Passou cerca de um mês e meio desde que a seleção norte-americana de futebol feminino venceu a Holanda na final do Mundial que decorreu em França, sagrando-se bicampeã do mundo. A vitória inequívoca naquela que é a maior competição a nível internacional no panorama do futebol feminino, baseada numa qualidade global e individual superior que se explica através dos anos de investimento na modalidade, tornou-se especialmente importante face ao momento que a seleção vive nesta altura.

Ganharam o Mundial, conquistaram uma voz: Estados Unidos vencem Holanda e revalidam título mundial

Além da reconstrução interna e externa realizada nos últimos anos, além do confronto entre Megan Rapinoe e Donald Trump ao longo do Mundial, além da dificuldade em exercer uma renovação face à retirada da geração liderada por Hope Solo e Abby Wambach, os Estados Unidos foram para o Mundial meses depois de terem processado a própria Federação por discriminação a nível salarial e laboral. A vitória naquele que foi considerado o Mundial mais importante de sempre tornou-se um statement: a seleção norte-americana, mais do que a mais mediática do mundo, é a melhor do mundo.

E ser a melhor seleção do mundo merece uma celebração. Para comemorar a conquista do bicampeonato mundial, os Estados Unidos estão a cumprir uma Victory Tour que começou com um jogo contra a Irlanda, continua com dois compromissos com a seleção portuguesa e vai terminar com outras duas partidas com a Coreia do Sul. Esta quinta-feira, em Filadélfia, Portugal cumpria o primeiro de dois jogos com a seleção campeã do mundo e os Estados Unidos recordavam nas redes sociais que desde o último encontro entre as duas equipas — em novembro, no Estoril — a Seleção Nacional não voltou a perder (nesse dia perdeu por 0-1).

Esta quinta-feira, mesmo tendo defrontado a seleção norte-americana em novembro, as jovens jogadoras portuguesas cumpriam um autêntico sonho: em Filadélfia, no estádio dos Eagles da liga de futebol americano, a equipa portuguesa foi recebida por um aparato à americana e digno de um jogo de Campeonato do Mundo. Para a Seleção Nacional, que está a usar este duplo compromisso enquanto preparação para o apuramento para o Euro 2021, jogar contra os Estados Unidos foi esta quinta-feira muito mais do que cumprir um encontro particular. A seleção norte-americana, ainda assim, estava desprovida de várias jogadoras habitualmente titulares — Alex Morgan, Megan Rapinoe e Rose Lavelle estão todas lesionadas — e atuava com uma frente de ataque composta por Tobin Heath, Christen Press e a capitã Carli Lloyd. Do outro, Portugal atuava com aquela que é a equipa tipo da seleção: Patrícia Morais na baliza e Ana Borges, Cláudia Neto, Dolores, Jéssica Silva e Vanessa Marques no onze inicial.

A seleção norte-americana chegou à vantagem ainda antes dos cinco minutos

A seleção norte-americana chegou à vantagem logo aos quatro minutos, com Tobin Heath a responder ao segundo poste a um cruzamento rasteiro a partir da esquerda depois de uma abertura que se seguiu a uma perda de bola da seleção portuguesa. Apesar da surpreendente pressão alta da Seleção Nacional, que começou a partida com as linhas subidas e os setores muito juntos, a verdade é que era notória a diferença de nível entre os dois conjuntos: os Estados Unidos acabaram por aumentar a vantagem aos 18 minutos, com Morgan Brian a cabecear de cima para baixo na sequência de um canto na esquerda, e a eficácia da seleção campeã do mundo, que estava longe de asfixiar Portugal, ia decidindo o jogo.

A Seleção Nacional acabou por conquistar um bom período antes do intervalo, mais solta nos movimentos e a manter a posse de bola no meio-campo defensivo adversário durante algum tempo, algo que não tinha conseguido fazer durante os primeiros 35 minutos. Perante um estádio totalmente lotado, já que foram vendidos 40 mil bilhetes, Francisco Neto lançou Andreia Norton e Fátima Pinto ao intervalo (para os lugares de Cláudia Neto e Joana Marchão) e Jill Ellis colocou em campo Sam Mewis, Crystal Dunn e Jessica McDonald. Jill Ellis que, por sua vez, já anunciou que vai deixar o comando da seleção norte-americana no final desta Victory Tour, depois de cinco anos no cargo e dois Mundiais conquistados.

Na segunda parte, Portugal começou melhor mas acabou por sofrer o terceiro golo por intermédio de Carli Lloyd, que apareceu na cara de Patrícia Morais depois de um ressalto na grande área portuguesa (52′). Ainda assim, a seleção portuguesa realizou um segundo tempo acima da média, com mais bola e a atacar de forma consistente — ainda que sempre com dificuldades na hora da concretização ou do último passe. A equipa orientada por Francisco Neto beneficiou da entrada de Andreia Norton, principalmente, que intensificou as transições ofensivas e serviu de elo de ligação entre o meio-campo e Diana e Jéssica Silva, algo que tinha falhado durante toda a primeira parte. Ainda assim, e no seguimento de uma enorme jogada individual de Lloyd na direita, Long acabou por se antecipar a Patrícia Morais para aumentar a vantagem (82′).

O 4-0 acabou por manter-se até ao final da partida, num resultado francamente razoável tendo em conta as diferenças inegáveis entre as duas equipas, as distintas realidades dos dois lados e o adiantar da preparação dos dois conjuntos nesta fase da temporada. Mais do que o marcador, a Seleção Nacional deixou o relvado de Filadélfia esta quarta-feira com a noção de que tinha acabado de cumprir um sonho: jogou perante 40 mil pessoas, num ambiente digno de Campeonato do Mundo e contra aquelas que são as melhores jogadoras de futebol da atualidade. E o próximo dia de sonho é já na madrugada de terça para quarta-feira (1h), em Saint Paul, no Minnesota.