Na 10.ª participação consecutiva na Liga dos Campeões, um registo que só Real Madrid, Barcelona e Bayern Munique haviam alcançado, o Benfica é o único representante português e vai à procura de vingar a edição do ano passado, em que caiu para a Liga Europa graças ao poderio do Bayern e do Ajax. Esta época, depois de ter sido campeã nacional, a equipa de Bruno Lage vai tentar chegar o mais longe possível na liga milionária e delineou, de forma assumida, um projeto europeu que visa ir conquistando terreno com o passar dos anos e tornar a Champions, progressivamente, uma prioridade para o clube.

O sorteio da Liga dos Campeões ditou que o Benfica está integrado no Grupo G, em conjunto com os russos do Zenit, os franceses do Lyon e os alemães do RB Leipzig. Em teoria, os encarnados ficaram com o brinde do Pote 1, o Zenit — evitando Juventus, Liverpool, Barcelona e Manchester City, entre outros –, e encontraram duas equipas ditas inferiores mas que podem causar muitos problemas ao conjunto de Bruno Lage.

Zenit, o brinde do grupo dos gigantes

Treinado por Sergei Semak desde maio do ano passado, o Zenit voltou a ser campeão russo na temporada passada, depois de três anos de interregno em que o CSKA Moscovo, o Spartak Moscovo e o Lokomotiv Moscovo dividiram os títulos. O clube de São Petersburgo está de regresso à Liga dos Campeões depois de ter estado na Liga Europa precisamente nos últimos três anos: caiu nos 16 avos de final em 2016/17, eliminado pelo Anderlecht, e nos oitavos em 2017/18 e 2018/19, primeiro com o RB Leipzig que agora reencontra e depois com o Villarreal. No último ano em que o Zenit esteve Champions, em 2015/16, ficou no segundo lugar de um grupo que integrava o Valencia, o Gent e o Lyon, que também volta a encontrar esta temporada, e foi eliminado nos oitavos de final…pelo Benfica.

O brasileiro Malcom mudou-se este verão do Barcelona para o Zenit

Nessa altura, o Benfica de Rui Vitória venceu o Zenit de André Villas-Boas na primeira mão no Estádio da Luz, com um golo solitário de Jonas já no período de descontos, e foi novamente ganhar à Rússia na segunda mão (1-2, golos de Hulk, Gaitán e Talisca). Passaram mais de três anos e o Zenit já não conta nem com Villas-Boas nem com Hulk mas continua a ter uma referência na frente de ataque: Artem Dzyuba, o possante avançado que deu nas vistas no Mundial da Rússia ao serviço da seleção anfitriã, é a principal ameaça à baliza de Vlachodimos. Além de ter o colombiano Wilmar Barríos e o iraniano Sardar Azmoun como soluções ofensivas, o treinador Sergei Semak conta ainda com a enorme experiência do central Ivanovic e do médio Zhirkov, ambos antigos jogadores do Chelsea.

No mercado de transferências, o Zenit perdeu o central Luís Neto para o Sporting — o acordo estava fechado desde janeiro mas só foi consumado no verão — mas reforçou-se com dois brasileiros que elevaram o nível individual da equipa. Douglas Santos, lateral esquerdo que chegou proveniente do Hamburgo, e Malcom, avançado que na temporada passada esteve ao serviço do Barcelona, melhoraram o conjunto russo e tornam mais difícil a tarefa do Benfica.

Lyon, ferido pelo mercado de verão

Na temporada passada, o Lyon ficou no segundo lugar de um grupo que incluía o Manchester City, o Shakhtar Donetsk e o Hoffenheim e passou aos oitavos de final da Liga dos Campeões, onde acabou por cair com o Barcelona — o nulo em França ainda alimentou as esperanças da equipa que ainda era de Bruno Génésio mas uma goleada em Camp Nou (5-1) acabou por deitar por terra as ambições francesas. Na temporada anterior, o Lyon chegou aos oitavos de final da Liga Europa, onde foi eliminado pelo CSKA, e no ano antes chegou mesmo às meias-finais da segunda competição europeia, falhando a final ao perder com o Ajax.

