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Teatro

Violência, amor e desejo numa “peça negra” sobre as famílias atuais

Artistas Unidos estreiam a 11 de setembro um espetáculo com texto de Claudio Tolcachir. Há uma "mãe coagem" que perdoa tudo, um marido desesperado, um filho alienado e uma mulher à beira do abismo.

Isabel Muñoz Cardoso e Pedro Estima numa encenação de Jorge Silva Melo

JORGE_GONCALVES

Autor
  • Bruno Horta
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Quem é Emília, personagem central da peça que os Artistas Unidos se preparam para estrear? Surge-nos como velhota ingénua e vencida, perspicaz e intrometida, maternal e corajosa – vivida em palco por Isabel Muñoz Cardoso. Ela foi a ama de Walter, agora um homem feito, com mulher e filho adotivo, a lutar como um desesperado para manter funcional e feliz essa estranha família. Reencontram-se numa casa. “Esta mulher é do mais fiel e do mais nobre que possas imaginar. É a pessoa que mais gostou de mim, que mais cuidou de mim em toda a minha vida. É minha mãe? É minha avó? É minha mulher? Não, é minha ama”, dirá Walter. Mas quem é ela, realmente? E que papel terá no desencadear das tensões e ilusões que alimentam Walter, eterno menino de peito a quem perdoa todas as falhas?

A peça intitula-se precisamente “Emília”, é um texto de 2013 do argentino Claudio Tolcachir, ator, dramaturgo e encenador nascido em Buenos Aires, em 1975, descrito como um dos nomes cimeiros do “teatro de texto” atual. A versão dos Artistas Unidos, encenada por Jorge Silva Melo, tem estreia marcada para 11 de setembro no Teatro da Politécnica, em Lisboa, onde ficará até 9 de outubro. Pode ser descrito como um espetáculo sobre os laços familiares atuais, a violência doméstica, o papel das mulheres na educação dos homens, as dependências emocionais e as suas consequências. O texto foi traduzido por Maria João Machado e o elenco é composto por Américo Silva, Andreia Bento, Isabel Muñoz Cardoso, João Estima e Pedro Carraca.

É a terceira vez que os Artistas Unidos trabalham um texto de Tolcachior, depois de “O Vento num Violino”, há um ano, e “A Omissão da Família Coleman”, este apenas em gravação para rádio, transmitido em 2017 pela Antena 2. Trata-se da “trilogia da família”, no dizer de Jorge Silva Melo, mas já não se encontra aqui a “família desagregada” das peças de Tennessee Williams, nem a “família melancólica” de Tchekhov ou a “família agressiva” de Fassbinder.

Em “Emília” surge um retrato novo e contemporâneo, capaz de incluir as realidades domésticas cada vez mais diversas do nosso tempo. “Temos uma família que se deseja, mas não corresponde à família biológica. As personagens estão todas em erro de paralaxe. Apaixono-me por este, caso com aquele, mas gosto é de outro. Ninguém está na relação prevista biologicamente”, explicou Jorge Silva Melo numa conversa com a imprensa, esta semana, depois de um ensaio. “É uma peça negra. Eles querem uma família, mas não conseguem. Em todo o caso, é uma família que procura estabelecer-se a partir dos afetos e não do sangue, dos genes.”

[Vídeo promocional de “Emília”:]

EMÍLIA de Claudio Tolcachir No Teatro da Politécnica de 11 de Setembro a 19 de Outubro3ª e 4ª às 19h00 | 5ª e 6ª às 21h00 | Sáb. às 16h00 e às 21h00Tradução | Maria João Machado Com Américo Silva, Andreia Bento, Isabel Muñoz Cardoso, João Estima e Pedro Carraca Cenografia | Rita Lopes Alves e José Manuel Reis Figurinos | Rita Lopes Alves Luz | Pedro Domingos Assistência | Inês Pereira Encenação | Jorge Silva Melo A Classificar pela CCE

Posted by Artistas Unidos on Monday, July 29, 2019

“Talvez Emília seja nesta história quem pode vangloriar-se de uma fidelidade amorosa inquebrável, que está na sua natureza e a levará ao extremo do sacrifício trágico”, escreveu Claudio Tolcachir quando a peça estreou em Madrid, em 2014. “Talvez seja a história de meninos-homens que precisam de ama. Uma história de perdedores conscientes e assustados da sua condição”, acrescentou.

O texto ganhou, em 2017, o Prémio Ubu, o mais prestigiado galardão de teatro em Itália, ocasião em que Giulia Lazzarini, como Emília, foi distinguida como Melhor Atriz. Daí que Jorge Silva Melo considere tratar-se do papel indicado para “uma atriz de certa idade”, neste caso, Isabel Muñoz Cardoso. Ela é uma “mãe coragem”, classificou, em referência à personagem clássica criada por Bertolt Brecht. “Já não há muitos papéis hoje para atrizes com mais de 60 anos, aquelas que são muito conhecidas e conseguiram resistir a tudo. Esta peça oferece essa possibilidade, é um papel de ouro, mas difícil.”

O encenador estabeleceu também um paralelismo entre “Emília” e o filme “Roma”, do mexicano Alfono Cuarón, este ano distinguido com três Óscares, incluindo o de Melhor Realizador. “A peça foi um grande êxito na Argentina e penso que o ‘Roma’ tem relação com isto”, referiu. Em ambas as criações, há protagonismo de figuras femininas em espaços domésticos e num contexto de crise social.

Sobre as próximas peças dos Artistas Unidos, Jorge Silva Melo revelou que em janeiro irá apresentar “A Máquina Hamlet“, de Heiner Müller, com João Pedro Mamede como protagonista. “Finalmente consegui juntar o elenco, é uma peça que ando a tentar fazer há uns 10 anos e foi sendo sempre adiada”, explicou.

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