O Presidente brasileiro Jair Bolsonaro classificou como “esmola” os 20 milhões de esmola oferecidos pelo G7 na semana passada, não clarificando se o Brasil irá aceitar ou não o pacote financeiro.

Numa transmissão em direto no Facebook, esta quinta-feira, Bolsonaro pronunciou-se sobre o incidente, reforçando que os países europeus estão a tentar “comprar o Brasil às prestações”. “Tivemos um encontro na terça-feira com os governadores da região amazónica. E ali, só um falou em dinheiro, [sobre] aquela esmola oferecida pelo Macron”, disse, referindo-se ao Presidente francês Emmanuel Macron, com quem tem trocado farpas.

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“O Brasil vale muito mais do que vinte milhões de dólares. Eu já tinha dito, há poucas semanas, que alguns países europeus estavam a comprar o Brasil às prestações. Deram mais de mil milhões de dólares (mais de 900 milhões de euros) ao todo, no últimos 10 ou 12 anos. Agora, digam-me o que é que foi feito com esse dinheiro? Apontem um hectare que tenha sido replantado. Uma ação positiva. Não há nada. Grande parte foi para organizações não-governamentais (ONG) meterem ao bolso”, questionou o Presidente.

Bolsonaro não esclareceu, no entanto, se o país irá aceitar ou não a oferta das sete maiores economias do mundo. Essa é uma posição que ainda não foi esclarecida pelo Governo brasileiro. Na terça-feira passada, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Ernesto Araújo, rejeitou os 20 milhões, dizendo que “o Brasil não aceitará nenhuma iniciativa que implique relativizar a soberania sobre o seu território, qualquer que seja o pretexto e qualquer que seja a roupagem”.

Horas depois, Bolsonaro recuava: “Eu falei isso? Eu falei? Jair Bolsonaro falou?”, perguntou aos jornalistas, antes de explicar que impõe como condição que Macron retire “os insultos” que fez.

Primeiro, me chamou de mentiroso. E depois, informações que eu tive, de que a nossa soberania está em aberto na Amazónia. Para conversar ou aceitar qualquer coisa da França, que seja das melhores intenções possíveis, ele vai ter que retirar essas palavras e daí a gente pode conversar”, disse o Presidente brasileiro sobre o homólogo francês.

Também o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, aumentou a confusão ao dizer que os 20 milhões talvez fossem mais úteis para reflorestar a Europa. “Macron não consegue sequer evitar um previsível incêndio numa igreja que é património da humanidade e quer ensinar o quê para nosso país?”, disse, referindo-se ao incêndio na catedral de Notre Dame de Paris. E dentro do Partido Social Liberal (PSL) de Bolsonaro outras vozes se juntaram ao coro de indignação com o Presidente francês, como a deputada Carla Zambelli. Num vídeo gravado em espanhol (e legendado em francês e inglês), Zambelli menciona também o incêndio em Notre Dame e, numa mensagem claramente dirigida à comunidade internacional, lamenta as “críticas irrazoáveis” de Macron.

Durante a transmissão no Facebook, Bolsonaro voltou também a criticar as Organizações Não-Governamentais (ONG) ambientais. Para o Presidente brasileiro, o número elevado de queimadas na floresta amazónica não estará tão ligado à desflorestação, mas sim aos incêndios provocados por mão criminosa das ONG, que estariam descontentes com o corte de subsídios estatais. “O problema não é desmatar, é desmamar esse pessoal”, reforçou Jair Bolsonaro esta quinta-feira.

E o Presidente abordou ainda a demarcação de áreas indígenas: “Aproximadamento 200 áreas indígenas estão prontas a ser demarcadas. (…) Ou seja, hoje em dia, 14% do território brasileiro já está demarcado como terra indígena, mas se eu demarcar todas essas áreas que estão a pedir, esse valor passa para 20%. Simplesmente a agricultura, pecuária, ficariam inviabilizadas no Brasil”.

Augusto Heleno, o ministro brasileiro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), que acompanhou Bolsonaro na transmissão, acrescentou que as atuais demarcações indígenas devem ser todas revistas, por haver “demarcações fraudulentas”, que terão sido “aumentadas na sua extensão para alguém lucrar com isso”.

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