Benfica e Lyon encontraram-se na fase de grupos da edição de 2010/11 da Liga dos Campeões e, na altura, os encarnados venceram na Luz por 4-3 depois de terem perdido em França por 2-0 (Kardec, Javi García e um bis de Fábio Coentrão valeram os quatro golos à equipa de Jorge Jesus, Gourcuff, Gomis e Lovren marcaram para o conjunto orientado por Claude Puel). Depois disso, as duas equipas voltaram a encontrar-se na International Champions Cup do ano passado, na pré-temporada 2018/19, e o Lyon levou a melhor: Marcelo, Traoré e Terrier marcaram para os franceses, Pizzi e um autogolo do mesmo Marcelo reduziram para os encarnados.

Com as saídas de Ndombélé, Mendy e Fekir, o holandês Depay é agora a principal referência ofensiva do Lyon

A nível interno, o Lyon ficou em terceiro na liga francesa do ano passado, a dois pontos do Lille e a 19 do campeão PSG. Bruno Génésio deixou o clube antes do final da época, em maio, e foi substituído pelo brasileiro Sylvinho, antigo lateral de Arsenal, Barcelona e Manchester City. Numa das primeiras ações que tomou enquanto treinador do Lyon, Sylvinho apontou Juninho Pernambucano, ex-jogador e histórico do clube francês, para a posição de diretor para o futebol, numa tentativa de recuperar alguma da identidade do Lyon que se tem perdido nos últimos anos. Além do guarda-redes português Anthony Lopes na baliza, os franceses contam com a qualidade do holandês Memphis Depay no meio-campo — que alguns jogadores do Benfica enfrentaram na final da Liga das Nações — e com a velocidade e a eficácia do francês Moussa Dembélé na frente de ataque.

O verão que está agora a terminar foi particularmente duro para o Lyon, já que o clube perdeu várias das referências do plantel e alguns titulares indiscutíveis: Ndombélé saiu para o Tottenham a troco de 60 milhões, Mendy custou 48 ao Real Madrid e Nabil Fekir saiu para o Betis por perto de 20. Os franceses procuraram reforçar-se — contrataram os médios Reine-Adélaide, Thiago Mendes e Jean Lucas, o central Andersen e o lateral Koné — mas a verdade é que a influência dos três elementos que saíram vai demorar a ser substituída e reencontrada, principalmente tendo em conta que todos eram peças importantes na transição ofensiva do Lyon.

RB Leipzig, os novatos à procura de uma surpresa

Na primeira temporada de Julian Nagelsmann ao comando do RB Leipzig — o austríaco Ralph Hasenhüttl saiu no final da época passada para abraçar o projeto do Southampton na Premier League –, os alemães conseguiram ficar no terceiro lugar da Bundesliga, com o estatuto de “primeiro dos outros” depois de Bayern Munique e Borussia Dortmund. Enquanto clube com pouca história (a fundação oficial data de 2009, há dez anos), o RB Leipzig regista apenas uma presença na Liga dos Campeões, em 2017/18: ficou em terceiro de um grupo onde também estava o FC Porto, caindo para a Liga Europa, onde chegou aos quartos de final e foi eliminado pelo Marselha. No ano passado, os alemães não conseguiram ir além da fase de grupos da Liga Europa, já que ficaram em terceiro do grupo, atrás de Salzburgo e Celtic e à frente de Rosenborg.

O avançado Timo Werner foi cobiçado por alguns dos principais clubes europeus e é a grande referência do RB Leipzig

A nível global — e apesar de ter saído do Pote 4 do sorteio –, o RB Leipzig acaba por ser a equipa cujo plantel tem mais qualidade no seu conjunto. Além do francês Nkunku e do sueco Forsberg no meio-campo o treinador Julian Nagelsmann pode contar com uma frente de ataque de luxo, formada pelo internacional dinamarquês Yussuf Poulsen, pelo alemão Timo Werner (que foi um dos principais nomes do mercado de transferências, acabando por ficar em Leipzig) e ainda pelo austríaco Sabitzer. Na janela de verão, os alemães perderam o português Bruma, que rumou ao PSV, e reforçaram-se precisamente com Nkunku, resgatado ao PSG, o ala Lookman, que chegou do Everton de Marco Silva, e ainda o médio Hannes Wolf.

Sem grande história nas competições europeias, fruto de não ter uma grande história a nível geral, a verdade é que o RB Leipzig pode acabar por ser a equipa que mais problemas vai criar ao Benfica. Habituados a defrontar Bayern Munique e Borussia Dortmund na Bundesliga, os alemães têm rotina no que toca a jogos de nível Champions e podem surpreender os encarnados.