organizar-se sozinhas, dando origem a uma estrutura semelhante ao córtex humano — a estrutura responsável, entre outras coisas, pela consciência.

Tudo isto foi detetado através de uns elétrodos ligados aos mini-cérebros.  No início, os elétrodos só detetavam sinais esporádicos e sempre à mesma frequência. Ao fim de dois meses, os sinais tornaram-se regulares e tinham frequências diferentes. Este tipo de sinais já tinha sido encontrado no passado, em experiências diferentes, mas nunca tinham ultrapassado os três mil “disparos” por minuto. Agora, a investigação contabilizou quase 300 mil sinais por minuto, o que corresponde ao nível de atividade cerebral que se pode detetar em bebé prematuros com entre seis e nove meses e meio de idade.

Para fazer essa comparação, os cientistas utilizaram um algoritmo que conseguia distinguir a atividade cerebral dos bebés prematuros da que era criada pelos mini-cérebros feitos em laboratório. Ao fim de 25 semanas de análises, o algoritmo já não conseguia diferenciar os sinais vindos dos bebés prematuros daqueles que vinham dos órgãos sintéticos. Para a máquina, os sinais tinham a mesma origem e eram emitidos por cérebros com a mesma idade.