Wang Guodong tinha pouco mais de 30 anos quando, em 1964, lhe foi entregue a ilustre tarefa de pintar o famoso e enorme retrato de Mao Tsé-Tung, o líder comunista chinês que fundou a República Popular da China. O retrato, exposto na histórica Praça de Tiananmen, em Pequim, é pintado desde 1949 — ano em que os comunistas passaram a governar a China — e substituído todos os anos. Durante anos — todos os anos — foi Wang Guodong quem pintou Mao. O artista chinês morreu na sexta-feira num hospital em Pequim, aos 88 anos mas só nesta quinta-feira se soube a notícia.

Apesar da importância do retrato, substituído todos os anos devido à exposição aos elementos, o seu autor era pouco conhecido. Wang Guodong nunca pôde assinar as obras — mas também nunca o pretendeu. E mesmo depois de deixar de ser o “pintor oficial” de Mao Zedong, em 1976, os artistas que se seguiram continuaram a inspirar-se no seu trabalho, escreve o New York Times.

O artista chegou a ser acusado de ser um “capitalista” e foi bastante criticado depois de pintar o retrato de Mao com uma só orelha — o que dava a entender que o líder chinês só ouvia um lado da sociedade. “Não era eu quem decidia quantas orelhas eram pintadas. Era uma decisão do governo central”, explicou numa entrevista em 2006. Ainda assim, foi castigado e humilhado em público, tendo sido depois obrigado a trabalhar como carpinteiro numa fábrica durante dois anos. Durante todo esse tempo, manteve o título de pintor e continuou a retocar o histórico quadro.

Os retratos já foram vandalizados em várias ocasiões. Durante os históricos protestos na praça em 1989, por exemplo, alguns manifestantes atiraram ovos ao quadro que foi prontamente substituído e os manifestantes condenados a longas penas de prisão.

Como reconhecimento do partido comunista chinês pelo seu trabalho, Guodong foi enterrado no sábado em Babaoshan, o cemitério em Pequim reservado para a elite do partido.